— Salvo por Dontos.
— Isto é verdade. O jovem Dontos era filho de Sor Steffon Hollard, o irmão gêmeo de Sor Symon, que tinha morrido de febre alguns anos antes e não teve parte no Desafio. Aerys ainda teria arrancado fora a cabeça do menino, mas Sor Barristan pediu que sua vida fosse poupada. O rei não podia ignorar o homem que o havia salvado. Assim, Dontos foi levado para Porto Real como escudeiro. Que eu saiba ele nunca retornou para Valdocaso, e porque ele deveria? Ele não tem terras aqui, não tem parentes e nem castelos aqui. Se Dontos e essa menina do norte ajudaram a assassinar o nosso doce rei, parece que eles iriam querer colocar muitas léguas entre eles e a justiça. Procure por eles em Vilavelha, se você quiser, ou do outro lado do mar estreito. Procure por eles em Dorne, ou na Muralha. Procure em outro lugar. — levantou-se — Eu ouço meus corvos me chamando, me perdoe se vos desejo uma boa manhã.
A caminhada de volta para a estalagem parecia mais longa do que para Forte Dun, embora talvez fosse só seu humor. Ela não encontraria Sansa Stark em Valdocaso, o que parecia claro. Se Sor Dontos a tivesse levado para Vilavelha ou para o outro lado do mar estreito, como o meistre parecia pensar, a busca de Brienne seria desesperadora. O que havia para ela em Vilavelha? Ela perguntava a si mesmo. O meistre nunca a conheceu, não mais que conhecera Hollard. Ela não iria para estranhos.
Em Porto Real, Brienne havia encontrado uma antiga empregada de Sansa fazendo lavagem em um bordel.
— Eu servi Lorde Renly antes da Senhora Sansa, e ambos viraram traidores. — reclamou amargamente a mulher chamada Brella — senhor nenhum irá tocar-me agora, então eu tenho que lavar para prostitutas.
Mas quando Brienne perguntou sobre Sansa, ela disse:
— Eu direi a você o que eu disse a Lorde Tywin. Essa menina estava sempre rezando. Ela ia para o septo e acendia suas velas como uma dama, mas perto de uma noite, ela foi para o Bosque Sagrado. Voltou para norte. É ai que os deuses estão.
O norte é enorme, pensou, e Brienne não tinha noção de qual estandarte de seu pai Sansa estaria mais inclinada a confiar. Ou ela deveria procurar o próprio sangue ao invés disso? Apesar de todos os seus irmãos terem sido mortos, Sansa tinha um tio e um irmão bastardo na muralha, servindo na Patrulha da Noite. Outro tio, Edmure Tully era um cativo nas Gêmeas, mas seu tio Sor Bryden ainda tinha Correrrio. E a irmã mais nova da Senhora Catelyn, governava o Vale. Sangue chama sangue. Sansa podia muito bem ter corrido para um deles. Mas, qual deles?
A Muralha era muito longe, certamente, além disso, um lugar muito sombrio e amargo. E para chegar a Correrrio, a menina teria que passar pelas terras dos rios devastadas pela guerra e através da linha de cerco dos Lannister. O Ninhi da Águia seria mais simples, e a Senhora Lysa certamente daria boas vindas à filha de sua irmã...
À frente, o beco dobrado. De alguma forma Brienne havia tomado o curso errado. Ela se viu em um beco sem saída, um pequeno quintal enlameado onde três porcos estavam em volta de uma pedra também enlameada. Um gritou ao vê-la, e um velho homem que estava extraindo água olhou-a de cima a baixo.
— O que você quer?
— Eu estava procurando pela Sete Espadas.
— Volte por onde você veio. À esquerda no septo.
— Eu lhe agradeço — Brienne voltou-se para refazer seus passos, e bateu de cabeça em alguém que estava correndo de volta pela curva. A colisão o fez tremer sobre os pés e ele caiu no chão, de bunda na lama.
— Perdão — ela murmurou. Ele era só um garoto. Um rapaz magro, com cabelo liso e fino e lama de chiqueiro sob um olho. — Você está machucado? — ela ofereceu uma mão para ajudá-lo a se levantar, mas o rapaz se contorceu para longe dela com seus pés e cotovelos. Ele não podia ter mais que dez ou doze anos, embora usasse uma cota de malha e uma longa espada e bainha pendurado em suas costas. — Eu conheço você? —
Brienne perguntou, seu rosto parecia-lhe vagamente familiar, embora ela não conseguisse lembrar de onde.
— Não, você não conhece. Você nunca... — ele ficou de pé — P-perdoe-me minha senhora, Eu não estava olhando. Quero dizer, eu estava, mas para baixo. Eu estava olhando para baixo. Para meus pés.
O menino virou os calcanhares, mergulhando de cabeça por onde ele vinha. Algo sobre ele despertou todas as suspeitas de Brienne, mas ela não estava disposta a persegui-lo pelas ruas de Valdocaso. Fora dos portões essa manha, foi aí que eu o vi, ela se deu conta. Ele que estava montando um cavalo malhado. E parecia que ela o tinha visto em outro lugar também, mas onde?
No momento em que Brienne encontrou Sete Espadas de novo, a sala comunal estava lotada. Quatro septãos se sentavam perto do fogo, com vestes manchadas e empoeiradas da estrada. Em outros lugares, moradores enchiam os bancos, tomando tigelas com sopa de ensopado de caranguejo quente e pedaços de pão. O cheiro fez seu estomago roncar, mas ela não viu assentos vazios. Então uma voz atrás dela disse:
— Minha senhora, aqui, pegue o meu lugar. — Depois que ele pulou para fora de seu acento, Brienne percebeu que o orador era um anão. O homenzinho não era mais alto que cinco pés de altura. Seu nariz era vermelho e bulboso, seus dentes eram vermelhos de folhamarga e estava vestido com o manto marrom áspero de um santo irmão, com um martelo de ferro do Ferreiro pendurado para baixo em pescoço grosso.
— Fique com seu assento — ela disse — posso ficar em pé tão bem quanto você.
— Sim, mas minha cabeça não está tão perto de bater no teto — o discurso do anão foi grosseiro, mas cortês.
Brienne podia ver a coroa de seu couro cabeludo onde ele tinha raspado. Muitos irmãos sagrados usavam tais tonsuras. Septão Roelle uma vez lhe disse que era para mostrar que eles não tinham nada a esconder do Pai.
— O Pai não pode ver através do cabelo? — Brienne havia perguntado. Uma estúpida coisa para se dizer.
Ela tinha sido uma criança lerda; Septão Roelle muitas vezes disse isso a ela. Ela se sentiu quase estúpida agora, então pegou o lugar do homenzinho no fim do banco, sinalizou por guisado e voltou-se para agradecer ao anão.
— Você serve em alguma casa santa em Valdocaso, irmão?
— Twas, perto de Lagoa da Donzela, minha senhora, mas os lobos queimaram-nos para fora — disse o homem, roendo um pedaço de pão. — Nós reconstruímos da melhor maneira que podíamos, até que alguns vendedores de mundo apareceram. Eu não podia dizer quem eram homens, mas eles levaram nossos porcos e mataram nossos irmãos. Eu me apertei dentro de um tronco oco e me escondi, mas os outros eram grandes demais.
Levei muito tempo para enterrá-los todos, mas o Ferreiro me deu força.
Quando isso foi feito eu desenterrei algumas moedas que meu irmão havia escondido e parti sozinho.
- Eu conheci outros irmãos indo para Porto Real.
— Sim, há centenas nas estradas. Não só irmãos. Septões também, e povos pequenos. Todos pardais. Pode ser que eu seja um pardal também. O Ferreiro me fez pequeno o suficiente. — ele riu. — E qual é o seu conto triste, minha senhora?
— Estou procurando minha irmã. Ela é nova, apenas treze anos, uma empregada bonita com olhos azuis e cabelos ruivos. Talvez você tenha visto-a viajando com um homem. Um cavaleiro, talvez um bobo. Há ouro para o homem que me ajudar a encontrá-la.
— Ouro? — ele deu-lhe um sorriso vermelho — Uma tigela de ensopado de caranguejo seria recompensa suficiente para mim. Mas, eu temo que não possa ajudá-la. Bobos eu já conheci, e muitos, mas empregadas bonitas, nem tanto. — Ele levantou a cabeça e pensou por um momento —Houve um bobo em Lagoa da Donzela, agora que penso nisso. Ele estava vestido com trapos sujos, tão próximo quanto eu poderia dizer, mas abaixo da sujeira havia uma capa de retalhos.