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— Segure-se ao meu braço, meistre. Não é longe.

O cego fez um aceno enquanto o vento puxava para trás os capuzes de ambos.

— Em Vilavelha faz sempre calor. Há uma estalagem numa ilha no Vinhomel, onde eu costumava ir quando era um jovem noviço. Será agradável voltar a me sentar lá e bebericar cidra.

Quando por fim colocaram o meistre na carroça, Goiva surgiu com a criança entrouxada nos braços. Sob o capuz, os seus olhos estavam vermelhos de chorar. Jon apareceu ao mesmo tempo, com Edd Doloroso.

— Lorde Snow – chamou o Meistre Aemon — deixei um livro para você nos meus aposentos. O Compêndio de Jade. Foi escrito pelo aventureiro volanteno Colloquo Votar, que viajou até ao oriente e visitou todas as terras do Mar de Jade. Há uma passagem que pode achar interessante. Disse a Clydas para marcar para você.

— Certamente que a lerei — respondeu Jon Snow.

Uma linha de muco branco correu do nariz do Meistre Aemon. O velho limpou-se com as costas da luva.

— O conhecimento é uma arma, Jon. Arme-se bem antes de partir para a batalha.

— Eu irei. — Uma neve ligeira começara a cair, com os grandes flocos fofos a descer preguiçosamente do céu. Jon virou-se para o Jack Negro Bulwer. — Faça o melhor tempo que puder, mas não corra riscos disparatados. Tem um velho e um bebê de peito com você. Trate de os manter quentes e bem alimentados.

— Faça o mesmo, s’enhor — disse Goiva. — Faça o mesmo com o outro. Encontre outra ama de leite, como disseste. Prometeu-me isso. O rapaz… o rapaz de Dalla… o principezinho, quer dizer… arranje alguma boa mulher, p’ra que ele cresça grande e forte.

— Tem a minha palavra quanto a isso – disse solenemente Jon Snow.

— Não lhe de um nome. Não faça isso até ele ter mais de dois anos.

Dá azar dar-lhes nome quando ainda ‘tão ao peito. Vocês corvos podem não saber isso, mas é verdade.

— Como quiser senhora.

Um espasmo de ira relampejou no rosto de Goiva.

— Não me chame assim. Eu sou uma mãe, não uma senhora. Sou mulher de Craster e filha de Craster, e uma mãe.

Edd Doloroso pegou o bebê enquanto Goiva subia para a carroça e cobriu-lhe as pernas com algumas peles bafientas. Por essa altura, o céu oriental já se mostrava mais cinzento do que negro. Lew Mão Esquerda estava ansioso para se pôr a caminho. Edd entregou a criança, e Goiva colocou-a no peito. Esta pode ser a última vez que vejo Castelo Negro, pensou Sam enquanto se içava para cima da égua. Por mais que tivesse em tempos odiado Castelo Negro, deixar o castelo estava o dilacerando.

Vamos a isto — ordenou Bulwer. Um chicote estalou, e as carroças começaram a retumbar lentamente pela estrada sulcada enquanto a neve caía à volta delas. Sam deixou-se ficar junto a Clydas, Edd Doloroso e Jon Snow.

— Bem — disse — até a vista.

— Até a vista, Sam — disse Edd Doloroso. — Não é provável que o seu navio se afunde, parece-me. Os navios só se afundam quando eu vou a bordo.

Jon estava observando as carroças.

— Da primeira vez que vi Goiva — disse — ela estava encostada à parede da Fortaleza de Craster, esta garota magricela de cabelo escuro com a sua grande barriga, encolhida com medo do Fantasma. Ele tinha se metido no meio dos coelhos dela, e parece que ela tinha receio que a abrisse e devorasse o bebê… mas não era do lobo que ela devia ter tido medo, não?

Não, pensou Sam. O perigo era Craster, o seu próprio pai.

— Ela tem mais coragem do que julga.

— E você também, Sam. Faz uma viagem rápida e segura, e cuida dela, de Aemon e da criança. — Jon fez um sorriso estranho e triste. — E puxa o seu capuz para cima. Os flocos de neve estão derretendo no seu cabelo.

ARYA

A luz ardia tênue e distante, baixa no horizonte, brilhando através das névoas marítimas.

— Parece uma estrela — disse Arya.

— A estrela do lar — disse Denyo.

O pai dele gritava ordens. Marinheiros subiam e desciam os três grandes mastros e moviam-se pelo cordame, recolhendo as pesadas velas púrpuras. Em baixo, remadores arquejavam e esforçavam-se em duas grandes fileiras de remos. Os conveses inclinaram-se, rangendo, quando a galeota Filha do Titã adernou para estibordo e começou a mudar de bordo.

A estrela do lar. Arya estava em pé, à proa, com uma mão pousada na figura de proa dourada, uma donzela que segurava uma cesta de frutas.

Durante meio segundo permitiu-se fingir que o que tinha em frente era o seu lar.

Mas isso era estúpido. O seu lar desaparecera, os pais estavam mortos, e todos os irmãos tinham sido assassinados, salvo Jon Snow, que estava na Muralha. Fora para aí que quisera ir. Dissera isso mesmo ao capitão, mas nem mesmo a moeda de ferro conseguira convencê-lo. Arya nunca parecia encontrar os lugares que se propunha alcançar. Yoren jurara entregá-la em Winterfell, mas acabara em Harrenhal e Yoren na sepultura.

Quando fugira de Harrenhal em direção de Correrio, o Lem, Anguy e o Tom das Sete a capturaram e arrastaram-na em vez disso para o monte oco. Então o Cão de Caça a raptara e a arrastara para as Gêmeas. Arya deixara-o moribundo junto ao rio e prosseguira até Salinas, esperando arranjar passagem para Atalaialeste-do-Mar, só que…

Bravos pode não ser muito mau. Syrio era de Bravos, e Jaqen também pode estar lá. Fora Jaqen quem lhe dera a moeda de ferro. Ele não fora realmente seu amigo, como Syrio fora, mas que bem lhe tinham feito os amigos? Não preciso de amigos, desde que tenha a Agulha. Esfregou a ponta do polegar no suave botão de punho da espada, desejando, desejando…

Na verdade, Arya não sabia o que desejar, tal como não sabia o que a esperava sob aquela luz distante. O capitão dera-lhe passagem, mas não tivera tempo de conversar com ela. Alguns dos membros da tripulação a evitavam, mas outros lhe davam presentes — um garfo de prata, luvas sem dedos, um chapéu mole de lã remendado com couro. Um homem mostrara-lhe como fazer nós de marinheiro. Outro lhe servia dedais de vinho ardente.

Os amigáveis batiam nos peitos, dizendo os nomes uma e outra vez até que Arya os repetisse, embora nenhum tivesse tido a ideia de perguntar o seu nome. A chamavam de Salgada, visto ter embarcado em Salinas, perto da foz do Tridente. Supunha que era um nome tão bom como qualquer outro.

As últimas das estrelas da noite tinham desaparecido… todas menos o par que estava mesmo em frente.

— Agora são duas estrelas.

— Dois olhos — disse Denyo. — O Titã está nos vendo.

O Titã de Bravos. A Velha Ama contara-lhes histórias sobre o Titã, em Winterfell. Era um gigante alto como uma montanha, e sempre que Bravos estava em perigo acordava com fogo nos olhos, fazendo trovejar e ranger os membros de pedra enquanto entrava no mar para esmagar os inimigos.

— Os bravosianos o alimentam com a carne sumarenta e cor-de-rosa de garotinhas bem nascidas — terminava Velha Ama, e Sansa soltava um guincho estúpido. Mas o Meistre Luwin dizia que o Titã era apenas uma estátua, e as histórias da Velha Ama não passavam de histórias.

Winterfell ardeu e caiu, recordou Arya a si própria. A Velha Ama e o Meistre Luwin estavam ambos mortos, provavelmente, e Sansa também.

Não fazia bem nenhum pensar neles. Todos os homens têm de morrer. Era isso que as palavras queriam dizer, as palavras que Jaqen H’ghar lhe ensinara quando lhe dera a gasta moeda de ferro.