Sam pôs uma mão na garganta. Quase conseguia sentir a corrente ali, a sufocá-lo.
— Senhor, a Cidadela… lá nos obrigam a cortar cadáveres. –
O brigam-nos a usar uma corrente em volta do pescoço. Se é corrente que você quer, vem comigo. Ao longo de três dias e três noites Sam adormecera a soluçar agrilhoado de mãos e pés a uma parede. A corrente em volta da garganta estava tão apertada que lhe rompera a pele, e sempre que rolava para o lado errado, no sono, cortava-lhe a respiração. – Não posso usar uma corrente.
— Pode. Vai usar. O Meistre Aemon está velho e cego. As suas forças estão o abandonando. Quem tomará o seu lugar quando morrer? O Meistre Mullin, da Torre Sombria, é mais guerreiro do que erudito, e o Meistre Harmune de Atalaialeste passa mais tempo bêbado do que sóbrio.
— Se pedir mais meistres à Cidadela…
— Pretendo pedir. Teremos falta de todos os que nos mandarem.
Mas não é assim tão fácil substituir Aemon Targaryen. – Jon fez uma expressão surpreendida. – Estava convencido de que isto te agradaria. Há tantos livros na Cidadela que ninguém pode ter esperança de lê-los a todos.
Iria se dar bem por lá, Sam. Eu sei que sim.
— Não. Podia ler os livros, mas… um m-meistre tem de ser um curandeiro, e o s-s-sangue me faz desmaiar. – Estendeu uma mão trêmula para Jon ver. – Sou Sam, o Assustado, não Sam, o Matador.
— Assustado? Com quê? Com a censura de velhos? Sam, você viu as criaturas atacando o Punho, uma maré de morto-vivos com mãos negras e brilhantes olhos azuis. Você matou um Outro.
— Foi o vidro de d-d-d-dragão, não fui eu.
— Quieto. Você mentiu, maquinou e conspirou para fazer de mim Senhor Comandante. Irá obedecer. Irá para a Cidadela e forjará uma corrente, e se tiver que abrir cadáveres, que seja. Pelo menos em Vilavelha os cadáveres não levantarão objeções.
Ele não compreende.
— Senhor – disse Sam – o meu p-p-p-pai, Lorde Randyll, ele, ele, ele, ele, ele… a vida de um meistre é uma vida de servidão. – Estava a balbuciar, bem sabia. – Nenhum filho da Casa Tarly alguma vez usará uma corrente. Os homens de Monte Chifre não se dobram nem se vergam perante senhores insignificantes. – Se é corrente que você quer, vem comigo. – Jon, não posso desobedecer ao meu pai.
Jon, ele tinha dito, mas Jon havia desaparecido. Agora quem o encarava era Lorde Snow, olhos cinzentos duros como gelo.
— Você não tem pai – disse Lorde Snow. – Só irmãos. Só tem a nós.
A sua vida pertence à Patrulha da Noite, portanto vai enfiar a sua roupa de dentro num saco, com o que quer que queira levar para Vilavelha. Irá partir uma hora antes do nascer do sol. E eis outra ordem. Deste dia em diante, não se chamará mais de covarde. Enfrentou mais coisas neste último ano do que a maioria dos homens enfrenta no tempo de uma vida. Pode enfrentar a Cidadela, mas irá enfrentá-la como Irmão Juramentado da Patrulha da Noite.
Não posso ordenar que seja valente, mas posso ordenar que escondas os seus medos. Você proferiu as palavras, Sam. Lembra?
Sou a espada na escuridão. Mas era uma desgraça com uma espada, e a escuridão assustava-o.
— Eu… eu vou tentar.
— Não vai tentar. Vai obedecer.
“Obedecer”. O corvo de Mormont bateu as suas grandes asas negras.
— Às vossas ordens, senhor. O… o Meistre Aemon sabe?
— Isto foi tanto ideia dele como minha. — Jon abriu-lhe a porta. — Nada de despedidas. Quanto menos pessoas souberem disto, melhor. Uma hora antes da primeira luz da aurora, junto ao cemitério.
Mais tarde, Sam não conseguiria recordar ter saído do armeiro. Só voltou a si quando já tropeçava em lama e manchas de neve velha, na direção dos aposentos do Meistre Aemon. Podia me esconder, disse a si próprio. Podia me esconder nas caves entre os livros. Podia viver lá em baixo com o rato e me esgueirar à noite para roubar comida. Pensamentos enlouquecidos, bem sabia, tão fúteis como desesperados. As caves eram o primeiro lugar aonde iriam procurá-lo. O último lugar onde o procurariam era para lá da Muralha, mas aí a loucura ainda seria maior. Os selvagens iriam me apanhar e me matar lentamente. Podiam me queimar vivo, como a mulher vermelha pretende fazer a Mance Rayder.
Quando foi encontrar o Meistre Aemon na colônia de corvos, entregou-lhe a carta de Jon e despejou os seus temores num grande jorro de palavras.
— Ele não compreende. — Sam sentia-se prestes a vomitar. — Se eu puser uma corrente ao pescoço, o senhor meu p-p-p-pai… ele, ele, ele…
— O meu pai levantou as mesmas objeções quando eu escolhi uma vida de serviço – disse o velho. – Foi o pai dele quem me enviou para a Cidadela. O Rei Dareon foi pai de quatro filhos, e três tinham filhos seus.
Dragões demais é tão perigoso como dragões de menos, eu ouvi Sua Graça dizer ao senhor meu pai, no dia em que me mandaram embora. – Aemon levou uma mão malhada à corrente de muitos metais que pendia solta, em volta do seu estreito pescoço. – A corrente é pesada, Sam, mas o meu avô tinha razão. E o seu Lorde Snow também.
“Snow” resmungou um corvo. “Snow” ecoou outro. Então todos pegaram na palavra. “Snow, snow, snow, snow, snow”. Foi Sam quem os ensinou. Viu que ali não haveria ajuda. O Meistre Aemon estava tão encurralado como ele. Ele morrerá no mar, pensou, desesperando. É muito velho para sobreviver a uma viagem como essa. O filhinho de Goiva também pode morrer, não é tão grande e forte como o rapaz de Dalla. Jon quer matar-nos todos?
Na manhã seguinte, Sam deu por si selando a égua que trouxera de Monte Chifre e a levando pela arreata até ao cemitério que havia junto da estrada oriental. Os alforges transbordavam de queijo, salsichas e ovos cozidos, e com metade de um presunto salgado que o Hobb Tres-Dedos lhe dera no dia do seu nome.
— É um homem que aprecia a cozinha, Matador – dissera o cozinheiro – Precisamos de mais homens como tu. — O presunto ajudaria, sem dúvida. O caminho até Atalaialeste era longo e frio, e não havia vilas nem estalagens à sombra da Muralha.
A hora que precedia a aurora era escura e calma. Castelo Negro parecia estranhamente silencioso. No cemitério, um par de carroças de duas rodas esperava-o, com Jack Negro Bulwer e uma dúzia de patrulheiros experientes, tão duros como os garranos que montavam. Kedge Olho-Branco praguejou sonoramente quando o seu único olho bom vislumbrou Sam.
— Não lhe ligues, Sam — disse o Jack Negro. — Perdeu uma aposta, disse que ia ter de te arrastar aos guinchos de debaixo de alguma cama.
Meistre Aemon estava demasiado fraco para montar a cavalo, de modo que uma carroça fora preparada para ele, com uma cama coberta com uma alta pilha de peles, e um toldo de couro atado por cima, a fim de manter afastadas a chuva e a neve. Goiva e o filho seguiriam com ele. A segunda carroça levaria as suas roupas e posses, bem como uma arca de velhos livros raros que Aemon pensava que a Cidadela poderia não ter. Sam passara metade da noite à procura deles, embora tivesse encontrado apenas um em quatro. E ainda bem, senão precisaríamos de outra carroça.
Quando o meistre surgiu, vinha enrolado numa pele de urso com o triplo do seu tamanho. Enquanto Clydas o levava para a carroça, soprou uma rajada de vento, e o velho cambaleou. Sam correu para ele e colocou um braço em sua volta. Outra rajada como aquela podia soprá-lo por cima da Muralha.