A visão o encheu com inquietação, lembrando-o de Aerys Targaryen e o jeito com que um incêndio iria acordá-lo. Um rei não guarda segredos de sua Guarda Real. As relações entre Aerys e sua rainha tinham se extenuado durante os últimos anos de seu reinado. Eles dormiam separados e faziam o melhor para evitar um ao outro durante o tempo em que estavam acordados.
Mas sempre que Aerys dava um homem às chamas, a Rainha Rhaella fazia uma visita na mesma noite. O dia em que ele queimou sua mão da maça e da espada, Jaime e Jon Darry guardavam a entrada do dormitório enquanto o rei tirava seu plazer.
— Você está me machucando. — Eles ouviram Rhaella chorando através da porta de carvalho. Você está me machucando. De um jeito estranho, aquilo tinha sido pior do que o grito de Lorde Chelsted. Nós juramos protege-la também, Jaime disse finalmente.
— Sim — Darry reconheceu — mas não dele.
Depois disso, Jaime só vira Rhaella uma vez, na manhã do dia em que ela foi para Pedra do Dragão. A rainha tinha sido encapuzada enquanto subia na casa do leme real, que a levaria para a Alta Colina de Aegon, onde o navio a esperava, mas ele ouviu suas donzelas sussurrando depois que ela tinha ido. Elas diziam que a rainha tinha a aparência de alguém que tinha sido atacado por uma fera, rasgado nas coxas e mastigado nos peitos. Uma fera coroada, Jaime sabia.
Em seus últimos dias, o Rei Louco tinha tanto medo que não permitia lâmina nenhuma em sua presença, a não ser as espadas da Guarda Real. Sua barba estava embaraçada e suja, seu cabelo, uma confusão de prata e dourado que chegava a sua cintura, suas unhas, garras de vinte centímetros rachadas e amarelas. Ainda assim as espadas o atormentavam, as que ele não podia escapar; as espadas do Trono de Ferro. Seus braços e pernas estavam sempre cobertos de cicatrizes e cortes meio curados.
Um rei que governa sobre ossos chamuscados e carne cozida, Jaime lembrou-se, observando o sorriso de sua irmã. É o rei das cinzas.
— Vossa Graça — Jaime disse. — Podemos ter uma conversa em particular?
— Como quiser. Tommen acabou o tempo de sua lição de hoje. Vá com o Grande Maestre.
— Sim, Mãe. Estamos aprendendo sobre Baelor, o Abençoado.
A Senhora Merrywether também saiu, beijando a rainha nas duas bochechas.
— Podemos retornar para a ceia, Vossa Graça?
— Ficarei muito zangada se assim não fizer — disse Cersei.
Jaime não podia deixar de notar o jeito com que a myriana movia seus quadris enquanto andava. Cada passo, uma sedução. Quando a porta se fechou atrás dela, ele limpou a garganta e disse:
— Primeiro esses Kattleback, depois Qyburn, agora ela.
Ultimamente, você tem mantido um alojamento de feras, querida irmã.
— Estou gostando muito da companhia da Senhora Taena. Ela me diverte.
— Ela é uma das parceiras de Margaery Tyrell — Jaime a lembrou.
— Ela informa sobre você para a rainhazinha.
— Claro que ela informa. — Cersei foi para o aparador encher de novo sua taça. — Margaery estava palpitando quando eu pedia a ela para levar Taena como minha parceira. Você devia tê-la ouvido. Ela será uma irmã para você, como está sendo para mim. Claro que você pode levá-la! Eu tenho minhas primas e outras senhoras para me servir de companhia. Nossa rainhazinha não quer ficar só.
— Se você sabe que ela é uma espiã, por que a trouxe?
— Margaery não tem nem metade da esperteza que ela pensa que tem. Ela não tem noção da serpente que é aquela puta myriana. Eu uso Taena para dar à rainhazinha as informações que eu quero. Algumas delas são até verdade. Os olhos de Cersei estavam brilhantes de malícia. E Taena me conta tudo o que Margaery faz.
— É? O quanto você sabe sobre ela?
— Eu sei que ela é uma mãe com um jovem filho que ela quer destacar sobre esse mundo. Ela fará o que quer que seja preciso para ver ele conseguir. As mães são todas iguais. A Senhora Merrywether pode ser uma serpente, e está longe de ser estúpida. Ela sabe que posso fazer mais por ela do que Margaery pode, então ela se faz útil para mim. Você ficaria surpreso de todas as coisas interessantes que ela me conta.
— Que tipo de coisas?
Cersei se sentou abaixo da janela.
— Sabia que a Rainha dos Espinhos tem um baú de moedas na sua casa do leme? Ouro antigo que veio antes da Conquista. Se algum mercador comete o erro de dar o preço em moedas de ouro, ela o paga com as mãos de Jardim de Cima, cada uma vale metade do peso dos nossos dragões. Que mercador ousaria reclamar de ser enganado pela mãe de Mace Tyrell? — Ela bebericou o vinho e disse. — Gostou de seu passeio?
— Nosso tio perguntou por você.
— As preocupações do nosso tio não dizem respeito a mim.
— Deveriam. Você poderia fazer bom uso dele. Se não for em Correrrio ou no Rochedo, será no norte, contra Lorde Stannis. Nosso Pai sempre contou com Kevan quando...
— Roose Bolton é nosso Guardião do Norte. Ele lidará com Stannis.
— Não por muito tempo. O filho bastardo de Bolton removerá em breve aquele pequeno obstáculo. Lorde Bolton terá dois mil homens do Frey para aumentar sua força, mais os filhos de Lorde Walder, Hosteen e Aenys.
Seria mais que o suficiente para lidar com Stannis e alguns mil homens fracos.
— Sor Kevan...
—... Terá suas mãos cheias em Darry, ensinando a Lancel como limpar sua bunda. A morte de nosso pai o fez menos homem. Ele é um homem velho feito. Daven e Damion nos servirão melhor.
— Eles serão o suficiente. — Jaime não tinha rixas com seus primos.
— Entretanto, você ainda necessita de uma Mão. Se não for nosso tio, quem?
Sua irmã riu.
— Não você. Por esse lado, fique tranquilo. Talvez o marido de Taena. Seu avô serviu como Mão no reinado de Aerys.
A Mão corno da abundância. Jaime se lembrou de Owen Merrywether muito bem; um homem amável, mas inútil.
— Se me lembro, ele fez seu trabalho tão bem que Aerys o exilou e tomou suas terras.
— Robert as devolveu a ele. Algumas, pelo menos. Taena ficaria satisfeita se Orton pudesse reaver o resto.
— Tudo isso é sobre satisfazer uma puta myriana? Eu pensava que fosse sobre governar o reino.
— Eu governo o reino.
Que os Sete nos protejam, é verdade, você governa. Sua irmã gostava de pensar sobre ela como Lorde Tywin com tetas, mas ela estava errada. Seu pai tinha sido tão impiedoso e implacável como uma geleira, e Cersei era só fogovivo, principalmente quando contrariada. Ela ficara inconstante como uma dondoca ao saber que Stannis tinha abandonado Pedra do Dragão, certa de que ele tinha finalmente desistido de lutar e velejado para o exílio. Quando a mensagem do norte chegou até ela, dizendo que ele voltou-se novamente para a Muralha, sua fúria tinha sido terrível. Ela não tem carência de inteligência, mas ela não tem julgamento nem paciência.
— Você precisa de uma Mão forte para lhe ajudar.
— Um governador fraco precisa de uma Mão forte, como Aerys precisou do Pai. Um governador forte requer apenas um servo diligente para carregar suas ordens. — Ela mexeu o vinho. — Lorde Hallyne deve servir.
Ele não seria o primeiro que praticou a piromancia para servir como a Mão do Rei.
— Não. Eu matei o último. Há uma conversa dizendo que você que fazer de Aurane Waters o mestre dos navios.
— Alguém tem me espionado? — como ele não respondeu, Cersei jogou seu cabelo para trás e disse. — Waters é bom para o ofício. Ele passou metade de sua vida com barcos.