Eu queria... Eu queria...
Naquela noite, ela chorou até dormir... pela primeira vez, se não a última. Mesmo em seus sonhos ela não encontrou paz. Ela sonhava com Arys Oakheart a acariciando, sorrindo para ela, dizendo-lhe que a amava... mas ao mesmo tempo as discussões começaram e seus ferimentos choravam, mudando de branco para vermelho. Ainda que sonhasse, parte dela sabia que aquilo era um pesadelo. Pela manhã tudo isso vai desaparecer, a princesa disse a si mesma, mas quando amanheceu, ela ainda estava em sua cela, Sor Arys ainda estava morto, e Myrcella... Eu nunca quis isso, nunca. Eu nunca quis fazer a menina mal nenhum. Tudo o que eu queria era que ela fosse uma rainha. Se não tivéssemos sido traídos...
— Alguém disse, — Hotah tinha dito. A memória ainda a deixava com raiva. Arianne se agarrou a isso, alimentando a chama dentro de seu coração. A raiva é melhor do que lágrimas, melhor do que pesar, melhor do que culpa. Alguém disse, alguém em quem ela confiava. Arys Oakheart morreu por causa disso, morto pelos sussuros do traidor, tanto quanto pelo machado do capitão. O sangue que escorreu pelo rosto de Myrcella, também foi trabalho do traidor. Alguém disse, alguém que ela amava. Isso era o mais cruel de tudo.
Encontrou um baú de cedro cheio com suas roupas aos pés da cama, então retirou os trajes manchados da viagem com os quais tinha dormido, e vestiu as roupas mais provocativas que pode encontrar, tiras de seda que cobriam tudo, mas não escondiam nada. O Príncipe Doran podia tratá-la como uma criança, mas ela se recusava a se vestir como uma. Ela sabia que tal vestimenta iria deixar seu pai desconfortável quando viesse para castigá-la pelo que fez à Myrcella. Ela contava com isso. Se eu tiver que rastejar e chorar, que ele se sinta desconfortável também.
Ela o esperava naquele dia, mas quando a porta finalmente se abriu, entraram apenas os servos com a refeição do meio-dia.
— Quando eu vou poder ver o meu pai? — perguntou ela, mas nenhum deles respondeu. O cabrito tinha sido assado com limão e mel. Com ele iam folhas de uva recheadas com uma mistura de uva passas, cebola, cogumelos e ardentes pimentas de dragão. — Eu não estou com fome, —
disse Arianne. Seus amigos estariam comendo biscoitos e carne salgada em um navio no caminho para Ghaston Grey. — Leve isso para longe, e me tragam o Príncipe Doran. — Mas eles deixaram a comida, e seu pai não veio.
Depois de um tempo, a fome enfraqueceu sua determinação, e ela se sentou e comeu.
Uma vez que a comida não estava mais lá, Arianne não tinha nada para fazer. Ela andou por sua torre, por duas vezes, três vezes e mais três vezes, e três vezes mais. Ela se sentou ao lado da mesa cyvasse e mexeu distraidamente em um elefante. Ela se enrolou no assento da janela e tentou ler um livro, até que as palavras se tornaram um borrão, e ela percebeu que estava chorando de novo . Arys, meu doce, meu cavaleiro branco, por que você fez isso? Você devia ter se rendido. Tentei dizer-lhe, mas as palavras se agarraram em minha garganta. Seu tolo galante, eu nunca quis que você morresse, ou que Myrcella... oh, deuses, sejam bons, aquela menina...
Finalmente, ela se arrastou de volta para o colchão de penas. O mundo já estava escuro, e ela não tinha mais nada para fazer, além de dormir. Alguém falou, ela pensou. Alguém falou. Garin, Drey, e Sylva Pintas eram amigos de infância, tão caros a ela quanto sua prima Tyene. Ela não podia acreditar que tinham a entregado... mas dessa forma, sobrava apenas Estrelanegra, e se ele era o traidor, por que ele voltou sua espada contra a pobre Myrcella? Ele queria matá-la em vez de coroá-la, ele disse isso em Pedrescura. Ele disse que assim começaria a guerra que queria. Mas não fazia sentido Dayne ser o traidor. Se Sor Gerold tinha sido o verme da maçã, por que ele tinha voltado a espada contra Myrcella?
Alguém falou. Poderia ter sido Sor Arys? Teria a culpa do Cavaleiro Branco triunfado sobre a sua luxúria? Ele tinha amado Myrcella mais do que a ela, teria traído sua nova princesa para reparar sua traição cometida contra a antiga? Ele estava tão envergonhado ao ponto de jogar sua vida fora no Sangue Verde, em vez de viver e enfrentar a desonra?
Alguém falou. Quando seu pai viesse vê-la, ela iria descobrir. No entando, o Príncipe Doran não veio no dia seguinte. Nem no dia depois. A princesa foi deixada sozinha para andar, e chorar, e cuidar de suas feridas.
Durante o dia ela tentava ler, mas os livros que eles tinham dado a ela eram mortalmente maçantes: velhos tratados de história e geografia, mapas anotados, um estudo sobre as leis de Dorne tão seco quanto o pó, A estrela de Sete Pontas e Vida dos Alto-Septãos, um tomo enorme sobre dragões que de alguma forma os fez parecerem tão interessante como salamandras.
Arianne teria dado qualquer coisa por um exemplar de Dez Mil Navios ou Os Amores de Rainha Nymeria, qualquer coisa para ocupar seus pensamentos e deixá-la escapar de sua torre por uma ou duas horas, mas tais divertimentos foram negados a ela.
De seu assento na janela, ela tinha apenas que olhar para fora para ver a grande cúpula de ouro, com vitrais coloridas abaixo dela, onde seu pai sentava para governar. Ele vai me convocar em breve, disse a si mesma.
Os únicos visitantes permitidos eram os servos; Bors com sua mandíbula eriçada, Timoth, molhado, alto e digno, as irmãs Morra e Mellei, a pequena e bonita Cedra, e Belandra, que tinha sido criada de cama de sua mãe. Eles traziam suas refeições, arrumavam sua cama e esvaziavam seu penico, mas nenhum deles falava com ela. Quando ela pediu mais vinho, Timoth foi buscar. Se ela desejava algumas de suas comidas favoritas, figos, azeitonas ou pimentões recheados com queijo, só precisava dizer a Belandra, e ela iria aparecer com elas. Morra e Mellei levaram a sua roupa suja e depois devoveram-as limpas e frescas. A cada dois dias lhe levavam uma banheira, e a pequena e tímida Cedra esfregava as suas costas e a ajudava a escovar o cabelo.
No entanto, nenhum deles tinha palavras para ela, nem se dignavam a lhe contar o que estava acontecendo no mundo do outro lado de sua jaula de arenito.
— Estrelanegra foi capturado? — Ela perguntou a Bors um dia. — Eles ainda estão caçando ele? — O homem simplesmente virou as costas para ela e foi embora. — Você ficou surdo? — Arianne vociferou para ele.
— Volte aqui e me responda. Eu te ordeno. — Sua única resposta foi o som de uma porta se fechando.
— Timoth, — ela tentou outro dia, — o que aconteceu com a princesa Myrcella? Eu nunca quis mal a ela. — A última vez em que tinha visto a outra princesa fora no dia de sua viagem de volta para Lançassolar.
Fraca demais para se sentar num cavalo, Myrcella viajou em uma liteira, com a cabeça enrolada em vendas de seda onde Estrelanegra a tinha ferido, seus olhos verdes brilhantes de febre. — Diga-me que ela não morreu, eu imploro. Que mal poderia vir de mim sabendo isso? Diga-me como ela está.
— Timoth não falou.
— Belandra, — Arianne disse, alguns dias depois, — se você já amou minha mãe, tenha piedade de sua pobre filha e diga-me quando o meu pai vai vir me ver. Por favor. Por favor. — Mas Belandra também tinha perdido sua língua.
É a noção do meu pai de um tormento? Sem ferros ou tortura, apenas o simples silêncio? Era tão próprio de Doran Martell que Arianne teve que rir. Ele pensa que está sendo sutil quando está sendo fraco. Ela resolveu desfrutar da calma, usar o tempo para se curar e fortalecer-se para o que viria.