Em Bravos, pareceu possível que Aemon pudesse se recuperar.
Quando Xhondo falou de dragões, o ancião quase pareceu voltar a ser o que era. Naquela noite ele comeu até a última mordida do que Sam havia colocado diante dele.
— Ninguém nunca pensou em uma garota, — disse ele. — Foi um príncipe que nos prometeram, não uma princesa. Rhaegar, eu pensei... a fumaça era do fogo que devorou o Salão de Verão no dia de seu nascimento, o sal das lágrima derramadas por aqueles que morreram. Ele compartilhou minha crença quando era jovem, porém depois ele se convenceu de que a profecia se cumpriria em seu filho, pois um cometa foi visto sobre Porto Real no dia do nascimento de Aegon, e Raeghar estava seguro de que a estrela sangrenta havia de ser um cometa. Quão estúpidos fomos! Nos achávamos tão sábios. O erro veio da tradução. Os dragões não são machos nem fêmeas. Eles são agora um e agora o outro, tão mutáveis como as chamas. A linguagem nos enganou por mil anos. Daenerys é a enviada, nascida entre sal e fumaça. Os dragões provaram isto. — Falar de sua família parecia torná-lo mais forte. — Tenho que ir vê-la. Eu devo. Gostaria de ser dez anos mais jovem.
O velho estava tão determinado que caminhou por conta de suas próprias pernas pela prancha do Vento Canela, após Sam fazer os arranjos de sua passagem. Ele já tinha dado sua espada para Xhondo, o reembolsando assim pela perda do manto de penas, quando salvou Sam do afogamento.
Não tinha mais nada de valor exceto os livros que havia retirado de Castelo Negro. Sam se separou deles com melancolia.
— Eles foram feitos para a Cidadela, — disse ele, quando Xhondo lhe perguntou o que estava errado. Quando essas palavras foram traduzidas, o capitão riu.
— Quhuru Mo disse que os homens cinzentos ainda terão esses livros, — Xhondo lhe disse. — Eles os comprarão de Quhuru Mo. Os meistres pagam bem por livros que ainda não têm com prata, e também ouro.
O capitão também queria a corrente de Aemon, mas Sam não deixou. É uma grande vergonha para qualquer meistre entregar sua corrente, ele explicou. Xhondo teve que repetir isso três vezes para Quhuru Mo concordar. Quando eles fecharam o negócio, Sam não tinha mais suas botas, suas roupas pretas ou mesmo suas roupas interiores, nem o chifre quebrado de Jon Snow que tinha encontrado no Punho dos Primeiros Homens.
Eu não tive escolha, disse Sam a si mesmo. Nós não poderíamos ter ficado em Bravos, roubando e mendigando, e não havia outra forma de pagar a passagem. Teria pago três vezes mais, e ainda acharia barato, se tivessem conseguido levar Aemon em segurança até Vilavelha.
A passagem pelo sul tinha sido tempestuosa, e cada novo vendaval diminua a força e o ânimo do velho ancião. Em Pentos, ele pediu para ser trazido ao convés, para que Sam, em palavras, pintasse um retrato da cidade para ele. Essa foi a última vez que ele deixou a cama do capitão. Pouco tempo depois, seus pensamentos começaram a vaguear novamente. Quando o Vento Canela passou diante da Torre Sangrenta para parar no Porto de Tyrosh. Aemon não disse nada sobre tentar encontrar um navio que os levasse ao leste. Em vez disso começou a falar de Vilavelha e os arquimeistres da cidadela.
— Você tem que convencê-los Sam, — disse-lhe. — Aos arquimeistres. Tem que fazer com que entendam. Os homens que viveram na Cidadela enquanto eu estava lá já estão mortos há 50 anos. Estes de agora não me conhecem. Minhas cartas... Em Vilavelha, devem ter lido como delírios de um homem velho, cuja inteligência fugiu. Você tem que convencê-los, Sam, porque eu não posso. Diga-lhes, como é depois da muralha, como são as criaturas, os caminhantes brancos, o frio que rasteja.
— Eu vou, — Sam prometeu. — Vou juntar a minha voz à sua, meistre. Nós dois vamos dizer a eles, nós dois juntos.
— Não! Respondeu o velho. Tem que ser você. Diga a eles. A profecia... O sonho do meu irmão... Melisandre interpretou mal os sinais.
Stannis... Stannis tem um pouco do sangue de dragão. Seus irmãos fizeram o mesmo. Rhaelle, a filha de Egg... mãe de seu pai... ela costumava me chamar de tio meistre quando era apenas uma garotinha. Lembrei-me que, assim que me permiti ter esperança... talvez eu quisesse... todos nós nos enganamos, quando queríamos acreditar em algo. Melisandre foi a que mais se enganou, esta é a espada errada, ela tem que saber... luz sem calor... um glamour vazio, esta é a espada errada, a luz falsa só pode nos aprofundar ainda mais na escuridão. Sam, Daenerys é a nossa esperança. Diga a todos na Cidadela.
Faça-os ouvir. Eles devem a enviar um meistre. Daenerys deve ser aconselhada, ensinada, protegida. Por todos esses anos que se passaram eu fiquei esperando, assistindo, e agora que o tempo chegou, eu estou velho demais. Eu estou morrendo, Sam. — Lágrimas escorreram de seus olhos cegos e brancos. — A morte não deveria assustar a um homem de minha idade, mas tenho medo. Que estupidez, não? Se é sempre tão escuro onde eu estou, por que tenho medo da escuridão? No entanto, eu não posso ajudar, mas me pergunto o que vai acontercer quando o último calor deixar o meu corpo. Será sempre festa no salão dourado do Pai, como diz o septão? Vou falar com Egg novamente, encontrar Dareon inteiro e feliz, ouvir minhas irmãs cantando para seus filhos? E se for verdade o que diz os senhores dos cavalos? Será que passearei pelo céu noturno, eternamente, montado em um garanhão feito de chamas? Ou terei que voltar a este vale de lágrimas? Quem pode dizer, realmente? Quem já atravessou de volta a parede da morte?
Apenas as criaturas, e nós sabemos como elas são! Nós sabemos.
Sam não tinha resposta às perguntas do velho, mas deu a ele o pouco conforto que podia. Goiva veio logo em seguida e cantou para ele uma canção sem sentido que havia aprendido com as outras esposas de Craster.
Conseguiu fazer com que Aemon sorrisse, e depois o ajudou a ir dormir.
Esse foi o último de seus dias bons. Depois disso passava mais tempo dormindo do que acordado, enrolado sob uma pilha de peles na cabine do capitão. Às vezes ele murmurava enquanto dormia. Quando ele acordava, mandava chamar Sam, insistindo que tinha algo para dizer. Mas quase sempre esquecia as palavras quando ele chegava, e, quando ele se lembrava, sua conversa era sempre confusa. Ele falou de sonhos, mas nunca nomeando o sonhador, de uma vela de vidro que não poderia ser acesa e de ovos que não poderiam ser chocados. Ele disse que a esfinge era o enigma, não a charada, o que quer que isso significasse. Ele pediu para Sam ler um livro do Septão Barth, cujos escritos foram queimados durante o reino de Baelor, o Bem Aventurado.
Certa vez ele acordou chorando.
— O dragão deve ter três cabeças — ele lamentou, — mas eu sou muito frágil para ser uma delas. Eu deveria estar com ela, mostrando-lhe o caminho, mas meu corpo me traiu.
Quando o Vento Canela cruzou os Degraus, Meistre Aemon já tinha esquecido o nome de Sam. Às vezes o confundia com um de seus irmãos mortos.
— Ele era muito frágil para uma viagem tão longa, — disse Sam a Goiva na proa, após tomar mais um gole de rum. — Jon deveria ter visto isso. Aemon tinha cento e dois anos de idade, ele nunca deveria ter sido enviado para o mar. Se ele tivesse ficado em Castelo Negro, poderia ter vivido por mais dez anos.
— Ou então ela poderia o ter queimado. A mulher vermelha. — Mesmo aqui, a mil milhas da muralha, Goiva ainda relutava em dizer o nome de Melisandre. — Ela queria o sangue de reis para seus incêndios. Val sabe o que ela fez. Jon Snow também. Por isso me fizeram levar o bebê de Dalla e deixar o meu no lugar. Meistre Aemon foi dormir para não mais acordar, mas se ele tivesse sobrevivido, ela o teria queimado.