Uma pena que esteja tão morto. Ele e Robert, Jon Anyn, Ned Stark, Renly Baratheon, todos mortos. Só resta Tyrion, e não por muito tempo.
Naquela noite, a rainha chamou a Senhora Merryweather ao seu quarto.
— Toma uma taça de vinho? Perguntou-lhe.
— Uma pequena. — A mulher de Myr soltou uma gargalhada. — Uma grande.
— Amanhã quero que faça urna visita a minha nora — disse Cersei enquanto Dorcas a vestia para se deitar.
— A Senhora Margaery fica sempre feliz por me ver.
— Eu sei. — A rainha não deixou de reparar no título que Taena usou ao referir-se à pequena esposa de Tommen. — Diga-lhe que mandei sete velas de cera de abelha ao Septo de Baelor em memória do nosso querido Alto Septão.
Taena riu-se.
— Se assim é, ela mandará setenta e sete velas a fim de não ser ultrapassada em luto.
— Ficarei muito zangada se não o fizer — disse a rainha, sorrindo.
— Diga-lhe também que tem um admirador secreto, um cavaleiro tão enfeitiçado pela sua beleza que não consegue dormir à noite.
— Posso perguntar a Vossa Graça que cavaleiro é esse? — A travessura cintilou nos grandes olhos escuros de Taena. — Poderá ser Sor Osney?
— Podia ser — disse a rainha — mas não mencione esse nome de imediato. Obrigue-a esforçar-se para obtê-lo. Fará o que te peço?
— Se a agradar. É tudo o que eu desejo Vossa Graça.
Lá fora se levantava um vento frio. Ficaram acordadas até tarde, madrugada adentro, bebendo vinho dourado da Árvore e contando histórias uma a outra. Taena embebedou-se bastante e Cersei arrancou-lhe o nome do seu amante secreto. Era um capitão naval de Myr, meio pirata, com cabelo negro até aos ombros e uma cicatriz que lhe marcava a cara do queixo a orelha.
— Disse-lhe cem vezes que não, e ele dizia que sim — disse-lhe a outra mulher — até que por fim também eu estava a dizer que sim. Ele não era o tipo de homem que podia ser recusado.
— Conheço o gênero — disse a rainha com um sorriso perverso.
— Vossa Graça alguma vez conheceu um homem assim?
— Robert – mentiu Cersei, pensando em Jaime.
Mas quando fechou os olhos, foi com o outro irmão que sonhou, e com os três malditos idiotas com quem começara o dia. No sonho, a cabeça que traziam no saco era a de Tyrion. Mandara revesti-la a bronze e guardava-a no penico.
O CAPITÃO DE FERRO
O vento soprava do norte enquanto o Vitória de Ferro virou na baía sagrada do Berço de Nagga.
Victarion juntou-se a Nute, o Barbeiro, na proa. À frente, assomava a costa sagrada de Velha Wyk e acima dela o monte relvado, onde as costelas de Nagga ascendiam da terra como grandes troncos de árvores brancas, tão grandes ao redor como um mastro de um dromon e duas vezes mais altas.
Os ossos do Salão do Rei Cinza. Victarion podia sentir a mágica do lugar.
— Balon esteve perto desses ossos quando se proclamou rei pela primeira vez — relembrou. — Ele jurou conquistar de volta nossa liberdade, e Tarle, o Três Vezes Afogado, colocou uma coroa feita de madeira sobre sua cabeça. BALON! eles clamaram. BALON! BALON REI!
— Eles gritarão seu nome tão alto quanto — disse Nute.
Victarion concordou com a cabeça, embora ele não quisesse compartilhar da certeza do Barbeiro. Balon teve três filhos, e uma filha que ele amava também.
Ele dissera tanto para os seus capitães em Fosso Cailin, quando eles encorajaram-no a reclamar a Cadeira de Pedra do Mar.
— Os filhos de Balon estão mortos — afirmou Ralf Stonehouse, o Vermelho — e Asha é uma mulher. Você era o braço direito de seu irmão, você deve pegar a espada que ele deixou cair. — Quando Victarion lembrou-lhes que Balon o ordenara a segurar o Fosso contra os homens do norte, Ralf Kenning disse:
— Os lobos estão quebrados, senhor. Do que adianta ganhar o pântano e perder as ilhas? — E Ralf, o Coxo, acrescentou:
— Olho de Corvo ficou muito tempo longe. Ele não nos conhece.
Euron Greyjoy, Rei das Ilhas e do Norte. O pensamento despertou uma raiva antiga em seu coração, mas, mesmo assim...
— Palavras são como o vento — Victarion lhes falou, — e o único vento bom é o que empurra nossas velas. Você deseja que eu lute contra Olho de Corvo? Irmão contra irmão, filho do ferro contra filho do ferro? —
Euron ainda era seu irmão mais velho, não importava quanto sangue maldito estivesse entre eles. Nenhum homem é tão amaldiçoado como aquele que mata um dos seus.
Mas quando o chamado de Cabelo Molhado chegou, o chamado para a assembleia do rei, então tudo tinha mudado. Aeron fala com a voz do Deus Afogado, Victarion lembrou-se, e se é o desejo do Deus Afogado que eu sente na Cadeira da Pedra do Mar... No dia seguinte, ele deu o comando do Fosso Cailin para Ralf Kenning e partiu por terra para o Rio Febre, onde a Frota de Ferro descansou entre os bambus e salgueiros. Mares agitados e ventos inconstantes o atrasaram, mas apenas um navio foi perdido, e ele estava em casa.
O Aflição e o Vingança de Ferro estavam logo atrás, e o Vitória de Ferro atravessava o cabo. Mais atrás, vinham o Mão Rígida, Vento de Ferro, Fantasma Cinza, Lorde Quellon, Lorde Vickon, Lorde Dagon, e o resto, nove décimos da Frota de Ferro, navegando na maré da noite numa linha irregular que se estendia por léguas. A visão de suas velas enchiam Victarion Greyjoy de satisfação. Homem nenhum amara suas esposas como o Senhor Capitão amou seus navios.
Ao longo da costa sagrada de Velha Wyk, drácares cobriam a praia até onde os olhos podiam ver, seus mastros como lanças. Nas águas mais profundas passeavam prêmios: cocas, naus, e dromons conquistados com saques ou guerra, muito grandes para sair da costa. Da proa e popa e mastro, estandartes familiares se agitavam ao vento.
Nute, o Barbeiro, estreitou os olhos na direção da costa.
— Aquele é o Canção do Mar de Lorde Harlow? — O Barbeiro era um homem atarracado de pernas arqueadas e braços longos, mas seus olhos não eram tão perspicazes como fora quando era jovem. Naqueles dias, ele podia jogar um machado tão bem que diziam que podia se barbear com ele.
— Canção do Mar, sim. — Rodrik, o Leitor, deixara para trás seus livros, ao que parecia. — E lá está o velho Trovejador da Drumm, com o Voador Noturno de Blacktyde ao seu lado. Os olhos de Victarion continuavam aguçados como sempre foram. — Mesmo com suas velas recolhidas e seus estandartes pendendo debilmente, ele os conhecia, como convém ao Senhor Capitão da Frota de Ferro. — O Barbatana de Prata também. Algum parente de Sawane Botley. — Olho de Corvo afogara Lorde Botley, Victarion ouvira, e seu herdeiro morrera em Fosso Cailin, mas houvera irmãos, como também outros filhos. Quantos? Quatro? Não, cinco, e nenhum deles por causa do amor a Olho de Corvo.