Выбрать главу

É melhor que ele cante, sim, mas...

— Ele deve tocar a noite toda, meu senhor? Lorde Robert não consegue dormir. Ele chora...

— Por sua mãe. O que não pode ser ajudado, a moça está morta. —Petyr deu de ombros — Não será por muito mais tempo. Lorde Nestor fará sua subida no dia seguinte.

Sansa conheceu Lorde Nestor Royce uma vez antes, após o casamento de Petyr com sua tia. Royce era o Guardião dos Portões da Lua, o grande castelo que ficava no sopé da montanha e protegia o caminho até o Ninho da Águia. Os convidados do casamento tinham passado a noite lá antes de empreenderem a subida. Lorde Nestor tinha escassamente olhado para ela duas vezes, mas a perspectiva de vê-lo ali a apavorava. Ele também era o Alto Administrador do Vale, um vassalo de Jon Arryn e da Senhora Lysa.

— Ele não vai... Você não deixará Lorde Nestor ver Marillion, vai?

Seu horror deve ter transparecido em seu rosto, já que Petyr largou sua pena.

— Muito pelo contrário. Eu vou insistir nisso. — Ele acenou para que ela se sentasse ao lado dele. — Nós chegamos a um acordo, Marillion e eu. Mord pode ser tão persuasivo... E se nosso cantor nos desapontar e cantar uma canção que não seja de nosso interesse... então bastará dizermos que ele está mentindo. Em quem você imagina que Lorde Nestor vai acreditar?

— Em nós? — Sansa teria dado qualquer coisa para estar certa.

— É claro. Nossas mentiras serão seu lucro.

O solar estava morno, o fogo crepitando alegremente na lareira, mas Sansa estremeceu do mesmo jeito.

— Sim, mas... E se...?

— E se Lorde Nestor valoriza mais honra do que lucro? — Petyr colocou seu braço em volta dela — E se ele quer a verdade, se procura justiça para sua senhora assassinada? — Ele sorriu — Eu conheço Lorde Nestor, doçura. Você acha que eu o deixaria machucar minha filha?

Eu não sou sua filha, ela pensou. Eu sou Sansa Stark, filha do Senhor Eddard e da Senhora Catelyn, o sangue de Winterfell. Porém, ela não disse isso. Se não fosse por Petyr Baelish seria Sansa que teria girado através de um céu azul e frio para a morte nas pedras seiscentos metros abaixo em vez de Lysa Arryn. Ele é tão ousado. Sansa queria ter sua coragem. Tudo que ela queria era rastejar de volta para sua cama, esconder-se debaixo dos cobertores para dormir e dormir. Ela não havia dormido uma noite inteira desde a morte da Senhora Lysa Arryn.

— Você não poderia dizer à Lorde Nestor que eu estou... Indisposta, ou...

— Ele vai querer ouvir seu relato sobre a morte de Lysa.

— Meu Senhor, e se Marillion falar a verdade...

— Se ele mentir, você quer dizer.

— Mentir?... Sim, se ele mentir, então será minha palavra contra a dele, e Lorde Nestor só terá que olhar em meus olhos para ver quão assustada eu estou...

— Um pouco de medo não será fora de lugar, Alayne. Você testemunhou uma cena terrível. Nestor vai se comover. — Petyr estudou seus olhos, como se os visse pela primeira vez. — Você tem os olhos de sua mãe. Olhos honestos e inocentes. Azuis como o mar iluminado pelo sol.

Quando você estiver um pouco mais velha, muitos homens vão se afogar nestes olhos.

Sansa não sabia o que dizer a isso.

— Tudo o que você precisa fazer é contar à Lorde Nestor o que você contou à Lorde Robert. — Petyr continuou.

Robert é apenas um garotinho doente, ela pensou, Lorde Nestor é um homem crescido, rigoroso e desconfiado. Robert não era forte e tinha de ser protegido, mesmo da verdade.

— Algumas mentiras são por amor. — Petyr assegurou-lhe. Ela se lembrou disso.

— Quando nós mentimos para Lorde Robert foi apenas para poupá-lo. — Ela disse.

— E essa mentira pode nos poupar. De outra forma eu e você deixaremos o Ninho da Águia pela mesma porta de saída que Lysa usou. — Petyr pegou sua pena novamente. — Vamos servir-lhe mentiras e dourado da Árvore, e ele beberá e pedirá por mais, eu prometo.

Ele está me servindo mentiras da mesma forma, Sansa percebeu.

Porém, elas eram mentiras reconfortantes, e ele as dizia com boa intenção.

Uma mentira não é tão ruim se é dita com boa intenção. Se somente ela pudesse acreditar...

As coisas que sua tia havia dito pouco antes de cair ainda incomodavam muito Sansa. ‘Delírios, Petyr explicou. Minha esposa estava louca, você mesma viu. ’ E ela tinha visto. Tudo o que fiz foi construir um castelo de neve e ela queria me empurrar para fora pela Porta da Lua. Petyr me salvou. Ele amava minha mãe também, e...

E ela? Como ela podia duvidar? Ele a tinha salvado.

Ele salvou Alayne, sua filha, uma voz dentro dela sussurrou.

Mas ela era Sansa também... E às vezes parecia que o Lorde Protetor era dois homens também. Ele era Petyr, seu protetor, amoroso, divertido e gentil. Mas ele também era Mindinho, o Lorde que ela tinha conhecido em Porto Real, sorrindo maliciosamente e acariciando sua barba enquanto sussurrava no ouvido da rainha Cersei. E Mindinho não era seu amigo.

Quando Joff bateu nela, o Duende a defendeu, não Mindinho. Quando a multidão tentou estuprá-la, o Cão a levou para a segurança, não Mindinho.

Quando os Lannister a casaram com Tyrion contra sua vontade, foi Sor Garlan, o Valente que lhe deu conforto, não Mindinho. Mindinho nunca levantou um único dedo mindinho por ela.

Exceto para me libertar, isso ele fez por mim. Eu pensava que era Sor Dontos, meu pobre Florian bêbado, mas foi Petyr o tempo todo.

Mindinho era apenas uma máscara que ele teve que usar. Mas às vezes Sansa achava difícil dizer onde o homem começava e a máscara terminava.

Mindinho e Lorde Petyr eram muito parecidos. Ela teria fugido dos dois, talvez, mas não havia para onde ir. Winterfell tinha sido queimada; Bran e Rickon estavam mortos e frios; Robb tinha sido traído e assassinado nas Gêmeas, assim como a senhora sua mãe. Tyrion foi condenado à morte por matar Joffrey, e se ela voltasse para Porto Real a rainha teria sua cabeça também. A tia que ela acreditava que iria protegê-la tinha tentado assassiná-la ao invés disso. Seu tio Edmure era um cativo dos Frey, enquanto seu tio avô, Peixe Negro, estava sob cerco em Correrrio. Eu não tenho nenhum lugar além daqui, Sansa pensou miseravelmente, e nenhum amigo além de Petyr.

Naquela noite o morto cantou “O Dia Em Que Enforcaram Robin, o Negro”, “As Lágrimas da Mãe” e “As Chuvas de Castamere”. Então ele parou um pouco, mas assim que Sansa começou a cochilar ele começou a tocar novamente. Ele cantou “Seis Dores”, “Folhas Caídas” e “Alysanne”.

Canções tão tristes, ela pensou. Quando ela fechava os olhos podia vê-lo em sua cela do céu, amontoado em um canto o mais longe possível do frio e escuro céu, coberto com uma pele e com sua harpa embalada em seu peito.

Mas eu não posso ter pena dele, ela disse a si mesma. Ele é vaidoso e cruel, e em breve estará morto. Ela não podia salvá-lo. E além disso, porque ela iria querer? Marillion tinha tentado estuprá-la, e Petyr tinha salvado sua vida, não uma, mas duas vezes. Às vezes você precisa mentir. Apenas mentiras a mantiveram viva em Porto Real. Se ela não tivesse mentido para Joffrey, sua Guarda Real a teria espancado até a morte.

Depois de ‘Alysanne’ o cantor parou novamente por tempo suficiente para Sansa arrebatar uma hora de sono. Mas quando a primeira luz da manhã arranhou sua janela lhe chegaram os primeiros suaves acordes de