E ele vai, se eles se encontrarem. Kevan Lannister fora uma vez um homem robusto com uma espada, mas a juventude havia passado, e o Cão...
A coluna o havia alcançado. Quando seu primo passou junto a ele, flanqueado por seus dois septões, Jaime o gritou.
— Lancel, primo. Eu quis te parabenizar por seu casamento. Eu lamento que meus deveres não me permitem assistir.
— Vossa Graça deve ser protegida.
— E será. Mesmo assim, eu odeio ter que perder seu casamento. É seu primeiro casamento e o segundo dela, eu entendo. Tenho certeza que minha senhora ficará encantada de mostrar a você como funcionam as coisas.
A observação obscena desenhou um sorriso no rosto de vários senhores que estavam por perto e um olhar desaprovador dos septões de Lancel. Seu primo se contorceu com desconforto na sela.
— Eu conheço meus deveres como marido, sor.
— É apenas o que uma esposa quer na noite de núpcias, disse Jaime.
Um marido que saiba como fazer seu dever.
Um rubor subiu nas bochechas de Lancel.
— Eu oro por você, primo. E por Vossa Graça, a rainha. Que a Velha a guie à sua sabedoria e que o Guerreiro a proteja.
— Por que Cersei precisaria do Guerreiro? Ela tem a mim. — Jaime virou seu cavalo, sua capa branca batendo contra o vento. O Duende estava mentindo. Cersei antes teria o cadáver de Robert entres suas pernas do que um idiota como Lancel. Tyrion, seu bastardo maldito, você deveria ter mentido sobre alguém mais plausível. Ele galopou adiante, passando pelo cortejo funeral do seu pai, em direção à cidade.
As ruas de Porto Real pareciam quase desertas quando Jaime Lanninster voltava para a Fortaleza Vermelha, em cima da Alta Colina de Aegon. Os soldados que tinham abarrotado as covas de jogo da cidade e lojas de ervas já tinham se ido. Garlan, o Galante, levara metade dos homens de Tyrell para o Jardim de Cima, e sua mãe e sua avó tinham ido com ele. A outra metade marchara para o sul com Mace Tyrell e Mathis Rowan para defender Ponta Tempestade.
Quanto ao exército dos Lannister, dois mil veteranos sobravam acampados do lado de fora dos muros da cidade, esperando a frota Paxter Redwyne para carrega-los sobre a Baía da Águas Negra para Pedra do Dragão. Lorde Stannis parecia ter deixado uma pequena tropa atrás dele quando navegou para o norte, de modo que Cersei julgara que dois mil homens seriam mais do que o suficiente.
O resto dos homens do oeste tinha voltado para suas esposas e seus filhos, para reconstruir suas casas, plantar nos seus campos e fazer uma colheita pela última vez. Cersei levara Tommen pelos seus campos antes que eles marchassem, para deixa-los saudar seu pequeno rei. Ela nunca estivera mais bonita do que naquele dia, com um sorriso em seus lábios e o sol de outono brilhando no seu cabelo dourado.
O que quer que alguém dissesse sobre sua irmã, ela sabia como fazer os homens a amar quando se importava em tentar.
Quando Jaime trotou através dos portões do castelo, ele encontrou duas dúzias de cavaleiros treinando com lanças no pátio. Algo que eu não posso mais fazer, ele pensou. Uma lança era mais pesada e mais incômoda do que uma espada, e espadas já davam mais problemas do que o suficiente.
Ele pensou que poderia segurar a lança com sua mão esquerda, mas aquilo queria dizer segurar o escudo com seu braço direito. Em um torneio, o inimigo de um homem estava sempre à esquerda. Um escudo no seu braço direito seria tão útil como mamilos em sua couraça. Não, meus dias de justa acabaram, pensou enquanto desmontava... Mas, mesmo assim, parou para assistir um pouco.
Sor Tallad, o Alto, perdeu a montaria quando o saco de areia bateu contra sua cabeça. Javali golpeou o escudo tão forte que este acabou quebrando. Kennos de Kayce terminou a destruição. Penduraram novo escudo para Sor Dermot de Mata de Chuva. Lambert Turnberry só deu um 279
golpe, mas Jon Bettley, o Imberbe, Humfrey Swyft e Alyn Stackspear contaram com muitos golpes, e Ronnet Connington, o Vermelho, quebrou sua lança. Então o Cavaleiro das Flores montou e humilhou todos os outros.
Jaime sempre acreditara que três quartos do exército numa justa dependiam da habilidade como cavaleiro. Sor Loras cavalga soberbamente, e lidava com a lança como se ele tivesse nascido com ela na mão... O que, sem dúvida, explicaria a permanente expressão de dor no rosto de sua mãe. Ele coloca a ponta onde ele quer coloca-la, e parece ter o equilíbrio de um gato.
Talvez não fosse por simples casualidade que ele me desmontou. É uma pena que ele nunca terá a chance de tentar a sorte com o garoto de novo. Ele deixou os homens continuarem seu treinamento.
Cersei estava em seus aposentos Fortaleza de Maegor, com Tommen e a esposa de Myr de cabelos negros de Lorde Merryweather. Os três estavam rindo do Grande Meistre Pycelle.
— Perdi alguma piada inteligente? — Perguntou Jaime ao cruzar a porta.
— Oh, olha — ronronou a Senhora Merryweather. — Seu irmão corajoso retornou, Vossa Graca.
— Grande parte dele. — A rainha estava bêbada — Jaime percebeu.
Ultimamente, Cersei parecia ter sempre uma jarra de vinho na mão, ela que tivera uma vez zombado de Robert Baratheon pela sua bebedeira. Ele não gostou daquilo, mas naqueles dias ele parecia não gostar de nada que sua irmã fizesse.
— Grande Meistre — ela disse. — Tenha a amabilidade de compartilhar as novidades com o Senhor Comandante.
Pycelle parecia desesperadamente desconfortável.
— Veio um pássaro — ele disse. De Stokeworth. A Senhora Tanda diz que sua filha Lollys deu à luz um filho forte e saudável.
— E você não acredita o nome que deram ao bastardinho, irmão.
— Eles querem chama-lo de Tywin, se me recordo.
— Sim, mas eu proibi. Eu disse a Falyse que eu não queria o nobre nome do nosso pai dado a uma cria de um porquinho e de uma porca fraca de raciocínio.
— A Senhora Stokeworth insiste que não foi ela que deu o nome à criança — Grande Meistre Pycelle apontou. Sua testa enrugada pontilhada de suor. — O marido de Lollys escolheu, ela escreve. Este homem Bronn, ele... Parece que ele...
— Tyrion, arriscou Jaime. Ele chamou o filho de Tyrion.
O velho balançou a cabeça tremendo, enxugando a testa com a manga de seu robe.
Jaime teve que rir.
— Aí está querida irmã. Você tem procurado por Tyrion por todo canto, e esse tempo todo ele esteve escondido no ventre de Lollys.
— Engraçadinho. Você e Bronn são dois palhaços. Sem dúvida o bastardo está chupando uma das tetas de Lollys Lackwit enquanto falamos, enquanto este mercenário olha, rindo de sua insolenciazinha.
— Talvez essa criança carregue alguma semelhança com seu irmão, sugeriu a Senhora Merryweather. Ele pode ter nascido deformado, ou sem o nariz. Ela deu uma risada gutural.
— Nós enviaremos ao nosso querido menino um presente, a rainha declarou. Não é, Tommen?
— Podemos lhe enviar um gato.
— Um leãozinho, disse a Senhora Merryweather. — Para arrancar sua garganta fora, seu sorriso parecia sugerir.
— Eu tenho um tipo diferente de presente em mente — disse Cersei.
Um novo padrasto, com certeza. Jaime conhecia o olhar nos olhos de sua irmã. Ele o vira antes, o mais recente na noite do casamento de Tommen, quando ela queimou a Torre da Mão. A luz vermelha do fogovivo banhou o rosto dos guardas, de forma que eles ficaram parecidos com cadáveres apodrecidos, um bando de espectros alegres, mas alguns dos cadáveres eram mais bonitos que outros. Atém mesmo no brilho maligno, Cersei era bonita de se ver. Ela ficou em pé com uma mão em um peito, seus lábios partidos, seus olhos verdes brilhando. Ela estava chorando, Jaime percebera, mas se era de pesar ou êxtase, não sabia dizer.