— Ele não está.
— Seja a minha Mão. — ela pediu — e nós reinaremos os Sete Reinos juntos, como um rei e sua rainha.
— Você foi a rainha de Robert, e ainda assim você não será minha.
— Eu seria, se me atrevesse, mas nosso filho...
— Tommen não é meu filho, não mais que Joffrey era. — sua voz estava dura. — Você o fez de Robert também.
Sua irmã encolheu.
— Você jurou sempre me amar. Não é amor me forçar implorar.
Jaime podia cheirar o medo nela, mesmo através do mal cheiro do cadáver. Ele queria pegá-la em seus braços e beijá-la, enterrar seu rosto em suas mechas douradas e prometê-la que ninguém nunca a machucaria... não aqui, ele pensou, não em frente aos deuses e em frente ao Pai.
— Não — ele disse — Eu não posso, eu não vou.
— Eu preciso de você, eu preciso da minha outra metade — ele podia ouvir a chuva batendo no vidro acima dele — Você é eu, eu sou você.
Eu preciso de você comigo. Dentro de mim. Por favor, Jaime, por favor.
Jaime olhou para ter certeza que Lord Tywin não estava se erguendo de dentro da sua esquife em ira, mas seu pai ficou imóvel e frio, apodrecendo.
— Eu fui feito para um campo de batalha, não para uma sala de conselho. E agora pode ser que sou incapaz até mesmo para isso.
Cersei enxugou suas lagrimas com uma esfarrapada manga marrom.
— Muito bem, se é um campo de batalha que você quer, é um campo de batalha que darei a você. — Ela puxou seu capuz sobre si com raiva. — Eu fui tola de vir. Eu fui tola de sequer amar você.
Seus passos ecoaram alto no silêncio, e deixaram marcas molhadas no chão de mármore.
A madrugada pegou Jaime quase de surpresa. Assim que o vidro na cúpula começou a clarear, de repente havia um arco-íris cintilante nas paredes, chão e pilares, banhando o cadáver de Lord Tywin em uma névoa de muitas cores e luz. A Mão do Rei estava apodrecendo visivelmente. Seu rosto havia tomado uma coloração esverdeada, e seus olhos estavam extremamente afundados, duas poças negras. Fissuras haviam se aberto em seu queixo, e um sujo fluído branco foi se infiltrando pelas juntas de sua armadura de ouro e esplêndido carmesim para a piscina debaixo de seu corpo. Os septãos foram os primeiros a ver, quando voltaram de sua devoção pela manhã. Eles cantaram suas músicas, rezaram suas orações e enrugaram seus narizes, e um dos mais devotos ficou tão fraco que teve que ser ajudado a partir do septo. Pouco depois um bando de novatos vieram balançando incensários, e o ar tornou-se tão grosso com o incenso que o esquife parecia envolto em fumaça. Todos os arco-íris se desfizeram naquela nevoa perfumada, mas o cheiro persistia, um cheiro doce e podre que fazia Jaime querer vomitar.
Quando as portas foram abertas os Tyrell estavam entre os primeiros a entrar, como convinha sua classificação. Margaery tinha trago um grande buquê de rosas douradas. Ela colocou ostensivamente ao pé do esquife de Lord Tywin, mas manteve uma com ela e segurou-a sob seu nariz enquanto tomava seu lugar. Então a menina é tão inteligente quando bonita. Tommen podia fazer um negócio ruim para uma rainha. Outros fizeram. As damas de Margaery seguiram seu exemplo.
Cersei esperou que todos estivessem em seus lugares para fazer sua entrada, com Tommen a seu lado. Sor Osmund Kettleblack passou ao lado deles em seu prato de esmalte branco e casaco de lã branca.
—... Ela tem fodido Lancel e Osmund Kettleblack e o Menino Lua pelo que eu sei...
Jaime tinha visto Kettleblack nu no banheiro, tinha visto seu cabelo preto do peito, e a grossa palha entre suas pernas. Ele imaginou aquele peito pressionado contra sua irmã, aquele cabelo roçando na pele macia dos seios.
Ela não fez isso. Aquele Duende mentiu. Fios dourados e pretos entrelaçados, suados. A bochecha estreita de Kettleblack se apertava cada vez que ele estocava. Jaime podia ouvir sua irmã gemer. Não. Uma mentira.
De olhos vermelhos e pálida, Cersei subiu os degraus e ajoelhou-se acima do seu pai, trazendo Tommen a seu lado. O rapaz recuou a vista, mas sua mãe agarrou seu pulso antes que ele pudesse se afastar.
— Ore! — sua mãe sussurrou, e Tommen tentou. Mas ele tinha apenas oito anos e Lord Tywin era um horror. Ele desesperadamente puxou o ar, e então o rei começou a soluçar. — Pare com isso — Cersei disse.
Tommen virou a cabeça e se dobrou, vomitando. Sua coroa caiu e rolou pelo chão de mármore. Sua mãe se afastou com nojo, e de repente o rei estava correndo para a porta, tão rápido quanto suas pernas de oito anos de idade poderiam levá-lo.
— Sir Osmund, me alivie — Jaime disse acentuadamente, enquanto Kettleblack virou-se para perseguir a coroa. Ele entregou ao homem a espada de ouro e seguiu atrás de seu rei. No Salão das Lâmpadas ele o apanhou, sob os olhos de duas dezenas de assustados septos.
— Sinto muito — Tommen chorou — Eu vou fazer melhor da próxima vez. A mãe diz que um rei deve mostrar o caminho, mas o cheiro me deixou doente.
Isso não vai dar. Muitos ouvidos ouvindo e olhos assistindo.
— Melhor irmos para fora, Vossa Graça. — Jaime levou o menino para fora onde o ar era tão fresco e puro quanto era o de Porto Real.
Quarenta homens de Manto Dourado tinham sido colocados ao redor da praça para guardar os cavalos e as ninhadas. Ele levou o rei para o lado, bem longe de todos, e sentou-se sobre os degraus de mármore.
— Eu não estava assustado — o garoto insistiu — o cheiro me deixou doente. Não o fez ficar doente? Como pode suportá-lo, Sor tio?
Eu já cheirei minha própria mão podre quando Vargo Hoat me fez usá-la como um pingente.
- Um homem pode suportar quase qualquer coisa, se ele deve. — Jaime disse a seu filho. Eu tenho cheirado uma mão apodrecida, como se rei Aerys a tivesse cozido em sua própria armadura. — O mundo é cheiro de horrores, Tommen. Você pode lutar contra eles, ou rir deles, ou olhar sem ver... ir embora por dentro.
Tommen considerou isto.
— Eu costumo ir embora por dentro as vezes — ele confessou — Quando Joff...
— Joffrey. — Cersei estava sobre eles, o vento chicoteando sua saia em torno de suas pernas. — O nome do seu irmão era Joffrey, e ele nunca teria me envergonhado assim.
— Nunca foi minha intenção. Eu não estava assustado, mãe. É só que seu senhor pai cheirava tão mal...
— Você acha que ele cheira mais doce pra mim? Eu tenho um nariz também. — Ela pegou-o em suas orelhas e puxou-o para seus pés. — Lord Tyrell tem um nariz. Você o viu vomitando no sagrado septo? Você viu a Senhora Margaery berrando como um bebe?
Jeime ficou de pé.
— Cersei, chega.
Suas narinas inflaram.
— Sor? Porque você está aqui? Você jurou velar o pai até que o despertar estivesse acabado, se me lembro.
— E está acabado. Vá e olhe para ele.
— Não. Sete dias e sete noites, você disse. Certamente o Senhor Comandante se lembra como contar até sete. Pegue o numero dos seus dedos, e então adicione dois.
Outros começaram a fluir para fora, para a praça, fugindo do odor nocivo do septo.
— Cersei, mantenha sua voz baixa — Jaime advertiu — Lord Tyrell está se aproximando.
Isso atingiu ela. A rainha trouxe Tommen para seu lado. Mace Tyrell se curvou diante deles.
— Vossa Graça não esta doente, espero?
— O rei foi tomado pela dor — Cersei disse.
— Assim como estamos todos. Se há algo que eu possa fazer...
Em cima, um corvo gritou bem alto. Ele estava empoleirado na estatua do rei Baelor, defecando na cabeça santa.
— Há muito e mais que você pode fazer por Tommen, meu Lord. — Jaime disse. — Talvez você faria a Vossa Graça a honra de cear com ela, depois do velório da noite?