Aeron Cabelo Molhado adiantou-se novamente.
— Eu pergunto outra vez, quem deve ser rei sobre nós?
— Eu! — uma voz profunda soou, e mais uma vez a multidão se afastou.
O orador foi levado até o monte em uma flutuante cadeira de madeira esculpida, carregada nos ombros de seus netos. O homem era uma grande ruína, tinha o peso de vinte pedras e noventa anos de idade, e estava envolto em uma pele de urso branco. Seu próprio cabelo era tão branco como a neve também, e sua enorme barba cobria-o como um cobertor, de suas bochechas até suas coxas, então era difícil dizer onde a barba terminava e a pele de urso começava. Apesar de seus netos serem grandes homens, eles lutaram com seu peso através dos degraus de pedra íngreme. Antes do salão do Rei Cinza, eles o colocaram no chão e se puseram atrás dele, como seus campeões.
Sessenta anos atrás, ele poderia ter ganho o favor da Assembleia, Aeron pensou, mas isso seria há muito tempo atrás.
— Sim, Eu! — O homem gritou sentado onde estava, com uma voz tão grande quanto ele era. — Porque não? Quem é melhor? Eu sou Erick Ironmaker, para aqueles que são cegos. Erik, o Justo, Erick, o Batedor de Bigorna! Mostre-lhes o meu martelo Thormor.
Um de seus campeões levantou para que todos pudessem ver. Era uma coisa monstruosa. Seu cabo envolto com couro vermelho, e sua cabeça como um tijolo de aço tão grande como um pedaço de pão.
— Eu não consigo contar quantas mãos eu esmaguei com este martelo. — Erik disse. — Mas talvez algum ladrão possa dizer. Eu não posso dizer quantas cabeças eu esmaguei contra minha bigorna também, mas há algumas viúvas que poderiam. Eu poderia dizer a vocês todas as obras que fiz em batalha, mas eu tenho oitenta e oito anos, e não vivi ainda o suficiente para terminar. Se velho é sábio, ninguém é mais sábio que eu. Se grande é forte, ninguém é mais forte. Você quer um rei com herdeiros? Eu tenho mais do que posso contar. Rei Erik, sim, eu gosto de como isso soa.
Venham, digam comigo: ERIK! ERIK BATEDOR DE BIGORNA! REI ERIK!
Assim como seus netos assumiram o coro, seus filhos se adiantaram com os peitos estufados, quando eles suspenderam-no na base dos degraus de pedra, uma torrente de prata, bronze e aço foram derramados, braçadeiras, colares, punhais e machados de arremesso. Alguns capitães se aproximaram e escolheram os melhores itens, acrescentando suas vozes ao coro. Mas, assim que o grito começou a crescer, a voz de uma mulher cortou-o.
— ERIK! — Homens moveram-se para o lado para deixá-la passar.
Com um pé no degrau mais baixo ela disse: — Erik, levante-se.
Um silencio se fez. O vento soprava, as ondas quebravam-se na costa, homens sussurravam nos ouvidos dos outros. Erik Ironmaker olhou para Asha Greyjoy.
— Menina! Três vezes maldita menina, o que você disse?
— Levante-se Erik — ela disse. — Levante-se e eu gritarei seu nome junto com todos os outros, levante-se e eu serei a primeira a te seguir.
Você quer uma coroa? Sim, levante-se e pegue-a.
Em outra parte da multidão, Olho de Corvo riu. Erik olhou para ele.
As mãos do grande homem se fecharam firmemente em volta dos braços de seu trono. Sua face ficou vermelha, e então roxa. Seus braços tremiam com o esforço. Aeron podia ouvir uma grossa veia azul pulsando em seu pescoço enquanto ele se esforçava para se levantar. Por um momento, pareceu que ele conseguiria, mas sua respiração saiu de uma só vez, e ele gemeu e afundou de volta para suas almofadas. Euron riu ainda mais alto. O grande homem abaixou a cabeça e envelheceu, tudo em um piscar de olhos. Seus netos o levaram de volta para baixo do monte.
— Quem deve governar os filhos do ferro? — Aeron chamou outra vez. — Quem deve ser rei sobre nós?
Homens entreolharam-se. Uns olharam para Euron, uns para Victarion, alguns para Asha. Ondas quebravam verdes e brancas contra as canoas. A gaivota gritou mais uma vez, um grito estridente, desesperado.
— Faça sua reivindicação, Victario. —Merlyn falou. — Vamos acabar com essa farsa.
— Quando eu estiver pronto. — Victarion gritou de volta.
Aeron estava satisfeito. É mesmo melhor ele esperar.
Drumm veio depois, outro homem velho, porém não tão velho quanto Erik. Ele subiu a colina com suas próprias pernas, em seu quadril estava Chuva Vermelha, a sua famosa espada, forjada de aço valiriano ainda nos dias antes da Perdição. Seus campeões eram homens importantes; seus filhos Denys e Donnel, ambos lutadores robustos, e entre eles Andrik, O Sério, um gigante homem com braços da grossura de uma árvore, o que era bom para Drumm, demonstrando o tipo de homem que estaria com ele.
— Onde está escrito que nosso rei deve ser uma lula gigante? — Drumm começou. — Que direito Pyke tem para nos governar? Grande Wyk é a maior ilha, Harlaw a mais rica, Velha Wyk a mais sagrada. Quando a linha preta foi consumida pelo dragão de fogo, o filho do ferro deu primazia à Vickon Greyjoy, sim... mas como Senhor, não como Rei.
Foi um bom começo. Aeron ouviu gritos de aprovação, mas diminuiu quando o velho começou a falar das glórias dos Drumms. Falou do Dale, o Temor, Roryn, o Salteador, os cem filhos de Gormond Drumm, o Velho Pai. Ele desembainhou Chuva Vermelha e contou-lhes como Hilmar Drumm, o Astuto, havia tomado a lamina de um cavaleiro com armadura, usando apenas a inteligência e um porrete de madeira. Ele falou de navios perdidos há muito tempo e de batalhas esquecidas há oitocentos anos, e a multidão começou a ficar impaciente. Ele falou e falou, e então falou um pouco mais. E quando as caixas de Drumm foram abertas, os capitães viram os presentes avarentos que ele trouxe.
Nenhum trono nunca foi comprado com bronze, Cabelo Molhado pensou. A verdade estava clara de se perceber, os gritos de ‘Drumm, Drumm, Dustan Rei’ morreram.
Aeron começou a sentir um frio na barriga, e de repente as ondas pareciam estar batendo mais alto que antes. É a hora, ele pensou. É a hora de Victarion fazer sua reclamação.
— Quem deve ser rei sobre nós? — O sacerdote clamou uma vez mais, mas desta vez os seus ferozes olhos negros encontraram seu irmão no meio da multidão. — Nove filhos nasceram de Quellón Greyjoy. Um era mais forte que o resto, e não conhecia o medo.
Victarion encontrou seus olhos e acenou. Os capitães se separaram diante dele enquanto ele subia os degraus.
— Irmão, me dê sua benção — ele pediu, quando chegou ao topo.
Ele ajoelhou-se e abaixou a cabeça. Aeron desarrolhou seu cantil e derramou um fluxo de água do mar sobre sua testa.
— O que está morto não pode morrer — disse o sacerdote.
— Mas ergue-se de novo, mais duro e mais forte – Victarion replicou.
Quando Victarion se ergueu, seus campeões se dispuseram abaixo dele, Ralf, o Manco, Ralf Stonehouse, o Vermelho, e Nute, o Barbeiro, todos notados guerreiros. Stonehouse carregava o estandarte Greyjoy; a lula gigante dourada em um campo tão negro como o mar a meia noite. Assim que desfraldada, os capitães e os reis começaram a gritar o nome do Senhor Comandante. Victarion esperou até que se aquietasse, e então disse:
— Vocês todos me conhecem, se vocês querem palavras doces, procure em outro lugar, eu não tenho língua de cantor. Eu tenho um machado, e eu tenho esses — Ele ergueu suas enormes mãos para lhes mostrar, e Nude, o Barbeiro, exibiu seu machado, um temível pedaço de aço.
— Eu era um irmão leal. — Victarion continuou — Quando Balon se casou, foi a mim quem ele enviou a Harlaw para trazer de volta sua esposa. Eu conduzi seus navios em muitas batalhas e não perdi nenhuma. A primeira vez que Balon pegou uma coroa, fui eu quem navegou até Lannisporto para queimar a cauda do leão. Da segunda vez, foi a mim quem ele enviou para esfolar o Jovem Lobo para que este viesse uivando para casa.