— Chá da lua — disse, ao voltar-se para a rainha. — Que tolice da parte dela. Porque haveria de fazer uma coisa dessas, de correr tal risco?
— A pequena rainha tem apetites que Tommen é por enquanto novo demais para satisfazer. — Isso era sempre um perigo, quando uma mulher feita era casada com uma criança. Ainda mais com uma viúva. Ela pode afirmar que Renly nunca lhe tocou, mas eu não acredito. As mulheres só bebiam chá de lua por um motivo; as donzelas não tinham qualquer necessidade da bebida. — O meu filho foi traído. Margaery tem um amante.
Isso é alta traição, punível pela morte. — Só podia esperar que a bruxa de cara de ameixa seca da mãe de Mace Tyrell sobrevivesse o suficiente para assistir ao julgamento. Ao insistir que Tommen e Margaery casassem de imediato, a Senhora Olenna condenara a sua preciosa rosa à espada de um carrasco. — Jaime levou Sor Ilyn Payne. Suponho que terei de encontrar outro Magistrado do Rei para lhe fazer voar a cabeça.
— Eu farei — ofereceu-se Osmund Kettleblack com um sorriso fácil. — Margaery tem um pescocinho bonito. Uma boa espada o atravessará sem dificuldade.
— Atravessaria — disse Taena — mas há um exército Tyrell em Ponta Tempestade e outro em Lagoa da Donzela. Eles também têm espadas afiadas.
Estou lavada em rosas. Era um aborrecimento. Ainda precisava de Mace Tyrell, mesmo que não precisasse da filha . Pelo menos até que Stannis esteja derrotado. Depois, não precisarei de nenhum deles. Mas como podia livrar-se da filha sem perder o pai?
— Traição é traição — disse — mas temos de ter provas, algo mais substancial do que chá da lua. Se se provar que ela é infiel, até o próprio pai terá de a condenar, caso contrário a vergonha dela transforma-se na sua.
O Kettleblack mordeu uma ponta do bigode.
— Temos de os apanhar durante o ato.
— Como? Qyburn tem olhos postos nela de noite e de dia. Os seus criados aceitam as minhas moedas mas trazem-nos só ninharias. E no entanto ninguém viu esse amante. Os ouvidos à sua porta ouvem cantos, risos, mexericos, nada que possamos usar.
— Margaery é demasiada astuta para ser apanhada assim tão facilmente — disse a Senhora Merryweather. — As suas mulheres são as muralhas do seu castelo. Dormem com ela, vestem-na, rezam com ela, lêem com ela, fazem costura com ela. Quando não está fazendo falcoaria ou passeando a cavalo, está brincando de entra-no-meu-castelo com a pequena Alysanne Bulwer. Sempre que há homens por perto, a septã encontra-se presente, ou então as primas.
— Em alguma altura ela terá de se livrar das galinhas — insistiu a rainha. Uma ideia assaltou-a. — A menos que as senhoras também participem... nem todas, talvez, mas algumas.
— As primas? — Até Taena mostrou dúvidas. — Todas as três são mais novas do que a pequena rainha, e também mais inocentes.
— Libertinas vestidas com o branco de donzelas. Isso só torna os seus pecados mais chocantes. Os seus nomes perdurarão em vergonha. — De súbito, a rainha pôde quase saboreá-lo. — Taena, o senhor seu esposo é o meu administrador de justiça. Vocês dois tem de jantar comigo, nesta mesma noite. — Queria aquilo feito depressa, antes de Margaery enfiar na cabecinha a ideia de regressar a Jardim de Cima ou zarpar para Pedra do Dragão para acompanhar o irmão ferido às portas da morte. — Ordenarei aos cozinheiros que cozinhem um javali para nós. E claro que temos de ter alguma música, para ajudar à nossa digestão.
Taena foi muito rápida a compreender.
— Música. Exatamente.
— Vá dizer ao senhor seu esposo e fazer preparativos para o cantor
— disse Cersei. — Sor Osmund, você pode ficar. Temos muito a discutir.
Também terei necessidade de Qyburn.
Infelizmente, as cozinhas revelaram-se desprovidas de javalis, e não havia tempo para pôr caçadores em campo. Em vez disso, os cozinheiros mataram uma das porcas do castelo, e serviram-lhes pernil guarnecido com cravinho e untado com mel e cerejas secas. Não era o que Cersei queria, mas contentou-se com o que havia. Para sobremesa, tinham maçãs cozidas com um forte queijo branco. A Senhora Taena saboreou cada garfada. Não se pôde dizer o mesmo de Orton Merryweather, cuja cara redonda se manteve manchada e pálida do caldo ao queijo. Bebeu muito, e não parou de deitar olhares de soslaio ao cantor.
— Uma grande pena, o que aconteceu a Sor Gyles — disse por fim Cersei. — Contudo, atrevo-me a dizer que nenhum de nós sentirá falta da sua tosse.
— Não. Não, penso que não.
— Vamos ter necessidade de um novo mestre da moeda. Se o Vale não estivesse tão instável, traria de volta Petyr Baelish, mas... estou com ideias de testar Sor Harys no cargo. Ele não pode fazer pior do que Gyles, e pelo menos não tosse.
— Sor Harys é Mão do Rei — disse Taena.
Sor Harys é um refém, e até nisso é fraco.
— Já é tempo de Tommen ter uma Mão mais enérgica.
O Lorde Orton levantou o olhar da taça de vinho.
— Enérgica. Com certeza. — Hesitou. — Quem?...
— Você, senhor. Está no seu sangue. O seu bisavô ocupou o lugar do meu pai como Mão de Aerys. — Substituir Tywin Lannister por Owen Merryweather revelara-se semelhante a substituir um cavalo de batalha por um burro, era certo, mas Owen já era um homem velho e acabado quando Aerys o promovera, amável, ainda que ineficaz. O neto era mais novo, e...
Bem, ele tem uma mulher forte. Era uma pena que Taena não pudesse servir como Mão. Era três vezes mais homem do que o marido, e muito mais divertida. No entanto, também nascera em Myr e era mulher, de modo que Orton teria de servir. — Não tenho dúvidas de que é mais capaz do que Sor Harys. — O conteúdo do meu penico é mais capaz do que Sor Harys. — Consentirá em servir?
— Eu... sim, claro. Vossa Graça concede-me uma grande honra.
Uma honra maior do que merece.
— Me serviu capazmente como administrador de justiça, senhor. E continuará a fazê-lo nos... tempos difíceis que se avizinham. — Quando viu que Merryweather compreendera o que queria dizer, a rainha virou o seu sorriso para o cantor. — E você também deve ser recompensado, por todas as doces canções que tocou para nós enquanto comíamos. Os deuses te concederam um dom.
O cantor fez uma vénia.
— É bondade de Vossa Graça dizê-lo.
— Não é bondade — disse Cersei — é meramente a verdade.
Taena informou-me de que te chamam Bardo Azul.
— Chamam, Vossa Graça — As botas do cantor eram de flexível couro de vitela azul, as bragas de boa lã azul. A túnica que usava era de seda azul clara cortada com cintilante cetim azul. Até chegara ao ponto de pintar o cabelo de azul, à moda de Tyrosh. Longo e encaracolado, o cabelo caía-lhe até aos ombros e cheirava como se tivesse sido lavado em água de rosas. De rosas azuis, sem dúvida. Pelo menos tem os dentes brancos. Eram bons dentes, nem um pouco tortos.
— Não tem outro nome?
Uma sugestão de rosa inundou-lhe o rosto.
— Em rapaz era chamado Wat. É um bom nome para um rapaz do campo, mas menos adequado a um cantor.
Os olhos do Bardo Azul eram da mesma cor dos de Robert.
Bastava isso para Cersei o odiar.
— É fácil compreender por que é o favorito da senhora Margaery.
— Sua Graça é bondosa. Ela diz que lhe dou prazer.
— Oh, estou certa disso. Posso o vosso alaúde?
— Se aprouver a Vossa Graça – Sob a cortesia, havia uma tênue sugestão de desconforto, mas ele entregou-lhe o alaúde mesmo assim. Não se recusa um pedido da rainha.
Cersei fez vibrar uma corda e sorriu perante o som.
— Doce e triste como o amor. Diga-me, Wat... a primeira vez que levou Margaery para a cama foi antes dela casar com o meu filho, ou depois?