Seus companheiros de navio olharam para ele e riram.
— Sete infernos, garoto — disse um deles. — Talvez o capitão consiga para si uma destas, mas somente se ele vendesse o seu navio sangrento. Este tipo de buceta é para senhores e tais, não para aqueles como nós.
As cortesãs de Bravos eram famosas em todo o mundo. Cantores cantavam delas, ourives e joalheiros banhava-as com presentes, artesãos imploravam pela honra de sua companhia, príncipes mercantes pagavam resgates reais para tê-las em seus braços nos bailes, festas e shows, e bravosianos matavam uns aos outros em seus nomes. Enquanto ela empurrava seu carrinho de mão pelos canais, Cat às vezes vislumbrava uma delas flutuando, a caminho de uma noite com algum amante. Cada cortesã tinha seu próprio barco, e servos para levá-las para seus encontros. A Poetisa sempre tinha um livro à mão, a Sombra da Lua usava apenas branco e prata, e a Rainha Merling nunca era vista sem suas sereias, quatro jovens donzelas no rubor de sua primeira floração, que seguravam o vestido e lhe penteavam o cabelo. Cada cortesã era mais bonita que a anterior. Mesmo a Senhora Veiled era bonita, apesar de apenas aqueles que ela aceitava como amante já tinham visto seu rosto.
— Eu vendi três amêijoas para uma cortesã — Cat disse aos marinheiros. — Ela me chamou enquanto saía de seu barco.
Brusco tinha deixado claro para ela que ela nunca deveria falar com uma cortesã, a menos que esta falasse primeiro, mas a mulher havia sorrido para ela e lhe pagado em prata, dez vezes mais do que as amêijoas valiam.
— E qual era essa? A Rainha do Berbigão, não é?
— A Pérola Negra – ela os contou. Marry afirmou que Pérola Negra era a cortesã mais famosa de todas. — Ela é descendente dos dragões, esta ai. — A mulher havia dito a Cat. — A primeira Pérola Negra era uma rainha pirata. Um príncipe de Westeros a pegou como uma amante e teve uma filha com ela, que cresceu para ser uma cortesã. Sua própria filha a seguiu, e sua filha depois dela, até chegar a esta ai. O que ela disse a você, Cat?
— Ela disse ‘Eu vou levar três berbigões, e você tem um pouco de molho quente, pequenina? Cat’. — a garota respondeu.
— E o que você disse?
— Eu disse ‘Não minha senhora’ e, ‘não me chame de pequenina.
Meu nome é Cat’. Eu deveria ter molho quente, Beqqo tem, e ele vende três vezes mais ostras do que Brusco.
Cat disse ao homem bondoso sobre Perola Negra também.
— Seu verdadeiro nome é Bellegere Otherys — ela o informou. Isto era uma das três coisas que ela havia aprendido.
— É verdade — o sacerdote disse suavemente. — Sua mãe ela Bellonara, mas a primeira Pérola Negra era Bellegere também.
Cat sabia que aos homens do Macaco de Bronze não importaria o nome da mãe de uma cortesã, ela pensou. Ao invés disso ela pediu-lhes notícias dos Sete Reinos, e da guerra.
— Guerra? — Riu um deles — Que guerra? Não há nenhuma guerra.
— Não em Vila Gaivota — disse outro. — Não no Vale. O pequeno senhor nos mantém fora disso, do mesmo modo que sua mãe fez.
Mesmo modo que sua mãe fez. A Senhora do Vale era irmã de sua mãe.
— Lady Lysa — ela disse. — Ela está...?
— ...Morta? — terminou o menino sardento cuja cabeça estava cheia de cortesãs. — assassinada pelo próprio cantor.
— Oh. — Não tem nada a ver comigo. A gata dos canais nunca teve uma tia. Ela nunca teve. Cat levantou seu carrinho de mão e se afastou do Macaco de Bronze, balançando sobre paralelepípedos.
— Ostras, mexilhões e berbigões — ela gritava — Ostras, mexilhões e berbigões.
Ela vendeu a maioria dos seus mexilhões fora do carregamento de engrenagens e vinho do grande navio da Árvore, e o restante para os homens que estavam concertando uma galera de comercio, a Myrish, que havia sido atacada pelas tempestades.
Mais abaixo nas docas, ela foi até Tagganaro, sentado de costas para um empilhamento, perto de Casso, Rei das Focas. Ele comprou alguns mexilhões dela, e Casso deixou que ela mexesse em suas barbatanas.
— Venha trabalhar comigo, Cat — pediu Tagganaro enquanto chupava os mexilhões de suas conchas. Ele vinha procurando um novo parceiro desde que a filha de Drunken colocou sua faca através da pequena mão de Narbo. — Eu lhe darei mais do que Brusco, e você não irá cheirar como peixe.
— Casso gosta do jeito que eu cheiro — ela disse. O Rei das Focas latiu como se concordasse — A mão de Narbo não está melhor?
— Três dedos não dobram — reclamou Tagganaro entre mexilhões.
— Quão bom é um batedor de carteiras que não pode usar os dedos? Narbo era um bom batedor de carteiras, mas não tão bom em escolher prostitutas.
— Merry diz o mesmo. — Cat estava triste, ela gostava do pequeno Narbo, mesmo ele sendo um ladrão. — O que ele vai fazer?
— Puxar um remo, ele diz. Dois dedos são suficiente para isso, ele acha, e o Senhor do Mar está sempre procurando por mais remadores. Eu digo a ele, ‘Narbo, não. Este oceano é mais frio que uma donzela e mais cruel do que uma prostituta. Melhor seria se você cortasse sua mão e mendigasse’. Casso sabe que eu estou certo. Não sabe, Casso?
A foca fez um barulho e Cat teve que sorrir. Jogou outro berbigão sem seu caminho antes de sair dali sozinha.
O dia estava quase acabando quando Cat chegou ao Porto Feliz, através do beco onde os navios estavam ancorados. Alguns dos cantores sentavam-se no convés dos navios, passando um odre de vinho de mão em mão, mas quando viram o carrinho de mão de Cat, eles desceram para comprar algumas ostras. Ela perguntou-lhes como foi com Os Sete Remadores Bêbados. Joss o Melancólico balançou a cabeça.
— Quence acabou de encontrar Allaquo na cama com Sloey. Eles foram um para o outro como espadas de mentira, e os dois nos deixaram.
Nós seremos apenas cinco remadores bêbados esta noite, ao que parece.
— Devemos nos esforçar para compensar na embriagues o que nos falta em remadores — declarou Myrmello. — Posso dizer que estou à altura da tarefa.
— O Pequeno Narbo quer ser um remador — Cat disse-lhes. — Se vocês o pegarem, teriam seis.
— Você faria melhor se fosse ver Alegria. — Joss disse a ela. — Você sabe como ela fica azeda sem suas ostras.
Quando Cat escorregou para dentro do bordel, porém, ela encontrou Alegria sentada na sala comum com os olhos fechados, ouvindo Dareon tocar sua harpa de madeira. Yna estava lá também, trançando o fino e longo cabelo dourado de Lanna. Outra estúpida canção de amor. Lanna estava sempre pedindo a cantora para tocar suas estúpidas canções de amor. Ela era a mais nova das prostitutas, apenas quatorze anos. Alegria cobrava três vezes mais por ela do que por qualquer outra menina. Cat sabia.
Ela ficou brava ao ver Daeron sentado ali tão descarado, fitando Lanna enquanto seus dedos dançavam ao som da harpa. As prostitutas o chamavam de Cantor Negro, mas dificilmente havia algo negro nele agora.
Com as moedas que o seu canto lhe trouxe, o corvo havia se transformado em um pavão. Hoje ele usava um manto de veludo púrpura, uma túnica branca e lilás listrada, e as calças multicoloridas de um bravosi. Mas, ele usava um manto de seda também, e um feito de veludo cor de vinho que era forrado com um pano-de-ouro. A única coisa negra nele eram suas botas. Cat tinha ouvido ele dizer a Lanna que tinha jogado todo o resto em um canal.
— Eu estou farto da escuridão — ele anunciara.
Ele é um homem da Patrulha da Noite, ela pensou, enquanto ele cantava sobre uma estúpida senhora que se jogou de uma estúpida torre porque seu estúpido príncipe estava morto. A senhora deveria ir matar aqueles que mataram o príncipe dela. E o cantor deveria estar na Muralha.