Aprendera mais palavras bravosianas desde que deixara Salinas, as palavras para por favor, obrigado, mar, estrela e vinho ardente, mas chegara até eles sabendo que todos os homens têm de morrer. A maior parte da tripulação da Filha conhecia um pouco do idioma comum, das noites passadas em terra, em Vilavelha, Porto Real e Lagoa da Donzela, embora apenas o capitão e os filhos o falassem suficientemente bem para conversar com ela. Denyo era o mais novo desses filhos, um rapaz gorducho e alegre de doze anos que cuidava da cabina do pai e ajudava o irmão mais velho com as somas.
— Espero que o seu Titã não esteja com fome — disse-lhe Arya.
— Fome? — disse Denyo, confuso.
— Não interessa. — Mesmo se o Titã realmente comesse carne sumarenta e rosada de garotinhas, Arya não o temeria. Era uma coisinha magricela, não uma refeição decente para um gigante, e tinha quase onze anos, praticamente uma mulher feita. E, além disso, a Salgada não é bem-nascida.
— O Titã é o deus de Bravos? — perguntou. — Ou são os Sete?
— Todos os deuses são honrados em Bravos. — O filho do capitão gostava quase tanto de falar sobre a sua cidade como gostava de falar sobre o navio do pai.
— Os seus Sete têm aqui um septo, o Septo-do-Ultramar, mas só os marinheiros de Westeros que vão cultuá-los.
Não são os meus Sete. Eram os deuses da minha mãe, e deixaram que os Frey a assassinassem nas Gêmeas. Perguntou a si própria se encontraria um bosque sagrado em Bravos, com um represeiro no coração.
Denyo talvez soubesse, mas não lhe podia perguntar. A Salgada era de Salinas, e o que saberia uma garota de Salinas dos velhos deuses do norte?
Os velhos deuses estão mortos, disse a si própria, com a Mãe, o Pai, Robb, Bran e Rickon, todos mortos. Lembrava-se do pai ter dito há muito tempo que quando os ventos frios sopram, o lobo solitário morre e a alcatéia sobrevive. Agora tinha as coisas ao contrário. Arya, a loba solitária, sobrevivia, mas os lobos da alcatéia tinham sido capturados, mortos e esfolados.
— Os Cantores da Lua nos trouxe para este refúgio, onde os dragões de Valíria não conseguissem nos encontrar — disse Denyo. — O templo deles é o maior. Estimamos também o Pai das Águas, mas a sua casa é construída de novo sempre que toma a sua noiva. O resto dos deuses vivem juntos numa ilha no centro da cidade. É aí que você pode encontrar o… o Deus das Muitas Caras.
Os olhos do Titã pareciam agora brilhantes, e mais afastados um do outro. Arya não conhecia nenhum Deus das Muitas Caras, mas se respondia a preces, podia ser o deus que procurava. Sor Gregor, ela pensou, Dunsen, Raff, o Querido, Sor Ilyn, Sor Meryn, Rainha Cersei. São apenas seis agora.
Joffrey estava morto, o Cão de Caça matara Polliver e ela própria apunhalara o Cócegas, e aquele estúpido escudeiro com a espinha. Não o teria morto se ele não me tivesse agarrado. O Cão de Caça estava moribundo quando o deixara nas margens do Tridente, ardendo em febre devido ao ferimento.
Devia ter-lhe oferecido a dádiva da misericórdia e enfiado uma faca no seu coração.
— Salgada, olha! — Denyo puxou-a pelo braço e a fez virar. — Consegue ver? Ali. — E apontou.
As névoas cederam à frente do navio, cortinas cinzentas esfarrapadas afastadas pela proa. A Filha do Titã abria caminho através das águas cinza-esverdeadas, apoiada em asas enfunadas de cor púrpura. Arya ouvia os gritos das aves marinhas por cima da sua cabeça. Ali, no local para onde Denyo apontava, uma linha de picos rochosos erguia-se de súbito do mar, com vertentes íngremes cobertas de pinheiros marciais e abetos negros. Mas mesmo em frente o mar abrira caminho, e aí, sobre as águas abertas, erguia-se o Titã, com os seus olhos em fogo e o seu longo cabelo verde soprado pelo vento.
As suas pernas erguiam-se sobre a abertura, com um pé plantado em cada montanha, e os ombros a subir bem acima dos cumes irregulares. As pernas tinham sido esculpidas na pedra sólida, o mesmo granito negro dos montes submarinos sobre os quais se erguia, embora usasse em torno dos quadris uma saia couraçada de bronze esverdeado. A placa de peito era também de bronze e a cabeça era um meio elmo com crista. O cabelo que o vento soprava era feito de cordas de cânhamo tingidas de verde, e enormes fogueiras ardiam nas grutas que eram os seus olhos. Uma mão descansava no topo do pico da esquerda, com dedos de bronze enrolados em volta de uma protuberância de pedra; a outra projetava-se no ar, agarrando o cabo de uma espada quebrada.
É só um pouco maior do que a estátua do Rei Baelor em Porto Real, disse ela a si própria quando ainda se encontravam bem ao largo. Mas à medida que a galeota se aproximou do local onde as ondas rebentavam contra a cumeada, o Titã cresceu ainda mais. Arya ouvia o pai de Denyo a berrar ordens com a sua voz profunda, e, no cordame, os homens enrolavam as velas. Vamos passar por baixo das pernas do Titã a remos. Arya viu as seteiras abertas na grande placa de peito em bronze, e manchas e salpicos nos braços e ombros do Titã, nos locais onde as aves marinhas faziam os ninhos. Esticou o pescoço para cima. Baelor, o Abençoado, não lhe chegaria ao joelho. Podia passar por cima das muralhas de Winterfell.
Então o Titã soltou um poderoso rugido. O som foi tão monstruoso como ele, um terrível trovejar e ranger, tão forte que até encobriu a voz do capitão e o estrondo que as ondas faziam contra aquelas elevações revestidas de pinheiros. Um milhar de aves marinhas levantou voo ao mesmo tempo, e Arya encolheu-se até ver que Denyo estava rindo.
— Ele previne o Arsenal da nossa chegada, é só isso — gritou. — Não precisa ter medo.
— Não tive — gritou Arya em resposta. — Foi do barulho, só isso.
O vento e as ondas tinham agora a Filha do Titã bem presa nas mãos, empurrando-a rapidamente para o canal. A dupla fileira de remos mergulhava ritmicamente, fustigando o mar com espuma branca enquanto a sombra do Titã caía sobre eles. Por um momento pareceu certo que iriam se esmagar contra as rochas sob as pernas dele. Aninhada à proa com Denyo, Arya sentia o sabor do sal onde a maresia lhe tocara o rosto. Tinha que olhar diretamente para cima para ver a cabeça do Titã.
— Os bravosianos alimentam-no com a carne sumarenta e cor-derosa de garotinhas bem nascidas — ouviu de novo a Velha Ama dizer, mas ela não era uma garotinha, e não iria se deixar assustar por causa de uma estúpida estátua. Mesmo assim, manteve uma mão pousada na Agulha enquanto se esgueiravam por entre as pernas do Titã. Mais seteiras pontilhavam o interior daquelas grandes coxas de pedra, e quando Arya virou o pescoço para ver o cesto da gávea passar com uns bons dez metros de folga, vislumbrou alçapões por baixo das saias couraçadas do Titã, e rostos pálidos a fitá-los de detrás das barras de ferro. E então estavam do lado de lá.
A sombra ergueu-se, as elevações cobertas de pinheiros afastaram-se de ambos os lados, os ventos reduziram-se, e acharam-se em movimento por uma grande lagoa. Em frente erguia-se outro monte submarino, uma protuberância de rocha que se projetava da água como um punho coberto de espigões, com ameias rochosas eriçadas de balistas, catapultas de fogo e trabucos.