Ela sabia que por mais que pensasse o tempo todo sobre Sor Arys, de nada adiantaria. Em vez disso, ela se fez pensar sobre as serpentes de areia, especialmente Tyene. Arianne amava todos os seus primos bastardos, da irritadiça e esquentada Obara a pequena Loreza, a caçula, de apenas seis anos de idade. Tyene sempre fora a que ela mais amava, a doce irmã que nunca teve. A princesa nunca fora muito próxima de seus irmãos; Quentyn estava fora, em Paloferro, e Trystane era muito jovem. Não, ela sempre tinha estado com Tyene, com Garin, com Drey e Sylva Pintas. Nym, às vezes, se juntava a eles nos esportes, e Sarella estava sempre tentando se enturmar, mas na maioria das vezes, eles formavam um grupo de cinco. Eles brincavam nas piscinas e fontes dos Jardins da Água, e faziam batalhas empoleirando-se uns nos outros. Ela e Tyene aprenderam a ler juntas, aprenderam a cavalgar juntas, aprenderam a dançar juntas. Quando elas tinham dez anos, Arianne roubou uma garrafa de vinho, e as duas se embebedaram juntas. Elas compartilhavam refeições, camas e jóias. Elas teriam compartilhado seu primeiro homem também, mas Drey ficou tão excitado que jorrou nos dedos de Tyene no momento em que ela o tirava das calças. Suas mãos são perigosas. A memória a fez sorrir.
Quanto mais pensava sobre seus primos, mais a princesa sentia falta deles. Pelo que sei, eles podem estar logo abaixo de mim. Em uma noite Arianne tentou bater no chão com o calcanhar da sandália. Quando ninguém respondeu, ela se inclinou por uma janela e olhou para baixo. Ela podia ver outras janelas abaixo, menores do que a sua própria, algumas não eram maiores do que um laço de seta.
— Tyene! — Ela chamou. — Tyene, você está aí? Obara, Nym?
Vocês podem me ouvir? Ellaria? Alguém? TYENE? — A princesa passou metade da noite pendurada para fora da janela, chamando até sua garganta ficar rouca, mas nem um grito em resposta voltou para ela. Isso a assustava mais do que ela poderia dizer. Se as serpentes de areia estivessem presas na Torre da Lança, certamente a teriam ouvido gritar. Por que elas não respondem? Se o pai lhes fez mal, eu nunca vou perdoá-lo, nunca, disse a si mesma.
O tempo de duas semanas se passaram, e sua paciência tinha se desgastado a ponto de ficar fina como papel.
— Vou falar com meu pai agora, — ela disse a Bors, com sua voz mais imponente. — Você vai me levar até ele. — Ele não a levou. — Estou pronta para ver o príncipe, — disse ela a Timoth, mas ele se virou como se não tivesse ouvido. Na manhã seguinte, Arianne estava esperando ao lado da porta quando essa se abriu. Ela fugiu quando Belandra passou, enviando um prato de ovos temperados contra a parede, mas os guardas a pegaram antes dela correr três metros. Ela sabia quem eles eram também, mas eles estavam surdos a suas súplicas. Eles a arrastaram de volta para sua cela, enquanto ela chutava e se contorcia.
Arianne decidiu que tinha que ser mais sutil. Cedra era sua melhor esperança; a garota era jovem, ingênua e crédula. Garin se gabava de ter dormido com ela uma vez, a princesa se lembrou. Na próxima vez em que ela se banhava, enquanto Cedra esfregava seus ombros, ela começou a falar de tudo e de nada.
— Eu sei que você foi ordenada a não falar comigo, — disse ela, — mas ninguém me disse para não falar com você. — Ela falou sobre o calor do dia, e sobre o que ela comeu na ceia na noite anterior, e sobre como a pobre Belandra estava se tornando lenta e dura. Príncipe Oberyn tinha armado cada uma de suas filhas para que elas nunca estivessem indefesas, mas Arianne Martell não tinha outra arma senão a astúcia. E então ela sorriu e encantou, e não pediu a Cedra nada em troca, nem palavra nem aceno.
No dia seguinte ao jantar, ela falou com a garota novamente, enquanto esta estava servindo. Desta vez, ela tramou para mencionar Garin.
Quando Cedra ouviu timidamente o seu nome, quase derramou o vinho que estava servindo. Então, este é o caminho, não é? Pensou Arianne.
Durante seu banho seguinte, ela falou de seus amigos presos, especialmente de Garin.
— É por ele que mais temo, — ela confidenciou a menina que a servia. — Os órfãos são espíritos livres, eles vivem a vagar. Garin precisa de sol e ar fresco. Se eles o prenderem em alguma cela de pedra úmida, como ele vai sobreviver? Ele não vai durar um ano em Ghaston Grey. — Cedra não respondeu, mas seu rosto estava pálido quando Arianne levantou-se da água, ela estava apertando a esponja com tanta força que o sabão estava pingando sobre o tapete de Myr.
Mesmo assim, precisaram se passar mais quatro dias e dois banhos antes de a menina ser dela.
— Por favor, — sussurrou Cedra, finalmente, depois de Arianne ter pintado um retrato vívido de Garin atirando-se pela janela de sua cela, para provar a liberdade uma última vez antes de morrer. — Você tem que ajudá-lo. Por favor, não deixe ele morrer.
— Eu posso fazer pouco ou nada enquanto estiver presa aqui, — ela sussurrou de volta. — Meu pai não vai me ver. Você é a única que pode salvar Garin. Você o ama?
— Sim, — Cedra sussurrou, corando. — Mas como eu posso ajudar?
— Você pode contrabandear uma carta para mim, — disse a princesa. — Vai fazer isso? Você vai correr o risco... por Garin?
Cedra arregalou os olhos. Ela assentiu com a cabeça.
Eu tenho um corvo, Arianne pensou, triunfante, mas a quem vou mandá-lo? O único conspirador que escapara de seu pai era Estrelanegra.
Sor Gerold poderia muito bem já ter sido preso, se não, certamente já teria fugido de Dorne. Seu pensamento seguinte foi a mãe de Garin e os órfãos do Sangue Verde. Não, não eles. Tem que ser alguém com poder real, alguém que não tenha tomado nenhuma parte em nossa intriga, mas que tenha motivos para simpatizar conosco. Ela considerou apelar para sua própria mãe, mas a Senhora Mellario estava longe de Norvos. Além disso, o Príncipe Doran não tinha escutado a senhora sua esposa por muitos anos. Nem ela mesma tinha. Eu preciso de um lorde, um grande o suficiente para que meu pai se acovarde e me liberte.
O mais poderoso dos lordes de Dorne era Anders Yronwood, o Sanguerreal, Lorde de Yronwood e Guardião do Caminho de Pedra, mas Arianne sabia melhor do que ninguém que não adiantaria procurar a ajuda do homem que tinha tido seu irmão Quentyn como pupilo. Não. O irmão de Drey, Sor Deziel Dalt outrora aspirava a se casar com ela, mas ele era muito obediente para ir contra o seu príncipe. Além disso, ainda que o Cavaleiro de Limoeiros pudesse intimidar um pequeno lorde, ele não tinha força para influenciar o Príncipe de Dorne. Não. O mesmo acontecia com o pai de Sylva Pintas. Não. Arianne finalmente decidiu que tinha somente duas esperanças reais: Harmen Uller, Lorde de Toca do Inferno e Franklyn Fowler, Lorde de Skyreach e Guardião do Passo do Príncipe.
Metade dos Uller são meio loucos, dizia um ditado, e a outra metade é pior ainda. Ellaria Sand era filha natural de Lorde Harmen. Ela e seus pequeninos foram trancados com o resto das serpentes de areia. Isso devia ter feito Lorde Harmer se indignar, e os Uller eram perigosos quando indignados. Muito perigosos, talvez. A princesa não queria pôr mais vidas em perigo.
Lorde Fowler poderia ser uma escolha mais segura. O Velho Falcão, ele era chamado. Ele nunca tinha se dado bem com Anders Yronwood; os ressentimentos entre suas casas se remetiam há mil anos, desde quando os Fowler escolheram os Martell no lugar dos Yronwood durante a Guerra de Nymeria. Os gêmeos Fowler eram amigos famosos da Senhora Nym, mas até que ponto isso pesaria ao Velho Falcão?