Ele nunca tinha dado a entender que pretendia matar nosso pai. Se ele tivesse, eu o teria parado. Então eu seria o Regicida, não ele.
Jaime se perguntou onde Varys estava escondido. Sabiamente, o mestre dos segredos não havia voltado para sua própria câmera, nem uma procura na Fortaleza Vermelha o encontrou. Pode ser que o eunuco tenha tomado o navio com Tyrion, ao invés de permanecer para responder as perguntas difíceis. Se assim for, os dois estavam bem em alto mar agora, partilhando um frasco de vinho da Árvore na cabine de uma galera.
A não ser que meu irmão assassinou Varys também, e deixou seu corpo para apodrecer debaixo do castelo. Lá em baixo levaria anos para alguém descobrir os seus ossos. Jaime tinha levado uma dúzia de guardas abaixo, com tochas, cordas e lanternas. Durante horas eles tinham marchado através de passagens torcidas, espaços estreitos, portas escondidas e passagens secretas e eixos mergulhados na escuridão total. Raramente se sentira tão completamente um aleijado. Um homem demora muito para rastejar quando só tem uma mão. Escadas por exemplo. Mesmo rastejando não era fácil. Não o suficiente se falar de mãos e joelhos. Nem podia segurar uma tocha e subir, como os outros poderiam.
E tudo por nada. Eles encontraram somente escuridão, poeira e ratos.
E dragões, a espreita lá em baixo. Lembrou-se do sombrio brilho alaranjado do carvão na boca do dragão de ferro. O brazeiro aquecia o fundo de um poço onde meias dúzias de túneis se encontravam. No chão ele tinha encontrado um mosaico arranhado do dragão de três cabeças da Casa Tagaryen feito de telhas pretas e vermelhas. Eu conheço você, Regicida, a besta parecia dizer . Eu tenho estado aqui o tempo todo, esperando você vir até mim. E parecia a Jaime que ele conhecia aquela voz, os tons de ferro que haviam pertencido a Rhaegar, Príncipe de Pedra do Dragão.
O dia tinha tido muito ventania quando ele disse adeus a Rhaegar, no pátio da Fortaleza Vermelha. O Príncipe tinha vestido sua armadura negra como a noite, com o dragão de três cabeças feito em rubis em seu peitoral.
— Vossa Graça — Jaime tinha alegado — Deixe Darry ficar para guardar o rei desta vez, ou Sor Barristan. Suas vestes são tão brancas quanto as minhas.
Príncipe Rhaegar balançou sua cabeça.
— Meu real pai teme mais o seu pai do que nosso primo Robert. Ele quer você perto, então Lorde Tywin não poderá machucá-lo. Não me atrevo tirar esse suporte dele a essa hora.
A raiva de Jaime subiu em sua garganta.
— Não sou um suporte. Sou um cavaleiro da Guarda Real.
— Então guarde o rei. — Sor Jon Darry tinha lhe estapeado. — Quando você vestiu a capa você jurou obedecer.
Rhaegar tinha posto a mão no ombro de Jaime.
— Quando esta batalha acabar eu pretendo chamar um Cônsul.
Mudanças serão feitas, eu queria fazer isso a muito tempo atrás, mas... Bem, não faz bem falar de estradas ainda não tomadas. Nós devemos conversar quando eu voltar.
Essas foram as ultimas palavras que Rhaegar Tagaryen falou com ele. Do lado de fora dos portões um exército havia se reunido, com outro descendente do Tridente. Então o Príncipe de Pedra do Dragão montou seu cavalo e vestiu seu elmo negro e alto, e cavalgou para sua desgraça.
Ele estava mais certo do que sabia. Quando a batalha acabou, mudanças foram feitas.
— Aerys pensou que nenhum mal viria a ele se me mantivesse perto
— ele contou ao corpo de seu pai. — Isso não é divertido?
Lord Tywin parecia pensar assim. Seu sorriso parecia maior do que antes. Ele parece gostar de estar morto. Era estranho, mas ele não sentiu nenhuma dor. Onde estão minhas lagrimas? Onde esta minha raiva? Jaime Lannister nunca estava fechado para a raiva.
— Pai — ele disse ao corpo — Foi você que me disse que lagrimas eram marcas de fraqueza em um homem, então você não deve esperar que eu chore por você.
Milhares de senhores e senhoras tinham vindo esta manhã para desfilar no esquife, e vários milhares de pequenos povos depois do meio dia.
Eles usavam roupas sombrias e rostos solenes, mas Jaime suspeitava que muitos deles estavam secretamente contentes de ver o grande homem abatido. Mesmo no Ocidente, Lorde Tywin havia sido mais respeitado do que amado, e Porto Real ainda se lembrava do saque.
De todos os enlutados, Grande Meistre Pycelle parecia o mais perturbado.
— Eu tenho servido seis reis — ele disse a Jaime, após o segundo velório enquanto fungava em duvida sobre o cadáver. — Mas aqui diante de nós reside o maior homem que já conheci. Lord Tywin não usava coroa, mas era tudo que um rei deveria ser.
Sem sua barba Pycelle não parecia só velho, mas também fraco.
Barbeá-lo foi a coisa mais cruel que Tyron podia ter feito, pensou Jaime, que sabia o que era perder parte de si mesmo, a parte que faz você ser quem você é.
A barba de Pycelle tinha sido magnífica, branca como a neve e macia como a lã de cordeiro, um tamanho exuberante que cobria as bochechas e queixo e descia quase até sua cintura. O Grande Meistre era acostumado a acariciá-la quando se prontificava. Tinha lhe dado um ar de sabedoria, e escondia todo o tipo de coisas desagradáveis. A pele caída balançando embaixo da mandíbula do velho, a pequena boca e a falta de dentes, rugas, verrugas e manchas de idade demasiada numerosas para contar. Embora Pycelle estivesse tentando regenerar o que ele tinha perdido, estava falhando. Apenas tufos brotavam em seu rosto enrugado e queixo fraco, tão fina que Jaime podia ver a pele rosa por baixo.
— Sor Jaime, eu tenho visto terríveis coisas em minha vida — o homem velho disse — Guerras, batalhas, assassinatos dos mais tolos... Era um menino em Vilavelha quando a peste cinza levou metade da Cidade e três quartos da Cidadela. Lorde Hightower queimou todos os navios no porto, fechou os portões e ordenou que os seu guardas matassem todos aqueles que tentassem fugir, sejam eles homens, mulheres, ou bebes de colo.
Eles o mataram quando a peste tinha tomado o seu curso. No mesmo dia em que ele reabriu o porto, eles o arrastaram de seu cavalo e cortaram sua garganta, assim como a de seu filho mais novo. Para este dia, o ignorante vai cuspir seu nome em Vilavelha, mas Quenton Hightower fez o que era necessário. Seu pai era esse tipo de homem também. Um homem que fazia o que era preciso.
— É por isso que ele parece tão contente consigo mesmo?
Os vapores subindo do cadáver estavam trazendo água aos olhos de Pycelle.
— A carne... a carne seca, os músculos ficam tensos e puxam os lábios para cima. Isso não é um sorriso, só... uma secagem. Só isso. — Ele piscou para conter as lágrimas. — Você deve me perdoar. Estou tão cansado.
Inclinando-se pesadamente em sua bengala, Pycelle cambaleou para fora do Septo.
Este ai está morrendo também, Jaime percebeu, não me admira que Cersei o chamou de inútil.
Na verdade, sua doce irmã parecia pensar que metade da corte era inútil ou traidor; Pycelle, a Guarda Real, mesmo Jaime... Sor Ilyn Pyne, o silencioso cavaleiro que servia como carrasco. Assim como a Justiça do Rei, as masmorras eram sua responsabilidade. Desde que ele perdeu a língua, Payne em grande parte deixou o funcionamento das masmorras para seus subordinados, mas Cersei culpou-o pela fuga de Tyron do mesmo jeito . Isso foi meu trabalho, não dele, Jaime quase disse a ela. Ao invés disso ele havia prometido encontrar as respostas que pudesse ao carcereiro chefe, um velho homem curvado chamado Rennifer Longaágua.
— Vejo que está se perguntando, que tipo de nome é esse — O homem tinha gargalhado quando Jaime pensou em perguntá-lo. — É um velho nome, esta é a verdade. Eu não sou de me vangloriar, mas há sangue real em minhas veias. Eu sou descendente de uma princesa. Meu pai me contou a história quando eu era pouco mais que um rapaz. — Águalonga deixou de ser um rapaz há muitos anos, a julgar pela sua cabeça e os cabelos brancos crescendo em seu queixo. — Ela era o mais belo tesouro da Arcada das Donzelas. Lorde Oakenfist, o grande almirante perdeu seu coração para ela, embora fosse casado com outra. Eles deram ao seu filho o bastardo nome de ‘Água’ em honra a seu pai, e ele cresceu para ser um grande cavaleiro, como fez seu próprio filho, ao qual ele colocou o ‘Longa’ antes de