— Valar morghulis — disse.
— Valar dohaeris — respondeu ela.
Ele bebeu até ao fim e deixou cair a taça no tanque com um plop suave. Então pôs-se em pé, cambaleando, segurando a barriga. Por um momento, Arya pensou que o homem ia cair. Foi só então que viu a mancha
escura sob o seu cinto, que se espalhava perante os seus olhos.
— Você foi esfaqueado — exclamou, mas o homem não lhe deu atenção. Arrastou-se na direção da parede com um andar instável, e enfiou-se numa alcova, estendendo-se numa dura cama de pedra. Quando Arya olhou em volta, viu outras alcovas. Em algumas havia velhos dormindo.
Não, pareceu ouvir uma voz meio lembrada a sussurrar na sua cabeça. Estão mortos, ou a morrer. Olha com os olhos.
Uma mão tocou seu braço. Arya rodopiou para longe, mas era só uma menininha: uma menininha pálida usando uma veste encapuzada que a parecia engolir, negra do lado direito e branca do esquerdo. Sob o capuz estava uma cara lúgubre e ossuda, um rosto chupado, e olhos escuros que pareciam grandes como pires.
— Não me agarre — disse Arya à criança abandonada, num aviso.
— Matei o último rapaz que me agarrou.
A menina disse algumas palavras que Arya não reconheceu. Ela balançou a cabeça.
— Você não fala o idioma comum?
Uma voz atrás dela disse:
— Eu falo.
Arya não gostava da maneira como não paravam de a surpreender. O homem encapuzado era alto, envolto numa versão maior da veste preta e branca que a menina usava. Sob o capuz, tudo o que ela conseguia ver era a tênue cintilação vermelha da luz das velas, que refletia nos olhos.
— Que lugar é este? — perguntou.
— Um lugar de paz. — A voz do homem era gentil. — Aqui está em segurança. Esta é a Casa do Preto e Branco, filha. Embora seja nova para procurar o favor do Deus de Muitas Faces.
— É como o deus do sul, aquele com sete rostos?
— Sete? Não. As faces dele são incontáveis, pequena, tantas como as estrelas que há no céu. Em Bravos, os homens rezam como entenderem…
mas no fim de todos os caminhos está O das Muitas Faces, à espera. Ele estará lá para ti um dia, não temas. Não precisas correr para os seus braços.
— Só vim à procura de Jaqen H’ghar.
— Não conheço esse nome.
O coração de Arya afundou-se.
— Ele era de Lorath. O cabelo era branco de um lado e vermelho do outro. Disse que me ensinaria segredos, e me deu isto. — Tinha a moeda de ferro apertada no punho. Quando abriu os dedos ficou colada à palma suada da sua mão.
O sacerdote estudou a moeda, embora não tenha feito nenhum movimento para lhe tocar. A criança abandonada dos olhos grandes também estava a olhá-la. Por fim, o homem encapuzado disse:
— Diz-me o teu nome, filha.
— Salgada. Venho de Salinas, junto do Tridente.
Embora não conseguisse ver o rosto, de algum modo sentiu o velho sorrir.
— Não — disse o homem. — Diz-me o teu nome.
— Pombinha — respondeu daquela vez.
— O teu nome verdadeiro, filha.
— A minha mãe me chamou Nan, mas todos me chamavam de Doninha…
— O teu nome.
Arya engoliu em seco.
— Arry. Sou Arry.
— Está mais perto. E agora a verdade?
O medo golpeia mais profundamente que as espadas, disse a si mesma.
— Arya. — Da primeira vez murmurou a palavra. Da segunda atirou-a. — Sou Arya, da Casa Stark.
— Pois é — disse ele — mas a Casa do Preto e Branco não é lugar para Arya da Casa Stark.
— Por favor — disse ela. — Não tenho lugar para onde ir.
— Temes a morte?
Arya mordeu o lábio.
— Não.
— Vejamos. — O sacerdote baixou o capuz. Por baixo não tinha rosto; só uma caveira amarelada com uns restos de pele ainda agarrados às bochechas, e um verme branco a se contorcer numa órbita vazia. — Beija-me, filha — crocitou, numa voz tão seca e enrouquecida como o matraquear da morte.
Será que ele quer me assustar? Arya beijou-o no lugar onde o nariz deveria estar e tirou-lhe o verme do olho tencionando come-lo, mas ele derreteu-se como uma sombra na sua mão. A caveira amarela também estava a derreter-se, e o velho mais amável que já vira sorria para ela.
— Nunca ninguém tinha tentado comer o meu verme — disse. — Tens fome, filha?
Sim, pensou ela, mas não de comida.
CERSEI
— Uma chuva fria caía, deixando os muros e muralhas da Fortaleza Vermelha escuros como sangue. A rainha segurou a mão do rei e levou-o firmemente pelo quintal enlameado até onde sua liteira esperava com sua escolta.
— Tio Jaime disse que eu poderia montar meu cavalo e jogar moedas para o povo. — O garoto contestou.
— Você quer pegar um resfriado? — Ela não arriscaria; Tommen nunca foi tão robusto quanto Joffrey. — Seu avô queria que você se parecesse com um rei em seu próprio velório. Nós não vamos aparecer no Grande Septo molhados e sujos. — Já é ruim o suficiente ter que vestir luto de novo. O preto nunca foi uma cor alegre para ela. Com sua pele clara, ela se parecia meio cadáver. Cersei levantou-se uma hora antes do amanhecer para tomar banho e arrumar o cabelo, e ela não pretendia deixar que a chuva arruinasse os seus esforços.
Dentro da liteira, Tommen recostou-se sobre os travesseiros e espiou a chuva que caía.
— Os deuses estão chorando por nosso avô. A Senhora Jocelyn diz que as gotas de chuva são suas lágrimas.
— Jocelyn Swyft é uma tola. Se os deuses pudessem chorar, eles teriam chorado pelo seu irmão. Chuva é chuva. Feche a cortina antes que entre mais água. O manto é de zibelina, você quer deixá-lo encharcado?
Tommen fez como lhe foi proposto. Sua submissão a incomodava.
Um rei tinha que ser forte. Joffrey teria respondido. Ele nunca foi fácil de intimidar.
— Não se desanime — ela disse para Tommen. — Sente-se como um rei. Coloque os seus ombros para trás e arrume a sua coroa. Você quer que ela caia da sua cabeça na frente de todos os seus lordes?
— Não, mãe. — O garoto sentou-se ereto e conseguiu arrumar a sua coroa. A coroa de Joffrey era muito grande para ele. Tommen sempre teve tendência a engordar, mas seu rosto parecia mais fino agora. Ele está se alimentando bem? Ela deveria se lembrar de perguntar ao mordomo. Ela não poderia correr o risco de Tommen crescer doente, não com Myrcella nas mãos do homem de Dorne. Ele vai crescer ao tamanho da coroa de Joffrey em seu tempo. Até lá, será preciso uma menor, uma que não ameace cair de sua cabeça. Ela iria resolver isso com o ourives.
A liteira fez o seu lento caminho descendo a alta colina de Aegon.
Dois guardas reais montavam a frente deles, cavaleiros brancos em cavalos brancos com suas capas brancas e encharcadas penduradas em seus ombros.
Atrás vinham cinquenta guardas Lannister em dourado e carmesim.
Tommen olhou através das cortinas nas ruas vazias.
— Achei que teriam mais pessoas. Quando o pai morreu, todo mundo veio para fora nos ver passar.
— Esta chuva levou-os para dentro. — Porto Real nunca amou Lorde Tywin. No entanto, ele nunca quis amor. — Você não pode comer amor, nem comprar um cavalo com ele, nem aquecer seus aposentos em uma noite fria. — Ela o ouviu dizer a Jaime uma vez, quando seu irmão tinha aproximadamente a idade de Tommen.
No Grande Septo de Baelor, aquele magnificente em mármore no topo da Colina de Visenya, o pequeno grupo de pranteadores foi superado em número pelos mantos dourados que Sor Addam Marbrand havia trazido pela praça. Mais pessoas virão mais tarde, a rainha disse a si mesma enquanto Sor Meryn Trant a ajudou na liteira. Apenas os nobres e seus séquitos seriam admitidos no velório matutino; haveria outro à tarde para as pessoas comuns, e as orações da noite seriam abertas a todos.