A abraçou com força, incomodamente consciente da pressão de seus peitos. Apesar do medo, teve uma ereção. Ela vai notar, pensou avergonhado. Mas se Goiva se deu conta, não deixou transparecer; se limitou a grudar nele com mais força.
A partir de então, as viagens se sucederam a toda velocidade. Não voltaram a ver o sol. Os dias eram cinzentos, e as noites, negras, exceto quando os relâmpagos acendiam o céu sobre o pico de Skagos. Todos estavam mortos de fome, mas não podiam comer. O capitão abriu um barril de vinho de fogo para fortalecer os remadores. Sam provou um copo e deixou escapar um suspiro ao notar as serpentes quentes que percorriam a sua garganta e o peito. Dareon também se apegou à bebida, e depois daquilo, raramente era visto sóbrio.
Içavam as velas; abaixavam as velas; uma se desgarrou, se desprendeu do mastro e saiu voando como uma enorme ave cinzenta.
Quando o Pássaro Negro estava contornando a costa sul de Skagos, divisaram entre as rochas os restos de uma galera. As ondas haviam arrastado parte da tripulação até a orla, e os caranguejos haviam se reunido para lhes fazerem as homenagens.
— Estamos muito perto da orla — rugiu o velho dos trapos ao vê-lo.
— Um golpe de vento e acabaremos como eles.
Apesar de estarem esgotados, os remadores voltaram ao trabalho, e o barco tomou o rumo do sul, pelo mar estreito, até que Skagos se converteu em uma série de manchas negras no horizonte que podiam ser confundidas com nuvens de tormenta, os cumes de altas montanhas negras ou as duas coisas. Depois daquilo, desfrutaram de oito dias e sete noites de navegação tranquila.
Logo chegaram mais tormentas, ainda piores que a primeira.
Foram três, ou só uma, com alguns momentos de calma? Sam não chegou a saber, mas tratou desesperadamente de averiguar.
— Que importa? — lhe gritou Dareon em certa ocasião, quando estavam todos encolhidos no camarote.
Não importa, Sam quis dizer, mas enquanto eu pense nisso, não pensarei em me afogar, nem em me enjoar, nem em como treme o meistre Aemon.
— Não importa. — Conseguiu dizer, mas um trovão afogou o resto da frase, o barco se moveu e o fez cair de lado.
Goiva não deixava de soluçar, o bebê berrava, e por cima de tudo se ouviam os gritos do velho dos trapos, o maltrapilho capitão que não falava nunca, dando ordens à tripulação.
Odeio o mar, pensou Sam. Odeio o mar, odeio o mar, odeio o mar.
O relâmpago seguinte foi tão intenso que iluminou o camarote através das rendas da cortina que ficavam nas janelinhas do teto. É um bom barco, um barco seguro, um barco seguro. Não vai naufragar. Não tenho medo.
Durante um período de calmaria entre tormenta e tormenta, enquanto se aferrava à borda com as juntas brancas pelo esforço, tratando de vomitar, Sam ouviu uns tripulantes murmurarem que aquilo acontecia por levar uma mulher a bordo, e ainda por cima, uma selvagem.
— Fodia com seu pai — escutou Sam enquanto o rugido do vento voltava a se impor. — Isso é pior que ser puta. Isso é o pior que pode haver.
Ou nos livramos dela e dessa abominação que pariu, ou nos afogamos todos.
Sam não se atreveu a enfrentá-los. Eram maiores que ele, duros e encorpados, com os braços e os ombros musculosos pelos anos de manejar com os remos. Mas se assegurou de ter a adaga bem afiada, e sempre que Goiva saía do camarote para fazer suas necessidades, a acompanhava.
Dareon tampouco estava a favor da selvagem. Uma vez, depois de muitas súplicas de Sam, o cantor começou a entoar uma canção de ninar para acalmar o bebê, mas apenas havia começado, quando Goiva começou a chorar, inconsolável.
— Pelos sete infernos. — Dareon perdeu a paciência. — Não pode deixar de chorar nem pelo tempo de ouvir uma canção?
— Canta, anda. — lhe pediu Sam. — Canta, não se importe com isso.
— Não lhe fazem falta as canções — replicou Dareon. — O que lhe fazem falta são umas boas palmadas, ou melhor, um bom pau. Fora do meu caminho, Matador.
Empurrou Sam para um lado e saiu do camarote para buscar consolo em um copo de vinho de fogo e na irmandade dos remadores.
Sam já não sabia o que fazer. Quase havia se acostumado com o cheiro, mas entre as tormentas e os soluços de Goiva, passava dias sem dormir.
— Não pode lhe dar nada? — perguntou em voz baixa ao meistre Aemon quando viu que estava desperto. — Alguma erva, alguma poção, para que não tenha medo...
— O que você está ouvindo não é medo — lhe respondeu o ancião.
— É o som do desespero, e para isso não há poções. Deixa que as lágrimas sigam seu curso, Sam. Não se pode conter a maré com um muro.
Sam não compreendeu nada.
— Está indo para um lugar seguro. Para um lugar quente. Porque estaria desesperada?
— Sam — sussurrou o ancião. — Tens dois olhos que te servem, mas não vê nada. É uma mãe que chora por seu filho.
— Ele não está doente; está enjoado, igual a todos nós. Logo chegaremos ao porto de Bravos...
—... E o bebê continuará sendo o filho de Dalla, não fruto de seu ventre.
Sam demorou um momento para entender o que Aemon estava insinuando.
— Não é possível... Ela jamais... Claro que é seu. Goiva jamais haveria saído da Muralha sem o seu filho. Ela o ama.
— Amamentou os dois e amava os dois. — Replicou Aemon. — Mas não da mesma maneira. Não há mãe que ame seus filhos todos por igual, nem sequer a Mãe Divina. E Goiva jamais haveria deixado o menino por sua própria vontade, estou certo. Não sei com o que a ameaçou o Lorde Comandante, nem o que lhe prometeu; só posso imaginar... Mas não tenho dúvidas de que houve ameaças e promessas.
— Não. Não é possível. Jon jamais...
— Jon jamais faria algo assim. Lorde Snow o fez. Às vezes não há uma boa opção, Sam, somente uma menos dolorosa que as outras.
Não há boa opção. Sam pensou em tudo o que ele e Goiva sofreram; na casa de Craster, na morte do Velho Urso, no gelo, na neve e nos ventos gélidos, nos dias e mais dias de caminhada, nos espectros da Árvore Branca, em Mãos-frias e a árvore dos corvos, na Muralha, na Muralha, na Muralha...
A Porta Negra, embaixo da terra. E tudo para quê? Não há boa opção, não há final feliz.
Queria gritar. Queria uivar, soluçar, tremer e sentar-se para lamentar.
Trocou os bebês. Trocou os bebês para proteger o príncipe, para distanciá-lo das fogueiras da Senhora Melisandre e de seu deus vermelho.
Se fizer arder o bebê de Goiva, a quem importa? A ninguém mais do que a ela. Na verdade, não era mais que um cachorro de Craster, uma abominação nascida do incesto, não o filho do Rei-pra-lá-da-Muralha. Não vale como refém, nem como sacrifício, nem como nada; nem sequer tem nome.
Sem palavras, Sam se dirigiu cambaleante ao convés para vomitar, mas não tinha nada no estômago. A noite havia caído sobre eles, uma noite estranha e tranquila, como não haviam visto em muitos dias. O mar estava negro como uma boca de lobo. Os remadores descansavam nos seus postos.
Um ou dois haviam dormido sentados. O vento inchava as velas, e ao norte, Sam viu uma constelação, assim como a estrela errante vermelha que o povo livre chamava O Ladrão.
Essa deveria ser a minha estrela. Eu fiz com que elegessem Jon Senhor Comandante; eu lhe levei Goiva e o bebê. Não há final feliz.
— E então, Matador? — Dareon se pôs a seu lado, sem perceber a melancolia de Sam. — Bonita noite, pelo menos uma vez. Olha, estão aparecendo as estrelas. Se tivermos sorte até veremos a lua. Pode ser que o pior já tenha passado.