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— Um grande cavaleiro com uma concubina. Ela hoje é uma velha, mas os homens dizem que na juventude era uma beleza rara.

O Príncipe Lewyn? Aquela era uma história que Sor Arys nunca ouvira.

Chocou-o. A traição de Terrence Toyne e as fraudes de Lucamore, o Ardente, estavam registradas no Livro Branco, mas não havia nem sequer a sugestão de uma mulher na página do Príncipe Lewyn.

— O meu tio sempre disse que era a espada na mão de um homem que determinava o seu valor, não aquela que tinha entre as pernas —prosseguiu ela — portanto poupe-me de sua conversa pia acerca de mantos maculados. Não foi o nosso amor que te desonrou, foram os monstros que servistes e os brutamontes a que chamastes irmãos.

Aquilo atingiu-o demasiado perto do alvo.

— Robert não era monstro nenhum.

— Trepou para o trono por cima dos cadáveres de crianças — disse ela — se bem que eu admita que não era propriamente um Joffrey.

Joffrey. Fora um rapaz bem parecido, alto e forte para a idade, mas isso era todo o bem que se podia dizer dele. Ainda envergonhava Sor Arys lembrar-se de todas as vezes que batera na pobre rapariga Stark às ordens do rapaz. Quando Tyrion o escolhera para ir com Myrcella para Dorne, acendera uma vela ao Guerreiro para agradecer.

— Joffrey está morto, envenenado pelo Duende. — Nunca teria achado o anão capaz de tal enormidade. — Agora o rei é Tommen, e ele não é o irmão.

— Nem a irmã.

Era verdade. Tommen era um homenzinho de bom coração que procurava sempre fazer o seu melhor, mas a última vez que Sor Arys o vira estava a chorar no cais. Myrcella não derramara uma lágrima, embora fosse ela quem estivesse a abandonar o lar para selar uma aliança com a sua virgindade. A verdade era que a princesa era mais corajosa do que o irmão, e também mais inteligente e confiante. Tinha o espírito mais vivo, as cortesias mais polidas. Nunca nada a intimidava, nem mesmo Joffrey. A força está realmente nas mulheres. Estava a pensar não só em Myrcella, mas também na mãe dela e na sua, na Rainha dos Espinhos, nas belas, mortíferas Serpentes de Areia da Víbora Vermelha. E na Princesa Arianne Martell acima, de tudo nela.

— Não desejo dizer que se engana. — A voz soou-lhe rouca.

— Não quer? Não pode! Myrcella é mais capaz para governar...

— Um filho tem precedência sobre uma filha.

— Porquê? Que deus fez as coisas assim? Eu sou herdeira do meu pai. Deverei abdicar dos meus direitos em favor dos meus irmãos?

— Está a retorcer as minhas palavras. Nunca disse. — Dorne é diferente. Os Sete Reinos nunca foram governados por uma rainha.

— O primeiro Viserys pretendia que a Rhaenyra lhe sucedesse, será que o nega? Mas enquanto o rei jazia moribundo, o Senhor Comandante da sua Guarda Real decidiu que devia ser de outro modo.

Sor Criston Cole. Criston, o Fazedor de Reis, pusera irmão contra irmã e dividira a Guarda Real contra si própria, dando origem à terrível guerra a que os cantores chamavam a Dança dos Dragões. Alguns diziam que ele agira por ambição, pois o Príncipe Aegon era mais tratável do que a sua voluntariosa irmã mais velha. Outros concediam-lhe motivos mais nobres, e argumentavam que estava a defender o antigo costume ândalo.

Alguns sussurravam que Sor Criston fora amante da Princesa Rhaenyra antes de envergar o branco e desejava vingança contra a mulher que o desdenhara.

— O Fazedor de Rei realizou um grande mal — disse Sor Arys — e pagou caro por isso, mas...

— Mas talvez os Sete o tenha enviado para cá a fim de que um cavaleiro branco pudesse endireitar aquilo que outro pôs de pantanas. Sabe que quando o meu pai regressar aos Jardins de Água pretende levar Myrcella com ele?

— Para a manter a salvo daqueles que lhe querem causar dano.

— Não. Para a manter longe daqueles que procurariam coroá-la. O Príncipe Oberyn Víbora teria colocado ele próprio a coroa na cabeça se tivesse sobrevivido, mas o meu pai não tem coragem para isso. — Pôs-se em pé. — Diz que ama a rapariga como amaria a uma do seu sangue. Deixaria que a sua filha fosse espoliada dos seus direitos e trancada numa prisão?

— Os Jardins de Água não são nenhuma prisão — protestou Arys debilmente.

— Uma prisão não tem fontanários e figueiras, é isso o que pensa?

Mas uma vez que a rapariga lá esteja, não será autorizada a sair. Tal como você. Hotah se assegurará disso. Não o conhece como eu conheço. Ele é terrível quando entra em ação.

Sor Arys franziu o sobrolho. O grande capitão norvoshi de cara marcada sempre o deixara profundamente inquieto. Dizem que dorme com aquele grande machado a seu lado.

— O que acha que eu devia fazer?

— Nada mais do que jurou fazer. Proteger Myrcella com a vida.

Defende-la... e aos seus direitos. Colocar-lhe uma coroa na cabeça.

— Eu prestei um juramento!

— A Joffrey, não a Tommen.

— Sim, mas Tommen é um rapaz de boa índole. Ele será melhor rei do que Joffrey.

— Mas não melhor do que Myrcella. Ela também ama o rapaz. Eu sei que não permitirá que algum mal lhe aconteça. Ponta Tempestade é legitimamente sua, visto que Lorde Renly não deixou herdeiros e Lorde Stannis está proscrito. A seu tempo, Rochedo Casterly também passará para o rapaz, por via da senhora sua mãe. Será um lorde tão importante como qualquer outro no reino... mas Myrcella deve ocupar o Trono de Ferro.

— A lei... não sei...

— Eu sei. — Quando se punha em pé, o longo emaranhado negro do seu cabelo caía-lhe até ao fundo das costas. — Aegon, o Dragão, criou a Guarda Real e os seus votos, mas o que um rei faz, outro pode desfazer ou alterar. Anteriormente, a Guarda Real servia de forma vitalícia, mas Joffrey demitiu Sor Barristan para que o seu cão pudesse ter um manto. Myrcella vai quer que seja feliz, e também gosta de mim. Ela nos dará licença para casar se a pedirmos. — Arianne pôs os braços em volta dele e encostou o rosto ao seu peito. O topo da cabeça chegava-lhe logo abaixo do queixo. — Pode comigo e com o manto branco, se for isso que quiser.

Ela está a dilacerar-me.

— Sabe que quero, mas...

— Eu sou uma princesa de Dorne — disse ela com a sua voz enrouquecida — e não é próprio que me faça implorar.

Sor Arys sentia o cheiro do perfume que ela tinha no cabelo, e sentia-lhe o coração a bater contra o seu peito. O seu corpo estava a responder à proximidade da mulher e não duvidava de que ela também o sentia. Quando pôs os braços sobre os seus ombros, apercebeu-se de que ela tremia.

— Arianne? Minha princesa? O que se passa, meu amor?

— Terei de o dizer, sor? Tenho medo. Chama-me amor, mas recusa-me, no momento em que me é mais necessário. Será assim tão errado da minha parte querer um cavaleiro que me mantenha em segurança?

Ele nunca a ouvira parecer tão vulnerável.

— Não — disse — mas tem os guardas do seu pai para te manter em segurança, porque...

— São os guardas do meu pai que temo. — Por um momento, pareceu mais nova do que Myrcella. — Foram os guardas do meu pai que arrastaram as minhas queridas primas a ferros.

— A ferros, não. Ouvi dizer que têm todo o conforto.

— Ela soltou uma gargalhada amarga.

— As viste? Ele não me permite vê-las, sabe disso?

— Andavam a falar de traição, a fomentar a guerra...

— Loreza tem seis anos. Dorea oito. Que guerras podiam elas fomentar? E no entanto, o meu pai aprisionou-as com as irmãs. Você viu. O medo faz com que até homens fortes façam coisas que poderiam nunca fazer de outro modo, e o meu pai nunca foi forte. Arys, coração, escute-me pelo amor que diz sentir por mim. Nunca fui tão destemida como as minhas primas, pois fui feita com semente mais fraca, mas Tyene e eu somos da mesma idade e fomos chegadas como irmãs desde rapariguinhas. Não há segredos entre nós. Se ela pode ser aprisionada, eu também, e pelo mesmo motivo... este, de Myrcella.