— Perdoem-na, meus senhores — Petyr Baelish disse suavemente
— Ela ainda tem pesadelos com aquele dia. Não é de se admirar que ela não possa suportar falar sobre isso. — Ele veio por trás dela e colocou as mãos gentilmente sobre seus ombros. — Eu sei como isso é difícil para você, Alayne, mas nossos amigos precisam ouvir a verdade.
— Sim — Sua garganta parecia tão seca e apertada que quase lhe doía falar. — Eu vi... Eu estava com a Senhora Lysa quando... — Uma lágrima rolou por seu rosto. Isso é bom, uma lágrima é algo bom. —Quando Marillion a empurrou... — E ela disse o conto mais uma vez, mal ouvindo as palavras que eram cuspidas de sua boca.
Um pouco antes que ela terminasse Robert começou a chorar, os travesseiros movendo-se perigosamente debaixo dele.
— Ele matou minha mãe. Eu quero que ele voe! — O tremor em suas mãos tinha piorado, e seus braços estavam tremendo também. A cabeça do menino se sacudiu e seus dentes começaram a bater. — Voar! — Ele gritou — Voar, voar. — seus braços e pernas se agitavam loucamente.
Lothor Brune caminhou até a plataforma a tempo de pegar o menino quando ele caiu do seu trono. Meistre Colemon estava apenas um passo atrás, embora não houvesse nada que ele pudesse fazer.
Impotente como o resto, Sansa só pôde ficar e observar enquanto seu ataque de tremores continuava.
Uma das pernas de Robert chutou Sor Lothor no rosto. Brune amaldiçoou, mas ainda segurou o garoto enquanto ele se contorcia e se debatia, molhando as calças. Os visitantes não disseram uma palavra; Lorde Nestor pelo menos já tinha visto isso antes. Passou muito tempo antes que os espasmos de Robert começassem a diminuir, e parecia que eles estavam durando cada vez mais tempo. No fim, o pequeno senhor estava tão fraco que não podia manter-se em pé.
— Melhor levar seu senhorio para a cama e sangrar-lhe — Lorde Petyr disse. Brune ergueu o menino nos braços e o carregou do salão.
Meistre Colemon o seguiu, seríssimo.
Quando seus passos se perderam na distância não havia mais nenhum som no Alto Salão do Ninho da Águia. Sansa podia ouvir o vento da noite gemendo lá fora e arranhando a Porta da Lua. Ela estava com muito frio e muito cansada. Será que eu devo contar a estória de novo? Ela se perguntou.
Mas ela devia já ter dito o suficiente. Lorde Nestor limpou a garganta.
— Eu não gostei do cantor desde o inicio — Ele resmungou — Eu pedi a Senhora Lysa para mandá-lo embora. Muitas vezes eu lhe pedi.
— Você sempre lhe deu bons conselhos, meu senhor. — Petyr disse.
— Ela não deu atenção a isso — Queixou-se Royce — Ela ouviu-me a contragosto e não deu atenção.
— Minha senhora era muito confiante neste mundo — Petyr falou tão ternamente que Sansa teria acreditado que ele amava sua esposa. — Lysa não podia ver o mau nos homens, apenas o bem. Marillion cantava doces canções, e Lysa confundiu isso com sua natureza.
— Ele nos chamou de porcos — Sor Albar Royce disse. Um cavaleiro robusto de ombros largos que raspava seu queixo, mas cultivava suíças que emolduravam seu rosto rústico como sebes, Sor Albar era uma versão jovem de seu pai. — Ele fez uma canção sobre dois porcos fungando em volta de uma montanha, comendo os restos de um falcão. Era uma canção sobre nós, mas quando lhe disse isso, ele riu. ‘Ora Sor, é uma canção sobre alguns porcos’, ele me disse.
— Ele fez piada de mim também. — Sor Marwyn Belmore disse. — Sor Ding-Dong, ele me nomeou. Quando eu jurei que cortaria sua língua fora, ele correu para a Senhora Lysa e se escondeu atrás de suas saias.
— Como ele frequentemente fazia — Lorde Nestor disse. — O homem era um covarde, mas o favor que a Senhora Lysa oferecia a ele o fez insolente. Ela vestiu-o como um senhor, deu-lhe anéis de ouro e um cinto de pedra da lua.
— E o falcão favorito de Lorde Jon. — O gibão do cavaleiro mostrava as seis velas brancas de Waxley. — Sua senhoria amava aquele pássaro. Rei Robert deu a ele.
Petyr Baelish suspirou.
— Foi impróprio — Ele concordou — E eu coloquei um fim nisso.
Lysa concordou em mandá-lo embora. Foi por isso que o chamou aqui, naquele dia. Eu devia ter estado com ela, mas nunca sonhei que... Se eu não tivesse insistido... Fui eu quem a matou.
Não, Sansa pensou, você não deve dizer isso, você não deve dizer a eles, você não deve. Mas Albar Royce estava negando com sua cabeça.
— Não, meu senhor, você não deve culpar a si mesmo. — Ele disse.
— Isso foi trabalho do cantor — Seu pai concordou — Traga-o para cima, Lorde Petyr. Deixe-nos pôr fim a esse lamentável assunto.
Petyr Baelish se recompôs e disse: — Como quiser, meu senhor.
Ele se virou para seus guardas, deu uma ordem, e o cantor foi trazido das masmorras. O carcereiro Mord veio com ele, um homem monstruoso com pequenos olhos pretos e um rosto assimétrico cheio de cicatrizes. Uma orelha e parte da bochecha foram perdidas em alguma batalha, mas pelo menos uma dúzia de arrobas de carne pálida permaneceu. Suas roupas se encaixavam mal e ele exalava um odor rançoso.
Em contraste Marillion parecia quase elegante. Alguém o havia banhado e vestido em calças azul-celeste e uma túnica branca folgada com mangas bufantes, e em sua cintura estava o cinto prateado que havia sido presente da Senhora Lysa. Luvas de seda branca cobriam suas mãos, enquanto uma atadura de seda branca poupou aos Lordes a vista de seus olhos.
Mord permaneceu atrás dele com um chicote. Quando o carcereiro cutucou suas costelas, o cantor ficou de joelhos.
— Bons Senhores, eu imploro vosso perdão.
Lorde Nestor fez uma careta.
— Você confessa seu crime?
— Se eu tivesse olhos, choraria. — A voz do cantor, tão forte e segura durante a noite, estava rachada e sussurrante agora. — Eu a amava muito, não pude suportar vê-la em outros braços, saber que ela partilhava sua cama. Eu não quis fazer mal a minha doce senhora, eu juro. Eu bloqueei a porta para que ninguém nos perturbasse enquanto eu declarava minha paixão, mas a Senhora Lysa estava tão fria... Quando ela me disse que estava carregando uma criança de Lorde Petyr, uma... uma loucura me tomou...
Sansa olhou para suas mãos enquanto ele falava. Maddy afirmou que Mord tinha tirado três de seus dedos, os dois mindinhos e um anelar. Seus dedos mindinhos pareciam um pouco mais rígidos que os outros, mas com as luvas era difícil ter certeza. Poderia ter sido não mais do que uma estória.
Como Maddy saberia?
— Lorde Petyr foi gentil o suficiente para me permitir manter minha harpa — O cantor cego disse — Minha harpa e... minha língua, para que eu possa cantar minhas músicas. A Senhora Lysa gostava tanto de me ouvir cantar...
— Leve essa criatura para longe, eu gostaria de matá-lo eu mesmo
— Lorde Nestor rosnou — Me deixa doente olhar para ele.
— Mord, leve-o de volta para sua cela do céu. — Petyr disse.
— Sim, meu senhor. — Mord agarrou Marillion pelo colarinho. — Sem mais conversa. — Quando ele falou, Sansa viu com surpresa que os dentes do carcereiro eram feitos de ouro. Eles observaram enquanto ele meio empurrava, meio arrastava o cantor em direção às portas.
— O homem deve morrer — Sor Marywn Belmore declarou quando eles se foram — Ele deveria ter seguido a Senhora Lysa para fora da Porta da Lua.
— Sem a sua língua — Lorde Albar Royce acrescentou — Sem aquela mentirosa e zombadora língua.
— Eu tenho sido muito gentil com ele, eu sei. — Lorde Petyr disse em um apologético tom. — Verdade seja dita, eu tenho pena dele. Ele matou por amor.
— Por amor ou ódio — Disse Belmore — Ele deve morrer.
— Muito em breve — Sor Nestor disse rispidamente — Nenhum homem permanece por muito tempo na cela do céu. O azul irá chamá-lo.