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O corvo ergueu os olhos do chão. “Sangue” gritou.

Jon não lhe prestou atenção.

— Vou mandar Goiva embora.

— Oh. – Sam abanou a cabeça para cima e para baixo. – Bem, isso é… isso é bom, senhor. – Seria o melhor para ela, ir para algum lugar quente e seguro, bem longe da Muralha e da luta.

— A ela e ao rapaz. Precisaremos arranjar outra ama de leite para o seu irmão de leite.

— Leite de cabra pode servir, até que encontre outra. É melhor para um bebê do que o de vaca. – Sam lera aquilo em algum lugar. Mexeu-se na cadeira. – Senhor, ao procurar nos Anais, encontrei outro rapaz comandante.

Quatrocentos anos antes da Conquista. Osric Stark tinha dez anos quando foi 1escolhido, mas serviu durante sessenta. Foram quatro, senhor. Não esta nem perto de ser o mais novo de sempre. Até agora é o quinto mais novo.

— Sendo que os quatro mais novos são todos filhos, irmãos ou bastardos do Rei no Norte. Diga-me algo de útil. Fala-me do nosso inimigo.

— Os Outros. – Sam lambeu os lábios. – São mencionados nos Anais, embora não com tanta frequência como eu esperava. Isto é, nos Anais que encontrei e vasculhei. Sei que há mais que ainda não encontrei. Alguns dos livros mais antigos estão caindo aos pedaços. As páginas desfazem-se quando tento vira-las. E os livros realmente velhos… ou se desfizeram por completo ou estão enterrados em algum lugar onde ainda não procurei, ou…

bem, pode ser que esses livros não existam e nunca tenham existido. As histórias mais antigas que temos foram escritas depois dos ândalos chegarem a Westeros. Os Primeiros Homens só nos deixaram runas em pedras, de modo que tudo o que julgamos saber acerca da Era dos Heróis, da Era da Alvorada e da Longa Noite vem de relatos escritos por septões milhares de anos mais tarde. Há arquimeistres na Cidadela que questionam tudo isso.

Essas velhas histórias estão cheias de reis que reinaram por centenas de anos, e cavaleiros que andaram por aí mil anos antes de serem cavaleiros. Conhece as histórias: Brandon, o Construtor, Symeon Olhos de Estrela, O Rei da Noite… dizemos que é o nono centésimo nonagésimo oitavo Senhor Comandante da Patrulha da Noite, mas a lista mais antiga que encontrei menciona seiscentos e setenta e quatro comandantes, o que sugere que foi escrita durante…

— Há muito tempo – interrompeu Jon. – E os Outros?

— Encontrei menções a vidro de dragão. Os filhos da floresta costumavam oferecer à Patrulha da Noite cem punhais de obsidiana todos os anos, durante a Era dos Heróis. A maior parte das histórias concorda que os Outros vêm quando está frio. Ou então fica frio quando eles vêm. Por vezes aparecem durante tempestades de neve e desaparecem quando os céus se limpam. Escondem-se da luz do sol e emergem à noite… ou então a noite cai quando emergem. Algumas histórias falam deles montados nos cadáveres de animais mortos. Ursos, lobos gigantes, mamutes, cavalos, não importa, desde que o animal esteja morto. Aquele que matou Paul Pequeno estava montado num cavalo morto, portanto essa parte é claramente verdade. Alguns relatos falam também de aranhas gigantes de gelo. Não sei o que elas são. Homens que caem em batalha contra os Outros têm de ser queimados, caso contrário os mortos voltarão a erguer-se como seus servos.

— Já sabíamos tudo isso. A questão é: como os combatemos?

— A armadura dos Outros é à prova da maior parte das lâminas comuns, se é possível crer nas histórias – disse Sam – e as espadas que eles usam são tão frias que estilhaçam o aço. Mas o fogo os desencoraja, e são vulneráveis à obsidiana. – Recordou aquele que enfrentara na floresta assombrada, e o modo como parecera derreter-se quando o apunhalara com o punhal de vidro de dragão que Jon fizera para ele. – Encontrei um relato da Longa Noite que falava do último herói a matar Outros com uma lâmina de aço de dragão. Supostamente não conseguiam resistir.

— Aço de dragão? — Jon franziu a sobrancelha. — Aço valiriano?

— Essa foi minha primeira idéia também.

— Então se eu conseguir convencer os senhores dos Sete Reinos a nos dar as suas lâminas valirianas, tudo será salvo? Isso não há de ser difícil.

– A gargalhada que soltou não tinha nenhuma alegria. – Descobriu quem são os Outros, de onde vem, o que querem?

— Ainda não, senhor, mas pode ser que tenha simplesmente lido os livros errados. Há centenas que ainda não folheei. Dê-me mais tempo, e encontrarei tudo o que houver para encontrar.

— Não há mais tempo. – O tom de Jon era triste. – Tem que juntar as suas coisas, Sam. Você vai com Goiva.

— Vou? – Por um momento, Sam não compreendeu. – Eu vou?

Para Atalaialeste, senhor? Ou… para onde…

— Vilavelha.

Vilavelha? – O nome saiu num guincho. Monte Chifre ficava perto de Vilavelha. A minha casa. A ideia deixou a sua cabeça zonza. O meu pai.

— Aemon também.

— Aemon? O Meistre Aemon? Mas… ele tem cento e dois anos de idade, senhor, ele não pode… esta mandando a ele e a mim? Quem tratará dos corvos? Se adoecerem ou se ferirem, quem…

— Clydas. Ele está com Aemon há anos.

— Clydas é só um intendente, e está perdendo a visão. Precisa de um meistre. O Meistre Aemon está tão fraco, que uma viagem marítima… –Pensou na Árvore e na Rainha da Árvore e quase se engasgou com a língua.

– Isso pode… ele é velho, e…

— A sua vida estará em risco. Estou consciente disso, Sam, mas o risco aqui é maior. Stannis sabe quem Aemon é. Se a mulher vermelha precisar de sangue real para os seus feitiços…

— Oh. — Sam empalideceu.

— Dareon vai se juntar a vocês em Atalaialeste. A minha esperança é que as suas canções nos conquistem alguns homens no sul. O Melro vai desembarcar em Bravos. A partir daí, arranjarei para vocês a passagem para Vilavelha. Se ainda quiser assumir o bebê de Goiva como seu bastardo, mande-a com a criança para Monte Chifre. Se não, Aemon encontrará para ela um lugar de criada na Cidadela.

— Meu b-b-bastardo. – Havia dito, era verdade, mas… Toda aquela água. Posso afogar-me. Os navios afundam o tempo todo, e o outono é uma estação tempestuosa. Mas Goiva estaria consigo, e o bebê cresceria em segurança. – Sim, eu… a minha mãe e irmãs ajudarão Goiva a criar a criança. – Posso mandar uma carta, não terei de ir pessoalmente a Monte Chifre. – Dareon podia levá-la para Vilavelha tão bem como eu. Eu… tenho treinado o tiro com arco todas as tardes com Ulmer, conforme ordenou…

bem, menos quando estou nas caves, mas me disse para descobrir coisas sobre os Outros. O arco faz-me doer os ombros e faz crescer bolhas nos meus dedos. – Mostrou a Jon o lugar onde uma rebentara. – Mas continuo a treinar. Agora são mais as vezes que acerto no alvo do que as que não acerto apesar de ainda ser o pior arqueiro que alguma vez curvou um arco. Mas gosto das histórias de Ulmer. Alguém tem de escrever-las e as pôr num livro.

— Faça isso. Têm pergaminho e tinta na Cidadela, e também têm arcos. Conto que continue com o seu treino. Sam, a Patrulha da Noite tem centenas de homens capazes de disparar uma seta, mas só uma mão cheia sabe ler ou escrever. Preciso que se torne meu novo meistre. — A palavra o fez estremecer. Não, Pai, por favor, não voltarei a falar disso, juro pelos Sete. Daí-me uma saída, por favor, daí-me uma saída.

— Senhor, eu… o meu trabalho é aqui, os livros…

—… ainda estarão aqui quando voltar para nós.