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Havia pensado que a ideia animaria Goiva, mas estava muito equivocado. A garota ficou encarando-o com olhos apagados, melancólicos, entre mechas do cabelo sujo.

— Como queira, meu senhor.

— O que você quer? — lhe perguntou Sam.

— Nada.

Virou-se e passou seu filho de um peito a outro.

O movimento do barco estava revolvendo os ovos com bacon e pão frito que havia comido antes de zarpar. De repente sentiu que já não suportava nem um instante mais no camarote. Pôs-se em pé e subiu pela escadinha para despejar o desjejum no mar. As náuseas o haviam assaltado de maneira tão repentina que não parou para calcular para qual direção soprava o vento, de modo que vomitou pela borda incorreta e terminou todo salpicado. Ainda assim, depois se sentiu melhor... Se bem que não durou muito tempo.

O navio era o Pássaro Negro, a maior das galeras da Patrulha. A Corvo da Tormenta e a Garra eram mais rápidas, como havia dito Cotter Pyke ao meistre Aemon em Atalaialeste do Mar, mas eram navios de combate, esbeltas, aves de rapina muito velozes nas quais os remadores iam na coberta superior. O Pássaro Negro era melhor para as águas agitadas do mar passando por Skagos.

— Tivemos tormentas — avisou Pyke. — As de inverno são as piores, mas as de outono são mais frequentes.

Os dez primeiros dias haviam sido bastante tranquilos; o Pássaro Negro cruzou a Baía das Focas, sem perder de vista a terra em nenhum momento. Quando soprava o vento fazia frio, mas de alguma forma o cheiro salgado do ar era revigorante. Sam quase não podia comer, e quando conseguia engolir algo não retinha por muito tempo, mas apesar disso, não estava indo tão mal. Tentou inspirar confiança a Goiva e animá-la um pouco, mas acabou sendo muito difícil. Não conseguiu convencê-la a subir ao convés; preferia ficar embaixo, na escuridão, agarrada com seu filho. Pelo visto o bebê gostava do barco não mais que a sua mãe: quando não estava berrando, estava vomitando leite materno. Tinha a tripa solta, manchava constantemente as peles nas quais Goiva o envolvia para lhe dar calor e impregnava o ambiente com um fedor de esterco. Apesar das muitas velas de sebo que Sam acendia o cheiro de merda não se dissipava.

Sempre ficava melhor do lado de fora, ao ar livre, sobretudo quando Dareon cantava. Os remadores do Pássaro Negro conheciam o cantor, que tocava para animá-los enquanto trabalhavam. Sabia todas as suas canções favoritas, como O Dia em que enforcaram Robin, o Negro, O lamento da sereia e outono do meu dia; as estimulantes, como Lanças de Ferro e Sete espadas para sete filhos, e as picantes, como O jantar de minha senhora, Sua pequena flor e Meggett andava com muitos machos, muitos machos sim.

Quando cantava O urso e a donzela, todos os remadores cantavam juntos e o Pássaro Negro parecia voar sobre as águas. Dareon não era grande coisa com a espada, Sam o havia visto quando treinavam juntos a mando de Alliser Thorne, mas tinha uma voz excelente. Como mel que se derrama sobre um trovão, havia dito em certa ocasião o meistre Aemon. Tocava a lira e o violino, e até escrevia suas próprias canções... Se bem que a Sam não lhe pareciam grande coisa. Ainda assim, era agradável sentar-se e escuta-lo, apesar de a madeira estar tão dura e tão lascada que Sam quase se alegrava de ter as nádegas tão carnosas.

Os gordos sempre levam uma almofada aonde que quer vão, pensou.

O meistre Aemon também preferia passar o dia no convés, empacotado em peles e contemplando as águas.

— O que adianta ele ficar aqui? — perguntou Dareon uma manhã.

— Para ele, isto está tão escuro como o camarote.

O ancião os olhou. Os olhos de Aemon se haviam manchado e escurecido, mas os ouvidos lhe funcionavam bem.

— Não nasci cego — lhes recordou, — A última vez que passei por esta zona vi cada rocha, cada árvore, a espuma de cada onda, as gaivotas cinzentas que nos seguiam. Tinha trinta e cinco anos e havia sido meistre com colar durante dezesseis anos. Egg queria que o ajudasse a governar, mas eu sabia que este era meu lugar. Enviou-me ao norte a bordo do Dragão de Ouro, e teimou que deveria me acompanhar seu amigo Sor Duncan, para que chegasse são e salvo a Atalaialeste do Mar. Nenhum novo irmão havia chegado à Muralha com tanta pompa desde que Nymeria enviou à Patrulha seis reis com grilhões de ouro. Além disso, Egg esvaziou as masmorras para que não tivesse que pronunciar meus votos sozinho. Dizia que os antigos presos eram a minha guarda de honra. Entre eles estava nada menos que Brynden Rivers, que chegou a Lorde Comandante.

— Corvo de Sangue? — se surpreendeu Dareon. — Conheço uma canção sobre ele. O título é Mil olhos, e mais um. Mas eu pensava que ele havia vivido há cem anos.

— E assim foi. Houve um tempo em que fui tão jovem como tu.

Aquilo pareceu entristecê-lo. Limpou a garganta, fechou os olhos e dormiu. Cada vez que uma onda mexia o barco, se sacudia entre as peles.

Navegaram por céus cinzentos para leste, para sul e de novo pra leste, à medida que a Baía das Focas se alargava ante eles. O capitão, um irmão grisalho com uma pança que parecia um barril de cerveja, vestia roupas negras tão manchadas e descoloridas que a tripulação lhe havia posto o apelido de Velho dos Trapos. Raramente dizia uma palavra. O contramestre o compensava enchendo o ar salgado de maldições cada vez que o vento amainava ou os remadores pareciam fraquejar. Pelas manhãs tomavam copos de aveia; ao meio-dia, sopa de ervilhas verdes, e pela noite, carne salgada, bacalhau salgado e carneiro salgado, tudo isso regado com cerveja. Dareon cantava; Sam vomitava; Goiva chorava e amamentava o bebê; meistre Aemon dormia e tremia, e os ventos se tornavam mais gélidos e tempestuosos dia a dia.

Apesar de tudo, a viagem para Sam acabou sendo mais agradável que a última que havia realizado. Não tinha mais de dez anos quando zarpou na galera de Lorde Redwyne, a Rainha da Árvore. Era cinco vezes maior que o Pássaro Negro, um barco formidável, com três gigantescas velas de cor vinho e fileiras de remos que brilhavam dourados e brancos à luz do Sol. Sua maneira de balançar quando zarpou de Vilavelha era tão impressionante que Sam ficou sem palavras... Mas aquela foi a última boa recordação que teria dos estreitos de Redwyne. Naquela altura, igual ao que acontecia agora, estava enjoado, para decepção do seu pai.

Quando chegaram na Árvore, as coisas foram de mal a pior. Os filhos gêmeos de Lorde Redwyne desprezaram Sam logo que o viram. A cada dia encontravam uma nova maneira de humilhá-lo no pátio de treinamento. No terceiro dia, Horas Redwyne o obrigou a gritar como um porco quando suplicou rendição. No quinto, seu irmão Hobber vestiu um ajudante de cozinha com sua armadura e lhe encarregou de dar uma surra em Sam com uma espada de madeira até que o garoto começasse a chorar.

Quando se descobriu quem era, todos os escudeiros, pajens e ajudantes rugiram de tanto rir.

— O garoto ainda tem que amadurecer, isso é tudo. — havia dito seu pai a Lorde Redwyne aquela noite.

— Sim, com uma pitada de pimenta, uns cravos de cheiro e uma maçã na boca — replicou fazendo soar sua matraca.

Depois daquilo, Lorde Randyll proibiu Sam de comer maçãs enquanto estivessem embaixo do teto de Paxter Redwyne. Também havia enjoado na viagem de volta, mas sentiu tanto alívio ao sair de lá que inclusive agradeceu o sabor do vômito na garganta. Até retornarem de novo à Monte Chifre Sam não soube que seu pai não tinha a intenção de regressar com ele, segundo lhe disse sua mãe.