— O que ele tem a ver com a cova dos contrabandistas?
— Sua mulher era uma feiticeira dos bosques. Toda vez que Sor Clarence matava um homem, ele levava a sua cabeça de volta para casa e sua mulher beijava os lábios e os trazia de volta à vida. Eles eram lordes, e magos, e cavaleiros famosos e piratas. Um deles era Rei de Valdocaso. Eles deram ao velho bons conselhos. Sendo eles apenas cabeças, eles não podiam falar muito alto, mas também nunca se calavam. Quando você é uma cabeça, falar é tudo o que você tem para passar o dia. Então, os que o Crabb manteve ficaram conhecidos como os Sussurradores. Ainda é, apesar de ter sido uma ruína por mil anos. Um local solitário, os Sussurradores. — O homem deslizou a moeda habilmente entre seus dedos. — Um dragão por ele mesmo se sente sozinho. Agora, dez...
— Dez dragões são uma fortuna. Você está me tomando como um bobo?
— Mas, mas eu posso levá-la para um. — A moeda dançou para um lado, e voltou pelo outro. — Levar você aos Sussurradores, minha senhora.
Brienne não gostou da maneira como os dedos dele brincavam com a moeda. Ainda…
— Seis dragões se encontrarmos minha irmã. Dois se encontrarmos apenas o bobo. Nada se nada encontrarmos.
Crabb deu de ombros. — Seis é bom. Seis vão servir.
Muito rápido. Ela segurou o pulso dele antes que ele pudesse guardar o ouro. — Não me venha com falsidades. Você não vai me achar fácil de lidar.”
Quando ela soltou, Crabb esfregou seu pulso.
— Maldita — ele murmurou. — Você machucou minha mão.
— Eu sinto muito por isso. Minha irmã é uma garota de treze anos.
Preciso encontrá-la antes...
—... Antes que algum cavaleiro entre na fenda dela. Sim, eu entendo você. Ela está tão bem a salvo. Dick, o Ágil, está com você agora. Encontre-me perto do portão leste na primeira luz do dia. Eu tenho que buscar um cavalo.
SAMWELL
Samwell Tarly sempre acabava enjoado em viagens marítimas.
Não era por medo de se afogar, se bem que, sem dúvida tinha algo a ver. O problema era o movimento do barco, e a maneira como o convés parecia se mexer sob os seus pés.
— As minhas tripas estão se revolvendo — confessou a Dareon no dia em que zarparam de Atalaialeste do Mar.
O cantor lhe deu uma palmada nas costas e começou a rir.
- Com o tamanho da barriga que você tem... é capaz de começar uma revolução, Matador.
Sam tentou bancar o valente, ainda que fosse somente por Goiva. Ela nunca vira o mar antes. Na penosa travessia pela neve, depois de fugir da casa de Craster, haviam passado por vários lagos, e mesmo eles pareciam impressionantes para ela. Quando o Pássaro Negro se afastou da margem, a jovem começou a tremer, e grandes lágrimas salgadas lhe correram pelas bochechas.
— Que os deuses tenham piedade de nós. — A ouviu sussurrar Sam.
Atalaialeste do Mar foi o que primeiro perderam de vista, e a Muralha foi fazendo-se cada vez menor até que, por fim, também desapareceu. O vento soprava com força. As velas eram de lona negra, mas já estavam cinza por terem sido lavadas demasiadamente, e Goiva tinha a cara branca de medo.
— Estamos em um bom barco — tratou de dizer Sam. — Não há por que ter medo.
No entanto, a garota se limitou a encará-lo, abraçou o bebê com mais energia e saiu correndo até as cabines.
Sam se agarrou com força à borda e contemplou o movimento dos remos. Era agradável admirar seu ritmo uniforme; desde logo, muito melhor que mirar a água. Bastava fitar a água e lhe vinha à mente o terror de se afogar. Quando era pequeno, seu pai havia tentado lhe ensinar a nadar, e para isso o atirou na lagoa que ficava no pé da Monte Chifre. A água havia entrado no seu nariz, na boca e nos pulmões, e ainda estava tossindo horas depois que Sor Hyle o tirou de lá. Nunca mais se atreveu a meter-se em algum lugar em que a água passasse de sua cintura.
A Baía das Focas era muito mais profunda, chegava muito mais do que só à cintura, e as águas eram muito mais agitadas do que as do pequeno lago de peixes no castelo de seu pai. As águas eram verde-acinzentadas, turbulentas, e a margem bastante arborizada, eles navegavam em uma confusão de rochas e redemoinhos. Mesmo que conseguisse chegar até ali chutando e batendo as mãos, as ondas o arremessariam contra uma rocha e quebrariam a sua cabeça.
— Que foi Matador, procurando sereias? — lhe perguntou Dareon ao vê-lo contemplar a baía.
Com os cabelos loiros e os olhos cor de avelã, o jovem e belo cantor de Atalaialeste do Mar parecia mais um príncipe que um irmão negro.
— Não.
Sam não sabia o que buscava, nem o que fazia naquele barco.
Vou à Cidadela forjar para mim um colar e tornar-me meistre, e assim servir melhor à Patrulha, tentou se convencer, mas a simples ideia lhe resultava exaustiva. Não queria se transformar em meistre, nem levar um pesado colar em torno do pescoço, tão frio contra a pele. Não queria se distanciar de seus irmãos, os únicos amigos que havia tido em toda sua vida.
E, com certeza, não queria enfrentar o pai que o havia enviado à Muralha para morrer.
Para os demais era diferente. Para eles, a viagem teria um final feliz.
Goiva estaria a salvo em Monte Chifre, separada por toda a extensão de Westeros dos horrores que havia conhecido na Floresta Assombrada. Como criada no castelo do pai de Sam, teria proteção e comida, e uma pequena parte de um mundo com o qual ela jamais pôde sonhar como esposa de Craster. Veria o seu filho crescer até se tornar um homem robusto; seria caçador, ajudante ou ferreiro. Se mostrasse alguma aptidão para armas, talvez algum cavaleiro o tomasse como escudeiro.
Meistre Aemon também ia a um lugar melhor. Era bom pensar que ele passaria o que lhe restava de vida acariciado pelas brisas cálidas de Vilavelha, conversando com seus camaradas meistres e compartilhando sua sabedoria com noviços e acólitos. Ele merecia cem vezes esse descanso.
Até Dareon seria mais feliz. Sempre havia dito que era inocente da violação pela qual o enviaram à Muralha; insistia que o seu lugar estava na corte de algum senhor, cantando em troca de seu jantar. Ia ter essa oportunidade. Jon o havia nomeado recrutador para ocupar o lugar de um tal de Yoren, que havia desaparecido e que se dava por morto. Sua missão consistiria em percorrer os Sete Reinos cantando as façanhas da Patrulha da Noite, e somente de quando em quando teria que voltar a Muralha com seus novos recrutas.
Sim, a viagem seria dura e demorada, isso era inegável, mas para todos os demais, ao menos teria um final feliz. Esse era o consolo de Sam.
Faço por eles, disse a si mesmo, pela Patrulha da Noite e pelo final feliz. Mas quanto mais olhava para o mar, mais frio e profundo ele lhe parecia.
O ruim era que não olhar para as águas era ainda pior, como compreendeu no abarrotado camarote que dividiam os passageiros embaixo do castelo de popa. Tratou de não pensar no frio que lhe dava no estômago, e para isso se dedicou a falar com Goiva, que estava dando seu peito para seu filho.
— Este barco nos levará para Bravos — lhe disse. — Lá buscaremos outro que nos leve a Vilavelha. Quando era pequeno eu li um livro sobre Bravos. A cidade inteira está construída numa enseada, em mais de cem ilhas, e ali há um titã, um homem de pedra que mede dezenas de metros de altura. Não viajam com cavalos, mas sim com botes, e seus bobos representam histórias que estão escritas, em vez de inventarem farsas estúpidas, como fazem em outros lugares. A comida é muito boa, sobretudo os peixes. Eles têm todos os tipos de mariscos, enguias e ostras frescos. Com certeza demoraremos alguns dias antes de pegarmos o outro barco. Se for assim, podemos ver um espetáculo de bobos, e comer ostras.