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— Estes são os homens que invadiram as Salinas.

— Que o Pai julgue-os severamente, — disse Meribald, que tinha sido amigo do velho septão da cidade.

Quem eles eram não preocupava Brienne, e sim quem os tinham pendurado. O enforcamento era o método preferido de execução de Beric Dondarrion e seu bando de foras da lei. Se assim fosse, o chamado senhor dos raios poderia estar bem próximo dali.

O cão latiu, e Septão Meribald olhou em volta com a testa franzida.

— Vamos aumentar o passo? O sol não tardará a se por, e os cadáveres não são uma boa companhia à noite. Estes homens eram escuros e perigosos, vivos. Duvido que a morte os tenha melhorados.

— Nisso estamos em desacordo, — disse Sor Hyle. — Estes são exatamente o tipo de pessoas que estão melhores com a morte. — Tendo dito, ele colocou os calcanhares em seu cavalo, e eles passaram a andar um pouco mais rápido.

Mais adiante as árvores começaram a ficarem escassas, mas não os cadáveres. O bosque deu seu lugar a campos de lama, galhos de árvores para forcas. Nuvens de corvos levantavam voo dos corpos entre grasnidos com a aproximação dos viajantes, e voltavam novamente após eles passarem. Estes homens eram maus, Brienne lembrou a si mesma, mas a visão ainda a deixou triste.

Ela se forçou a olhar para cada homem em busca de rostos conhecidos. Alguns ela pensou reconhecer de Harrenhal, mas a condição deles tornava difícil ter certeza. Nenhum deles tinha um elmo em forma de cabeça de cão, embora alguns tivessem elmos de outras espécies. A maioria tinha sido despojada de suas armas, armaduras e botas, antes de serem enforcados.

Quando Podrick perguntou o nome da estalagem onde eles iriam passar a noite, o Septão Meribald apoderou-se do assunto, talvez para tirar suas mentes das terríveis sentinelas ao longo da estrada.

— A Velha Estalagem, alguns a chamam. Lá existiu uma estalagem por muitas centenas de anos, embora ela tenha sido construída apenas durante o reinado do Jaehaerys primeiro, o rei que construiu a Estrada do Rei. Jaehaerys e sua rainha dormiam lá durante suas viagens, dizem. Por um tempo a pousada foi conhecida como Duas Coroas em sua honra, até que o conservador da estalagem construiu uma torre com um sino, e o seu nome foi alterado para Estalagem do Sino. Mais tarde ela passou para as mãos de um cavaleiro aleijado chamado Longo Jon Liza, que se dedicou ao trabalho de ferreiro quando começou a se sentir velho demais para lutar. Ele forjou um novo signo para o pátio, um dragão negro de ferro com três cabeças, que ele pendurou num poste de madeira. A besta era tão grande que teve de ser feita em uma dezena de peças, unidas com corda e arame. Quando o vento soprava as peças se chocavam umas nas outras, de modo a que a estalagem acabou ficando conhecida como o Dragão Tilintante.

— O signo do dragão ainda está lá? — Perguntou Podrick.

— Não, — disse o Septão Meribald. — Quando o filho do ferreiro ficou velho, um filho bastardo de Aegon Quarto levantou-se em rebelião contra o seu irmão legítimo e adotou como escudo um dragão negro. Essas terras pertenciam a Lorde Darry, e sua senhoria era ferozmente leal ao rei. A visão do dragão de ferro negro o deixava indignado, por isso ele cortou o poste de madeira, e o dragão foi fatiado e depois lançado ao rio. Uma das cabeças do dragão foi achada na Ilha Quieta muitos anos depois, embora, por essa altura, já estivesse vermelha de ferrugem. O conservador da estalagem nunca pendurou outro sinal, assim os homens esqueceram o dragão e passaram a chamar o lugar de Estalagem do Rio. Naqueles dias, o Tridente corria por baixo da porta dos fundos, e metade de seus quartos foram construídas sobre a água. Os hóspedes podiam jogar uma linha pela janela e pegar uma truta, diziam. Também havia um barco que fazia a travessia do rio, assim os viajantes podiam ir para a aldeia do Senhor Harroway e para a Muralha.

— Nós deixamos o sul do Tridente aqui, e andamos em direção ao noroeste... não em direção ao rio, mas para longe dele.

— Sim, minha senhora, — disse o septão. — O rio se moveu. Há setenta anos. Ou oitenta? Foi quando o avô de Masha Heddle cuidava da estalagem. Foi ela quem me contou toda esta história. Uma mulher bondosa, Masha, amante de folhamarga e bolos de mel. Quando ela não tinha um quarto vago para mim, me deixava dormir ao lado da lareira, e ela nunca me deixou seguir meu caminho sem um pouco de pão, queijo e alguns bolos duros.

— Ela é a estalajadeira agora? — Perguntou Podrick.

— Não. Os leões a enforcaram. Depois que eles se mudaram, eu ouvi dizer que um de seus sobrinhos tentou reabrir a estalagem, mas as guerras deixaram as estradas muito perigosas para o povo viajar, assim ele não teve muitos clientes. Ele trouxe prostitutas, mas nem isso o salvou.

Alguns senhores o mataram, eu ouvi falar.

Sor Hyle fez uma careta.

— Eu nunca sonhei que manter uma estalagem pudesse ser tão perigoso.

— O perigo é ser parte do povo quando os grandes senhores jogam o jogo dos tronos, — disse o Septão Meribald. — Não é assim, cachorro? — O cão latiu concordando.

— Então, — disse Podrick, — como se chama a estalagem agora?

— A chamamos de A Estalagem da Encruzilhada. O Irmão Maior

me disse que duas das sobrinhas de Masha Heddle a abriram para o comércio mais uma vez. — Ele levantou seu bastão. — Se os deuses forem bons, esta fumaça que sobe além dos enforcados será a que sai de suas chaminés.

— Eles podem chama-la de Estalagem da Forca — disse Sor Hyle.

Chama-se o que fosse, era uma grande estalagem. Subia três andares acima das estradas enlameadas, suas paredes, suas torres e suas chaminés de uma fina pedra branca brilhavam pálidas e fantasmagóricas contra o céu cinzento. Sua ala sul fora construída sobre pilares de madeira, sobre um terreno cheio de ervas daninhas e grama seca. Na ala norte havia um estábulo com telhados de palha e uma torre com um sino. A estalagem era cercada por um muro baixo de pedras brancas, quebradas, cobertas por musgo.

Pelo menos não a queimaram. Nas Salinas, tinham encontrado apenas morte e desolação. Até o momento Brienne e seus companheiros tinham sido levados de barco para fora da Ilha Quieta, os sobreviventes tinham fugido e os mortos tinham sido enterrados, mas o cadáver da própria cidade permanecia pálido, insepulto. O ar ainda cheirava a fumaça e os grasnidos das gaivotas que sobrevoavam a região pareciam quase humanos, como os gritos das crianças que se perdem. Até mesmo o castelo parecia triste e abandonado. Tão cinza como a cidade que o rodeava, o castelo era um quadrado rodeado por uma muralha, construído de forma que pudesse ser avistado do porto. Ele foi firmemente fechado quando Brienne e os outros tiraram seus cavalos da balsa, e nada se movia em suas ameias. Demorou quinze minutos de latidos de cães e batidas no portão do Septão Meribald para uma mulher aparecer acima deles, lhes perguntando o que queriam.

Por essa altura, o barco já havia partido e a chuva tinha começado a cair.

— Eu sou um septão, boa senhora, — Meribald gritou para ela, — e estes são viajantes honestos. Procuramos abrigo da chuva, e um lugar ao fogo durante a noite. — A mulher foi indiferente a seus apelos. — A estalagem mais próxima fica na encruzilhada, a oeste, — ela respondeu. — Não queremos estranhos aqui. Vão embora.

Quando ela desapareceu, nem as orações de Meribald, nem os latidos do cachorro, nem as maldições de Sor Hyle foram capazes de trazê-la de volta. Eles acabaram passando a noite no mato, debaixo de um abrigo feito de ramos entrelaçados.

No entanto, havia vida na estalagem da encruzilhada. Mesmo antes de chegarem ao portão, Brienne tinha ouvido um som a martelar, fraco, mas constante.

— Uma forja, — Sor Hyle disse. — Ou eles tem um ferreiro, ou o fantasma do velho estalajadeiro está fazendo outro dragão de ferro. — Ele colocou seus calcanhares no cavalo. — Eu espero que eles tenham um cozinheiro fantasma também. Um frango assado fresquinho me deixaria muito feliz.