Por um momento, ele não pareceu compreender. Quando compreendeu, os seus olhos esbugalharam-se.
— Vossa Graça foi mal informada. Juro, eu nunca...
— Mentiroso! — Cersei bateu com tal força com o alaúde na cara do cantor que a madeira pintada explodiu em cacos e lascas. — Lorde Orton, chame os meus guardas e leve esta criatura para as masmorras.
A cara de Orton Merryweather estava húmida de medo.
— Isto... oh, infâmia... ele atreveu-se a seduzir a rainha?
— Temo que tenha sido ao contrário, mas é na mesma um traidor.
Que cante para Lorde Qyburn.
O Bardo Azul ficou branco.
— Não. — Pingou sangue do seu lábio, onde o alaúde o rasgara. — Eu nunca... — Quando Merryweather lhe pegou no braço, ele gritou: — Mãe, misericórdia, não.
— Eu não sou a sua mãe — disse Cersei.
Mesmo nas celas negras, tudo o que obtiveram dele foi desmentidos, orações e súplicas por misericórdia. Não demorou muito a escorrer-lhe sangue pelo peito abaixo, vindo de todos os dentes partidos, e ele molhou as suas bragas azuis-escuras por três vezes, mas mesmo assim o homem persistiu nas suas mentiras.
— Será possível que tenhamos o cantor errado? — Perguntou Cersei.
— Tudo é possível, vossa Graça. Não tenha medo. O homem confessará antes da noite terminar. —Lá embaixo nas masmorras, Qyburn usava lã grosseira e um avental de couro de ferreiro. Dirigindo-se ao Bardo azul, disse: — Lamento se os guardas foram rudes com você. A educação deles é tristemente deficiente. — A voz era bondosa, solícita. — Tudo o que queremos de você é a verdade.
— Eu disse a verdade — soluçou o cantor. Grilhetas de ferro prendiam-no solidamente à fria parede de pedra.
— Nós sabemos que não. — Qyburn tinha na mão uma navalha, cujo gume cintilava tenuemente à luz do archote. Cortou a roupa ao Bardo Azul, até deixar o homem nu, à exceção das altas botas azuis. Cersei achou divertido ver que os pêlos entre as suas pernas eram castanhos.
— Diga-nos como deu prazer à pequena rainha — ordenou.
— Eu nunca... eu cantei, só isso, cantei e toquei. As suas senhoras o dirão. Elas estiveram sempre conosco. As primas.
— De quantas delas tens conhecimento carnal?
— De nenhuma. Eu sou só um cantor. Por favor.
Qyburn disse:
— Vosso Graça, pode ser que este pobre homem tenha só tocado para Margaery enquanto ela recebia outros amantes.
— Não. Por favor. Ela nunca... eu cantei. Só cantei...
Lorde Qyburn percorreu com uma mão o peito do Bardo Azul.
— Ela põe os seus mamilos na boca durante os jogos de amor? — Pôs um deles entre o polegar e o indicador, e torceu. — Há homens que gostam disso. Os mamilos deles são tão sensíveis como os de uma mulher.
— A navalha relampejou, o cantor guinchou. No seu peito, um olho vermelho chorou sangue. Cersei sentiu-se nauseada. Parte de si queria fechar os olhos, virar costas, para fazer aquilo parar. Mas era a rainha e tratava-se de traição. Lorde Tywin não teria afastado o olhar.
No fim, o Bardo Azul contou-lhes a vida inteira, até ao primeiro dia do seu nome. O pai fora fabricante de velas e Wat fora educado nesse mister, mas em rapaz descobrira que tinha mais habilidade para fazer alaúdes do que cilindros de cera. Aos doze anos, fugira para se juntar a uma trupe de músicos cuja atuação ouvira numa feira. Vagueara por metade da campina antes de vir para Porto Real, na esperança de cair nas boas graças da corte.
— Boas graças? — Qyburn soltou um risinho. — É assim que as mulheres lhe chamam agora? Temo que tenha arranjado demasiadas, meu amigo... e da rainha errada. A verdadeira encontra-se na sua frente.
Sim. Cersei culpava Margaery Tyrell por aquilo. Se não fosse ela, Wat podia ter vivido uma vida longa e frutuosa, cantando as suas cançonetas e deitando-se com criadoras de porcos e filhas de caseiros. As suas intrigas obrigaram-me a isto. Ela conspurcou-me com a sua perfídia.
Ao romper da aurora, as altas botas azuis do cantor estavam cheias de sangue e ele contara-lhes como Margaery se acariciava enquanto via as primas dar-lhe prazer com as bocas. Noutras alturas, cantava para ela enquanto saciava os seus apetites com outros amantes.
- Quem eram eles? - quis saber a rainha, e o infeliz Wat nomeou Sor Tallad, o Alto, Lambert Turnberry, Jalabhar Xho, os gémeos Redwyne, Osney Kettleblack, Hugh Clifton e o Cavaleiro das Flores.
Aquilo desagradou-lhe. Não se atrevia a manchar o nome do herói de Pedra do Dragão. Além disso, ninguém que conhecesse Sor Loras acreditaria em tal coisa. Os Redwyne também não podiam estar incluídos no grupo. Sem a Árvore e a sua frota, o reino nunca poderia esperar ver-se livre daquele Euron Olho de Corvo e dos seus malditos homens de ferro.
— Só está cuspindo os nomes de homens que viu nos seus aposentos. Nós queremos a verdade!
— A verdade. — Wat olhou-a com o único olho azul que Qyburn lhe deixara. Sangue borbulhou através dos buracos que mostrava onde tinham estado os dentes da frente. — Eu posso ter tido... uma falha de memória.
— Horas e Hobber não participaram nisto, pois não?
— Não — admitiu. — Eles não.
— E quanto a Sor Loras, eu tenho a certeza de que Margaery teve todo o cuidado para esconder do irmão o que andava a fazer.
— Teve. Agora me lembro. Uma vez, tive de me esconder debaixo da cama quando Sor Loras veio visita-la. Ele nunca poderá saber, disse ela.
— Prefiro esta canção à outra. — Era melhor deixar os grandes senhores de fora. Mas os outros... Sor Tallad fora cavaleiro andante, Jalabhar Xho era um exilado e um pedinte, Clifton era o único dos guardas da pequena rainha. E Osney é a cereja em cima do bolo. — Sei que se sente melhor por ter dito a verdade. Quero que se lembre disso quando Margaery comparecer ao julgamento. Se começar outra vez a mentir...
— Não começarei. Direi a verdade. E depois...
— ...te será permitido vestir o negro. Tem a minha palavra a esse respeito. — Cersei virou-se para Qybum. — Trate de o limpar e ligar os ferimentos, e de a ele leite da papoula para as dores.
— Vossa Graça é bondosa. — Qyburn deixou cair a navalha ensanguentada num balde de vinagre. — Margaery pode querer saber para onde foi o seu bardo.
— Os cantores vão e vêm, são tristemente famosos por isso.
A subida pela escura escada de pedra que levava às celas negras deixou Cersei sem fôlego. Tenho de descansar. Chegar à verdade era um trabalho cansativo, e temia o que se seguiria. Tenho de ser forte. O que tenho de fazer, faço por Tommen e pelo reino. Era uma pena que Maggy, a Rã, estivesse morta . Merda para a tua profecia, velha. A pequena rainha pode ser mais nova do que eu, mas nunca foi mais bela, e em breve estará morta.
A Senhora Merryweather estava à espera no seu quarto. Era noite Cerrada, mais próxima da aurora do que do ocaso. Jocelyn e Dorcas encontravam-se ambas a dormir, mas Taena não.
— Foi terrível? — perguntou.
— Não pode imaginar. Preciso de dormir, mas temo sonhar.
Taena afagou-lhe o cabelo.
— Foi tudo por Tommen.
— Foi. Eu sei que foi. — Cersei estremeceu. — Tenho a garganta seca. Seja uma querida a servi-me um pouco de vinho.
— Se te agradar. Isso é tudo o que eu desejo.
Mentirosa. Cersei sabia o que Taena desejava. Seja. A mulher estar embevecida consigo só ajudava a assegurar que ela e o marido permaneciam leais. Num mundo tão cheio de traição, isso valia uns quantos beijos . Ela não é pior do que a maioria dos homens. Pelo menos não há perigo de alguma vez me deixar grávida.