“Em uma Manhã Sombria”, e ela acordou de imediato. Aquela era uma canção mais apropriada para uma mulher, um lamento cantado por uma mãe na manhã após uma terrível batalha enquanto ela procura entre os mortos o corpo de seu filho único . A mãe canta sua tristeza por seu filho morto, pensou Sansa, mas Marillion chora por seus dedos, por seus olhos.
A letra da canção chegou até ela como flechas que perfuraram a escuridão.
Oh, você viu meu garoto, bom senhor?
Seu cabelo é castanho
Ele prometeu que voltaria para mim
Para nossa casa na Cidade Wendish.
Sansa tapou os ouvidos com um travesseiro de penas de ganso para não ouvir o resto da canção, mas não adiantou. O dia havia chegado e ela estava acordada, e Lorde Nestor Royce estava subindo a montanha.
O Alto administrador e sua comitiva chegaram ao Ninho da Águia no final da tarde, quando o vale se tornou dourado e vermelho atrás deles, e o vento começou a aumentar. Ele trouxe seu filho Sor Albar, juntamente com uma dúzia de cavaleiros e vinte soldados.
Tantos estranhos. Sansa olhou para seus rostos ansiosamente. Será que eles eram amigos ou inimigos?
Petyr deu boas vindas aos visitantes em um gibão de veludo preto com mangas cinza que combinavam com as calças de lã e deixavam uma certa sombra em seus olhos verdes acinzentados. Meistre Colemon estava ao lado dele, suas correntes de muitos metais soltas sobre o seu pescoço longo e magro. Embora o meistre fosse muito mais alto que os dois homens, foi o Lorde Protetor que chamou atenção. Ele tinha deixado de lado os seus sorrisos para o dia, parecia. Ele ouviu solenemente enquanto Royce apresentava os cavaleiros que o acompanhavam e então disse:
— Meus senhores, sejam bem-vindos aqui. Vocês conhecem nosso Meistre Colemon, é claro. Lorde Nestor, você se lembra de Alayne, minha filha natural?
— Com certeza. — Lorde Nestor Royce tinha pescoço de touro, peito de barril, careca, uma barba grisalha e olhar severo. Ele inclinou a cabeça em saudação.
Sansa fez uma reverência, assustada demais para falar, temerosa de dizer algo inconveniente. Petyr chamou-a.
— Doçura, seja uma boa menina e traga Lorde Robert ao Alto Salão para receber seus convidados.
— Sim, pai. — Sua voz soou fina e tensa. A voz de uma mentirosa, ela pensou enquanto se apressava em subir os degraus e atravessava a galeria para a Torre da Lua. Uma voz culpada.
Gretchel e Maddy estavam ajudando Robert Arryn a se contorcer em suas calças quando Sansa entrou em seu quarto. O Senhor do Ninho da Águia tinha estado chorando novamente. Seus olhos estavam vermelhos e irritados, os cílios duros, o nariz inchado e com corrimento nasal. Um rastro de muco brilhava debaixo de uma narina, e seu lábio inferior estava sangrando onde ele tinha mordido. Lorde Nestor não pode vê-lo assim, Sansa pensou, desesperada.
— Gretchel, traga para mim o lavatório — Ela pegou o menino pela mão e levou-o para a cama — O meu doce Robin dormiu bem noite passada?
— Não. — Ele fungou — Eu não dormi nem um pouco, Alayne. Ele estava cantando de novo, e minha porta estava trancada. Eu pedi para eles me deixarem sair, mas ninguém veio. Alguém me trancou no meu quarto.
— Isso foi mau deles. — Mergulhou um pano macio na água morna e começou a limpar o rosto dele... gentilmente, oh, muito gentilmente. Se você limpasse Robert muito rapidamente, ele podia começar a tremer. O
menino era frágil e terrivelmente pequeno para sua idade. Ele tinha oito anos, mas Sansa tinha conhecido meninos de cinco anos mais encorpados.
Os lábios de Robert tremeram.
— Eu estava indo dormir com você.
Eu sei que você estava. Doce Robin estava acostumado a meter-se na cama com sua mãe, até que ela se casou com Lorde Petyr. Desde a morte da Senhora Lysa ele fora pego vagando pelo Ninho da Águia em busca de outras camas. A que ele mais gostava era a de Sansa... razão pela qual ela pediu a Sor Lothor Brune para trancar sua porta noite passada. Ela não teria se importado se ele só dormisse, mas ele estava sempre tentando mamar em seus seios, e quando tinha pesadelos ele muitas vezes molhava a cama.
— Lorde Nestor Royce subiu dos Portões para ver você. — Sansa limpou debaixo de seu nariz.
— Eu não quero vê-lo. — ele disse — Eu quero uma estória. A estória do Cavaleiro Alado.
— Depois — Sansa disse — Primeiro você deve ver Lorde Nestor.
— Lorde Nestor tem uma verruga. — Ele disse, se contorcendo.
Robert tinha medo de homens com verrugas. — Mamãe disse que ele era terrível.
— Meu pobre doce Robin. — Sansa alisou seu cabelo para trás. — Você sente falta dela, eu sei. Lorde Petyr sente também. Ele a amava do mesmo modo que você. — Isso era uma mentira, embora dita com boa intenção. A única mulher que Petyr já amou foi a assassinada mãe de Sansa.
Ele havia confessado tudo isso para a Senhora Lysa antes de empurrá-la pela Porta da Lua. Ela estava louca e perigosa. Ela assassinou o próprio marido, e teria me assassinado se Lorde Petyr não tivesse aparecido para me salvar.
Robert não precisava saber disso, entretanto. Ele era apenas um garotinho doente que amava sua mãe.
— Pronto. — Sansa disse. — Agora você parece um bom senhor.
Maddy, traga sua capa.
Era lã de carneiro, macia e quente, um lindo azul-celeste que ressaltava a cor creme de sua túnica. Ela a fixou sobre os ombros com um broche de prata em forma de lua crescente e tomou-o pela mão. Robert veio mansamente dessa vez.
O Alto Salão havia sido fechado desde a queda da Senhora Lysa, e Sansa teve um calafrio ao adentrá-lo novamente. O salão era longo, grandioso e bonito, ela supunha, mas não gostava dele. Era um lugar pálido e frio no melhor dos tempos. Os pilares delgados pareciam dedos ossudos, e as veias azuis no mármore branco traziam a sua mente as veias da perna de uma velha. Embora cinquenta candelabros de prata cobrissem as paredes, menos de uma dúzia estavam acesos, de forma que as sombras dançavam sobre os pisos e se agrupavam em cada esquina. Seus passos ecoavam no mármore, e Sansa podia ouvir o barulho do vento na Porta da Lua. Eu não devo olhar para ela, disse a si mesma, se não eu vou começar a tremer tanto quanto Robert.
Com a ajuda de Maddy, ela sentou Robert em seu trono de madeira com uma pilha de travesseiros embaixo dele e mandou dizer que o senhorio iria receber os convidados. Dois guardas em capas azul-celeste abriram as portas na extremidade inferior do salão, e Petyr trouxe-os para dentro pelo longo tapete azul que corria entre as fileiras de pilares brancos como ossos.
O menino cumprimentou Lorde Nestor com cortesia e não fez nenhuma menção a sua verruga. Quando o Alto Administrador perguntou a ele sobre a senhora sua mãe as mãos de Robert começaram a tremer levemente.
— Marillion machucou minha mãe. Ele jogou-a pela Porta da Lua.
— E vossa senhoria viu isso acontecer? — perguntou Sor Marwyn Belmore, um cavaleiro loiro, alto e magro que tinha sido capitão dos guardas de Lysa até Petyr colocar Sor Lothor Brune em seu lugar.
— Alayne viu. — o garoto falou — E o senhor meu padrasto.
Lorde Nestor olhou para ela. Sor Albar, Sor Marwyin, Meistre Colemon, todos estavam olhando. Ela era minha tia, mas queria me matar, Sansa pensou. Ela me arrastou até a Porta da Lua e tentou me jogar para fora. Eu nunca quis um beijo. Eu estava construindo um castelo de neve. Ela abraçou a si mesma para não tremer.