— Desperdiçaram o meu tempo e mataram um homem inocente.
Deveria mandar cortar as suas cabeças. — Mas se o fizer, o próximo homem poderia hesitar e permitir que o Duende escape à rede. Preferiria fazer uma pilha de anões mortos com três metros de altura a deixar que isso aconteça.
— Saiam da minha vista.
— Sim, Vossa Graça — disse o furúnculo. — Pedimos perdão.
— Vai querer a cabeça? — perguntou o homem que a tinha na mão.
— Entregue-a a Sor Meryn. Não, dentro do saco, seu cretino. Sim.
Sor Osmund, acompanhe-os até lá fora.
Trant levou a cabeça e o Kettleblack os carrascos, deixando apenas o pequeno almoço da Senhora Jocelyn como indício da sua visita.
— Limpe isso imediatamente – ordenou-lhe a rainha. Aquela fora a terceira cabeça que lhe fora entregue. Pelo menos este era um anão. O último era apenas uma criança feia.
— Alguém encontrará o anão, não tema — garantiu-lhe Sor Osmund. — E quando o fizerem, o deixaremos bem morto.
Ah sim? Na noite anterior, Cersei tinha sonhado com a velha, com as suas maxilas pedregosas e voz coaxante. Maggy, a Rã, era como lhe chamavam nas ruas de I.anisporto. Se o pai tivesse sabido o que ela me disse, teria mandado lhe cortar a língua. Cersei nunca contara a ninguém, porém, nem mesmo a Jaime. Melara disse que se nunca falássemos das profecias, as esqueceríamos. Disse que uma profecia esquecida não podia tomar-se verdadeira.
— Tenho informantes rastreando o Duende por todo o lado, Vossa Graça — disse Qyburn. Envergava algo muito semelhante a uma veste de meistre, mas branca em vez de cinzenta, imaculada como os mantos da Guarda Real. Volutas de ouro lhe decoravam a bainha, mangas e colarinho alto rígido, e trazia uma faixa dourada atada à cintura. — Em Vilavelha, Vila Gaivota, Dorne, até nas Cidades Livres. Fuja para onde fugir, os meus transmissores de segredos o encontrarão.
— Partindo do princípio de que ele abandonou Porto Real. Pode estar escondido no Septo de Baelor, tanto quanto sabemos, balançando nas cordas dos sinos para fazer aquele horrível chinfrim. — Cersei fez uma expressão amarga e permitiu que Dorcas a ajudasse a ficar em pé. — Venha, senhor. O meu conselho espera. — Deu o braço a Qyburn ao descer as escadas. — Tratou daquela pequena tarefa que o atribuí?
— Tratei Vossa Graça. Lamento que tenha demorado tanto tempo. É uma cabeça tão grande. Os escaravelhos levaram muitas horas para limpar a carne. Em jeito de pedido de desculpa, forrei uma caixa de ébano e prata com feltro, para fazer uma apresentação adequada para o crânio.
— Um saco de pano serviria igualmente bem. O Príncipe Doran quer a sua cabeça. Está-se nas tintas para o tipo de caixa em que ela vem.
O repique dos sinos era mais forte no pátio. Ele era só um Alto Septão. Quanto mais tempo teremos de aguentar isto? Os sinos eram mais melodiosos do que os gritos da Montanha tinham sido, mas...
Qyburn pareceu pressentir o que ela estava pensando.
— Os sinos pararão ao pôr-do-sol, Vossa Graça. .
— Isso será um grande alivio. Como você sabe?
— Saber é a natureza do serviço que presto.
Varys nos fez acreditar que era insubstituível. Que tolos fomos.
Depois de a rainha ter feito com que Qyburn ocupasse o lugar do eunuco, os parasitas do costume não tinham perdido tempo em lhes dar seu conhecimento em troca dos seus sussurros por algumas moedas. Sempre foi a prata, não a Aranha. Qybum nos serve igualmente bem. Estava ansiosa por ver a expressão no rosto de Pycelle quando Qyburn ocupasse o seu lugar.
Um cavaleiro da Guarda Real encontrava-se sempre a postos à porta dos aposentos do conselho quando o pequeno conselho estava em sessão.
Naquele dia, era Sor Boros Blount.
— Sor Boros — disse a rainha num tom agradável — parece bastante cinzento hoje de manhã. Algo que tenha comido, talvez? — Jaime fez dele provador do rei. Uma tarefa saborosa, mas vergonhosa para um cavaleiro. Blount odiava-a. As suas bochechas pendentes estremeceram quando segurou a porta para eles passarem.
Os conselheiros aquietaram-se quando ela entrou. Lorde Gyles tossiu em jeito de saudação, fazendo ruído suficiente para acordar Pycelle.
Os outros se ergueram, proferindo palavras de circunstância. Cersei permitiu-se o mais tênue dos sorrisos.
— Senhores. Sei que todos perdoarão o meu atraso.
— Estamos aqui para servir Vossa Graça — disse Sor Harys Swvft.
— É um prazer antecipar a vossa chegada.
— Estou certa de que todos conhecem lorde Qyburn.
O Grande Meistre Pycelle não a desapontou.
— Lorde Qyburn? — conseguiu dizer, tornando-se roxo. — Vossa Graça, este... Um meistre profere votos sagrados, jurando não possuir terras nem senhorias...
— A sua Cidadela tirou-lhe a corrente — fez-lhe lembrar Cersei. — e ele não é um meistre, não pode ser limitado pelos votos de meistre.
Talvez você se recorde de que também chamávamos lorde ao eunuco.
Pycelle pôs-se a falar de forma atabalhoada.
— Este homem é... Ele é inadequado...
— Não ouse falar-me de adequação depois do nauseabundo objeto de escárnio em que transformou o cadáver do meu pai.
— Vossa Graça não pode pensar... — O velho ergueu uma mão manchada, como que para se proteger de um golpe. — As irmãs silenciosas removeram as entranhas e órgãos do Lorde Tywin, drenaram lhe o sangue...
tomaram todos os cuidados... o seu corpo foi cheio de sais e ervas odoríferas...
— Oh, me poupe dos detalhes repugnantes. Eu cheirei o resultado dos seus cuidados. As artes curativas do Lorde Qybum salvaram a vida do meu irmão, e não duvido de que ele servirá ao rei de forma mais capaz do que aquele eunuco afetado. Senhor, conhece os seus colegas do conselho?
— Seria fraco informante se não conhecesse, Vossa Graça. — Qybum sentou-se entre Orton Merryweather e Gyles Rosby.
Os meus conselheiros. Cersei arrancara todas as rosas, e todos aqueles com obrigações para com o tio ou os irmãos. Nos seus lugares encontravam-se homens cuja lealdade lhe pertenceria. Até lhes dera novos títulos, pedidos de empréstimo às Cidades Livres; a rainha não admitiria nenhum “mestre” na corte além de si própria. Orton Merryweather era o seu administrador de justiça, Gyles Rosby o seu senhor tesoureiro. Aurane Waters, o fogoso jovem Bastardo de Derivamarca, seria o seu grande almirante.
E para Mão, Sor Harys Swyft.
Mole, careca e obsequioso, Swyft possuía um absurdo tufozinho branco de barba onde a maior parte dos outros homens tinham um queixo. O galo anão azul da sua Casa estava desenhado na frente do seu gibão de pelúcia amarela em contas de lápis-lazúli. Por cima daquilo, usava uma capa de veludo azul decorada com uma centena de mãos douradas. Sor Harys ficara deliciado com a nomeação, sendo como era demasiadamente obtuso para perceber que era mais refém do que Mão. A filha era esposa do tio de Cersei, e Kevan amava a sua senhora desprovida de queixo, por mais rasa de peito que fosse, por mais galináceas que fossem as suas pernas.
Enquanto tivesse Sor Harys na mão, Kevan Lannister teria de pensar duas vezes antes de lhe opor. É certo que um sogro não é o refém ideal, mas antes um escudo fraco do que nenhum.
— O rei virá juntar-se à nós? — perguntou Orton Merryweather.
— O meu filho está brincando com a sua pequena rainha. De momento, a sua ideia de ser rei é carimbar papéis com o selo real. Sua Graça é ainda novo demais para compreender assuntos de estado.