— Oh, sim. Dezeis para ele, e três para você.
Isso não fazia sentido para Cersei. Seu polegar estava latejando onde ela tinha se cortado, e o sangue estava pingando sobre o tapete.
Como pode ser isso? Ela queria perguntar, mas ela já havia acabado com suas perguntas.
A velha no entanto não havia terminado para ela.
— O ouro deve ser as suas coroas e suas mortalhas, — disse ela.
— E quando suas lágrimas te afogarem, o valonqar deve envolver as mãos sobre sua garganta pálida e sufoca-la até a morte.
— O que é um valonqar? Um monstro? — A menina de ouro não estava gostando da previsão. — Você é uma mentirosa, uma sapa e uma selvagem velha e fedida, e eu não acredito em nenhuma palavra do que você diz. Saia Melara. Ela não vale a pena ser ouvida.
— Eu tenho três pergunts também, — insistiu a amiga. E quando Cersei puxou seu braço, ela se contorceu e se livrou, e voltou para a velha. — Vou casa com Jaime? — Ela deixou escapar.
Sua garota estúpida, a Rainha pensou, com raiva até mesmo agora. Jaime não sabe nem que você existe. Naquela época, seu irmão vivia apenas para espadas, cães e cavalos ... e para ela, sua irmã gêmea.
— Não Jaime, nem qualquer outro homem, — disse Maggy. — Vermes terão a sua virgindade. Sua morte está aqui esta noite. Pode cheirar seu hálito? Está bem perto.
— O único cheiro que podemos respirar é o seu, — Cersei disse.
Havia um pote de alguma poção espessa perto de seu cotovelo, colocado em uma mesa. Ela agarrou-o e jogou-o nos olhos da velha. Na vida a velha tinha gritado para elas em uma estranha língua estrangeira, e as amaldiçoou enquanto elas fugiram da tenda. Mas no sonho a face da bruxa se dissolveu, derretendo em fitas de névoa cinza até que tudo que restava eram dois olhos amarelos, os olhos da morte.
O valonqar deverá envolver as mãos sobre sua garganta, a Rainha ouviu, mas a voz não pertencia a mulher idosa. As mãos emergiram das brumas do seu sonho e enrolaram seu pescoço, mãos grossas e fortes. Acima deles, flutuava o seu rosto, olhando de soslaio para ela com olhos incompatíveis. Não, a Rainha tentou gritar, mas os dedos do anão apertaram seu pescoço, asfixiando seus protestos. Ela chutou e gritou em vão. Em pouco tempo ela estava fazendo o mesmo som que seu filho havia feito, o som de sucção terrível que marcou o último suspiro de Joff na terra.
Ela acordou ofegante no escuro, com o cobertor ferindo-a no pescoço. Cersei arrancou-o tão violentamente que se rasgou, e sentou-se com os seios arfando. Um sonho, disse a si mesma, um sonho antigo e confuso, isso é tudo. Taena foi passar a noite com a pequena rainha de novo, por isso era Dorcas que dormia ao lado dela. A Rainha apertou a garota no ombro.
— Acorde, e encontre Pycelle. Ele vai estar com Lorde Gyles, eu espero. Traga-o aqui rápido. — Ainda meio adormecida, Dorcas tropeçou da cama e foi correndo para o outro lado da câmara para pegar suas roupas, seus pés descalços sobre o piso.
Depois de bastante tempo, o Grande Meistre Pycelle entrou e parou diante dela com a cabeça curvada, piscando seus olhos de pálpebras pesadas e lutando para não bocejar. Ela olhou como o peso da corrente do Meistre era enorme sob seu pescoço e o arrastava paa o chão.
Pycelle tinha sido velho desde que Cersei conseguia se lembrar, mas houve um momento que ele também havia sido magnífico: ricamente vestido, digno, requintadamente cortês. Sua barba branca imensa lhe tinha dado um ar de sabedoria. Tyrion tinha raspado a barba fora, e o que 651
tinha crescido de volta era triste, tufos de cabelo fino e frágil que pouco servia para esconder a carne cor de rosa solta sob o queixo flácio. Este não é um homem, pensou ela, apenas as ruínas de um. As celas pretas roubaram-lhe toda a força que tinha. Isso, e a navalha do Duende.
— Quanto anos você tem? — Cersei perguntou, abruptamente.
— Oitenta e quatro, se agradar Vossa Graça.”
— Um homem mais jovem me agradaria mais.
O velho passou a língua pelos lábios.
— Eu tinha quarente e dois anos quando o Conclave me chamou.
Kaeth tinha oitenta quando foi escolhido, e Ellendor estava perto dos noventa anos. Os afazeres do trabalho os esmagaram e ambos estavam mortos antes de completar um ano. Merion veio em seguida, com sessente e seis anos, mas ele morreu de frio a caminho de Porto Real.
Depois o Rei Aegon pediu a cidadela para enviar um homem mais jovem.
Ele foi o primeiro Rei que eu servi.
E Tommen deverá ser o ultimo.
— Eu preciso de uma poção de você. Algo para me ajudar a dormir.
— Um copo de vinho antes de dormir pode...
— Eu bebo vinho, seu idiota cretino. Preciso de algo mais forte.
Algo que não me deixe sonhar.
— Vossa Graçã não deseja sonhar?
— O que acabei de dizer? Suas orelhas ficaram tão fracas quanto seu pau? Você pode me fazer a tal poção, ou devo pedir ao Lorde Qyburn para corrigir outras de suas falhas?
— Não. Não há necessidade de envolvê-lo... envolver Qyburn.
Sono sem sonhos. Você terá a sua poção.
— Bom. Você pode ir. — Quando ele se virou em direção a porta ela o chamou de volta. — Mais uma coisa. O que a Cidadela ensina sobre profecias? Podem ser preditos nossos futuros?
O velho hesitou. Uma mão enrugada tateou cegamente seu peito, procurando pela barba que não estava mais lá.
— Se o futuro pode ser predito? — Ele repetiu lentamente. — Provavelmente. Há certas magias nos livros antigos... ao invés disso,Vossa Graça pode perguntar — Nosso futuro deve ser contado? E
para isso eu deveria responder: — Não. Algumas portas é melhor serem mantidas fechadas.
— Feche a minha porta quando você sair. — Ela deveria ter sabido que ele lhe daria uma resposta tão inútil como ele próprio era.
Na manhà seguinte ela quebrou seu jejum com Tommen. O garoto parecia muito fraco; bater em Pate tinha servido ao seu propósito ao que parece. Eles comeram ovos fritos, pão frito, bacon e algumas laranjas vermelhas recém-chegadas de navio de Dorne. Seu filho teve a participação dos seus gatinhos. Enquanto ela observava os gatos brincando sob seus pés, Cersei sentiu-se um pouco melhor. Nenhum dano será feito a Tommen enquanto eu viver. Ela iria matar metade dos senhores em Westeros e todo o povo, se era isso que deveria ser feito para mantê-lo seguro.
— Vá com Jocelyn, disse ao menino depois que comeram.
Então ela foi encontrar Qyburn.
— A Senhora Falyse ainda está viva?
— Viva, sim. Talvez não totalmente... confortável.
— Eu vejo. — Cersei considerou por um momento. — Este homem, Bronn… eu não gosto de saber que tenho um inimigo tão próximo. Seu poder vem todo de Lollys. Se fossemos produzir uma irmã mais velha…
— Ai de mim — disse Qyburn. — Temo que a Senhora Falyse já não seja capaz de governar Stokeworth. Ou, de fato, de se alimentar.
Tenho aprendido muito com ela, é um prazer dizer, mas as aulas não foram totalmente gratuitas. Espero não ter ultrapassado as instruções de Vossa Graça.
— Não. — Tudo que ela tinha pretendido, era tarde demais. Não havia sentido em deliberar sobre tais coisas. É melhor para ela morrer, ela disse a si mesma. Ela não iria querer continuar vivendo sem o marido.
Idiota como ele era, a tola parecia gostar dele. — Há um outro assunto.
Ontem a noite eu tive um sonho terrível.
— Todos os homens tem suas aflições de tempos em tempos.