— Você é uma puta! — Disse um deles, e outro disse:
— Olha como ela está dançando.
Ela dançava, aliviada porque eles apenas assistiam. Melhor isso do que tê-los interferindo. Ela não poderia lutar contra sete, não sozinha, mesmo que um ou dois estivessem feridos. Fazia muito tempo que o velho Sor Goodwin jazia em seu túmulo, no entanto, ela podia ouvi-lo sussurrando em seu ouvido. Os homens sempre subestimam você, ele disse, e seu orgulho vai fazê-los querer vencer rapidamente, para que não se possa dizer que uma mulher os pôs a prova. Deixe-os gastar suas forças em ataques furiosos, enquanto você conserva a sua. Aguarde e observe, menina, aguarde e observe. Ela esperou, observando, movendo-se de lado, depois recuando, em seguida, novamente para os lados, atacando o rosto, depois as pernas, depois o braço. Os golpes dele ficavam mais lentos à medida que o machado ficava mais pesado. Brienne o fez girar de forma que a chuva caísse em seus olhos, e ela rapidamente recuou dois passos. Ele brandiu seu machado novamente, xingando, e se precipitou ao ataque, e seu pé deslizou na lama...
... E ela saltou contra ele, ambas as mãos seguras na espada. A ponta da espada foi até ele, e perfurou através do pano, da cota de malha, do couro e de muito mais pano, e entrou fundo em suas entranhas e em suas costas, raspando em sua espinha. Seu machado caiu dos dedos, e os dois se chocaram, o rosto de Brienne contra o elmo de cabeça de cachorro. Ela sentiu o metal frio e úmido contra o rosto. A chuva corria em rios pelo aço, e quando os relâmpagos novamente iluminaram, ela viu dor, medo e descrença nos olhos dele.
— Safiras, — ela sussurrou para ele, e lhe tocou com a lâmina, o fazendo estremecer. Sentia o seu peso contra ela, e de repente ela se viu abraçada a um cadáver na chuva negra. Ela recuou e o deixou cair...
... e Dentadas se lançou contra ela, gritando.
Ele caiu sobre ela como uma avalanche de lã molhada e carne branca, levantando-a do chão e depois a jogando contra ele. Ela caiu em uma poça, e um esguicho de água foi de encontro ao seu nariz e olhos. Todo o ar foi expulso de seu corpo, e ela bateu a cabeça contra alguma pedra semienterrada.
— Não, — foi tudo o que ela teve tempo de dizer antes dele cair em cima, seu peso a enterrando mais fundo na lama. Uma de suas mãos agarrava seu cabelo, empurrando a cabeça para trás. A outra tateou até a garganta. A espada tinha desaparecido, arrancada de seu alcance. Ela tinha apenas as mãos para combatê-lo, mas quando ela bateu o punho em seu rosto, viu que era como golpear uma massa branca e molhada. Ele silvou para ela.
Ela lhe bateu novamente, novamente e novamente, e com a palma da mão acertou seu olho, mas ele não parecia sentir os golpes. Ela cravou suas unhas nos pulsos dele, mas só conseguiu ser ainda mais sufocada, embora o sangue corresse onde ela o arranhara. Ele estava a esmagando, a sufocando.
Ela empurrou os seus ombros para tirá-lo de cima, mas ele era pesado como um cavalo, impossível de ser movido. Quando ela tentou dar uma joelhada na virilha, tudo que conseguiu foi levar uma joelhada no ventre. Grunhindo, Dentadas arrancou um punhado do cabelo de Brienne.
Meu punhal. Brienne se agarrou a esse pensamento, desesperada.
Ela trabalhou a mão entre eles, os dedos se contorcendo sob sua carne sufocante, tateando, até que finalmente encontrou o cabo. Mordedor colocou ambas as mãos sobre seu pescoço e começou a bater sua cabeça contra o chão. Mais um raio, desta vez dentro de seu crânio, mas de alguma forma, com os dedos apertados, ela puxou o punhal da bainha. Com ele em cima dela, ela não podia levantar a lâmina para apunhalar, assim ela arrastou o punhal sobre sua barriga. Algo quente e molhado jorrou entre os dedos.
Mordedor voltou a silvar, mais alto do que antes, e soltou a garganta dela apenas tempo suficiente para esmagar a sua cara. Ela ouviu o quebrar de ossos, e a dor a cegou por um instante. Quando ela tentou cortar ele de novo, ele arrancou a adaga de seus dedos e bateu o joelho em seu antebraço, quebrando-o. Então ele pegou a cabeça dela novamente e voltou a tentar arrancá-la de seus ombros.
Brienne podia ouvir o latir do cão, e os homens gritavam tudo sobre ela, e entre os trovões, e ela ouviu o choque de aço no aço. Sor Hyle, ela pensou, Sor Hyle juntou-se à luta, mas tudo parecia distante e sem importância. Seu mundo não era maior do que as mãos no seu pescoço e no rosto que pairava acima dela. A chuva pingou do seu capuz quando ele se inclinou. Seu hálito cheirava a queijo podre.
O peito de Brienne estava queimando, e a tempestade cegava seus olhos. Ossos rangiam uns contra os outros dentro dela. A boca de Dentadas estava escancarada, incrivelmente grande. Ela viu os dentes, amarelos e tortos, afiados e pontiagudos. Quando eles se fecharam na carne macia de seu rosto, ela mal o sentiu. Ela podia sentir-se em espiral para baixo no escuro. Eu não posso morrer ainda, disse a si mesma, ainda há algo que preciso fazer.
A boca de Dentadas se afastou, cheia de sangue e carne. Cuspiu, sorriu, e afundou os dentes afiados em sua carne novamente. Desta vez ele mastigou e engoliu. Ele está me comendo, ela percebeu, mas não tinha forças para lutar com ele por mais tempo. Ela se sentia como se estivesse flutuando acima de si mesma, observando o horror como se estivesse acontecendo com alguma outra mulher, com uma garota estúpida que achava que ela era um cavaleiro. Acabaria em breve, disse a si mesma. Então não importa se ele me comer. Dentadas jogou sua cabeça para trás e abriu a boca novamente, urrando, e mostrou a língua para ela. Era pontiaguda, pingava sangue.
Nenhuma língua podia ser tão grande. Entrava e saía de sua boca, entrava e saía, vermelha, molhada, brilhante, era uma visão medonha, obscena. Sua língua tem um palmo de comprimento, Brienne pensou, pouco antes de a escuridão a tomar. Parece uma espada.
JAIME
O broche que prendia o manto de Sor Bryden Tully era um peixe negro, forjado em jato e em ouro. Seu anel era cruel e cinzento.
Acima disso ele usava perneiras, gorjal, manoplas, ombreiras e polainas de aço enegrecido, nenhuma peça nem metade tão escura quanto o olhar em seu rosto enquanto esperava por Jaime Lannister no final da ponte levadiça, sozinho em um corcel castanho ajaezado em vermelho e azul.
Ele não me ama. O Tully tinha um rosto desgastado, profundamente enrugado e queimado pelo vento, debaixo de um coque de um duro cabelo grisalho, mas Jaime ainda podia ver o grande cavaleiro que uma vez havia encantado um escudeiro com os contos dos Reis Nove Centavos. Os cascos de Honra batiam contra as tabuas da ponte levadiça. Jaime tinha pensado muito se deveria usar sua armadura de ouro ou a branca para este encontro; no fim ele escolheu um manto de couro e uma capa escarlate.
Ele parou a uma certa distancia de Sir Bryden e inclinou a cabeça para o homem mais velho.
— Regicida. — Disse Tully.
Assim ele faria desse nome à primeira palavra a sair de sua boca, o que faria Jaime o xingar de diversas formas, mas ele estava resolvido a manter a calma.
— Peixe Negro, — ele respondeu. — Obrigado por vir.
— Eu suponho que você voltou para cumprir os juramentos que fez a minha sobrinha, — Sor Bryden disse. — Se bem me lembro, você prometeu a Catelyn suas filhas em troca de sua liberdade. Sua boca se apertou. E ainda assim, eu não vejo as garotas, onde elas estão?
Ele vai me fazer dizer isto?