Todos os olhares se viraram em direção ao som. Foi um dos mestiços de Euron quem fez a chamada, um monstruoso homem com a cabeça raspada. Anéis de ouro e jade brilhavam em seus braços, e em seu peito largo estava tatuado uma ave de rapina, com as garras pingando sangue.
aaaaRRREEEEeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee.
O corno que ele tocou era preto brilhante e torcido, maior que um homem, tanto que quem o segurava usava as duas mãos. Ele estava preso com bandas de ouro vermelho e aço escuro, inciso com antigos grifos Valirianos, que pareciam brilhar enquanto o som se propagava.
aaaaaaaRRREEEEEEEEEEEEeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee.
Era um terrível som. Um gemido de dor e fúria que parecia queimar os ouvidos. Aeron Cabelo Molhado cobriu os seus ouvidos, e orou ao deus afogado para erguer uma grande onda e esmagar o corno para o silencio.
Ainda assim, o grito soou, soou. É o cifre do inferno, ele quis gritar, pensava que nenhum homem havia o escutado. As bochechas do homem tatuado estavam Tão estufadas que pareciam prestes a estourar. E os músculos em seu peito contraídos de tal forma que parecia que o pássaro ali estava prestes a rasgar seu peito e voar livremente, e agora os grifos foram acesos, cada linha e letra brilhando com o fogo branco. E o som foi, foi, foi... ecoando entre as colinas, uivando atrás deles e através das águas do Berço de Nagga, para se chocar contra as montanhas de Grande Wyk, e indo e indo e indo, até preencher completamente as mundo.
E quando parecia que o som nunca iria acabar, acabou.
A respiração do soprador do corno falhou por fim. Ele cambaleou e quase caiu. O sacerdote viu Orkwood de Montrasgo agarrá-lo por um braço e segurá-lo em pé, enquanto a mão esquerda de Lucas Codd tomou o retorcido corno negro de suas mãos. Uma fina coluna de fumaça se erguia do corno, e o sacerdote viu sangue e bolha nos lábios do homem que havia o soado. O pássaro em seu peito estava sangrando também.
Euron Greyjoy subiu o morro lentamente, com todos os olhares sobre ele. Acima, a gaivota gritou e gritou novamente. Nenhum homem sem deus deveria sentar-se na Cadeira de Pedra do Mar, Aeron pensou, mas sabia que deveria deixar seu irmão falar. Seus lábios moviam-se silenciosamente em oração.
Os campeões de Asha se afastaram, e os de Victarion também. O sacerdote deu um passo para trás e colocou uma mão sobre a fria e áspera costela de Nagga. Olho de Corvo parou em cima dos degraus, ás portas do salão do Rei Cinza, e voltou seu olho sorridente aos capitães e aos reis, mas Aeron podia sentir seu outro olho também, aquele que ele mantinha escondido.
— HOMENS DE FERRO — gritou Euron Greyjoy. — Vocês ouviram meu corno, agora, ouçam minhas palavras. Eu sou o irmão de Balon. O mais velho filho vivo de Quellon, o sangue de Lorde Vickon está em minhas veias, e o sangue da velha lula gigante. Ainda assim eu tenho navegado para mais longe do que qualquer um desses. Apenas uma lula viva nunca conheceu a derrota. Apenas uma nunca dobrou o joelho. Apenas uma navegou para Asshai pelas sombras, e viu maravilhas e terrores além da imaginação...
— Se você gosta das sombras tanto assim, volte para lá. — Chamou, com as faces rosadas Qarl, a Donzela, uma entre os campeões de Asha.
Olho de Corvo o ignorou.
— Meu irmãozinho iria terminar a guerra de Balon e tomar o norte.
Minha doce sobrinha iria vos dar paz e pinhos — seus lábios azuis se torceram em um sorriso. – Asha prefere vitória à derrota. Victarion quer um reino, não uns poucos metros de terra. De mim, vocês terão os dois. Olho do Corvo, vocês me chamam. Bem, quem tem o olho mais aguçado que o corvo? Depois de cada batalha os corvos vem em centenas e em milhares para banquetear-se dos caídos. Um corvo pode espiar a morte de longe. E eu digo que todos o Westeros está morrendo. Aqueles que me escolherem irão festejar até o fim de seus dias. Nós somos os homens de ferro, e uma vez fomos conquistadores. Nosso lema corria por toda a parte em que o som das ondas eram ouvidos. Meu irmão fizeram vocês se contentarem com o frio e sombrio norte, minha sobrinha com menos ainda... Mas eu darei a vocês Lannisporto. Jardim de Cima. A Árvore. Vilavelha. As terras dos rios e a Campina, a estrada do rei e a Mata da Chuva, Dorne e a Marca, as Montanhas da Lua e o Vale de Arryn, Tarth e os Degraus. Eu digo que pegaremos tudo isso! Eu digo que pegaremos Westeros — ele olhou para o sacerdote. — Tudo para a maior glória do nosso deus afogado, na realidade.
Pela metade de um batimento cardíaco até Aeron foi varrido pela ousadia de suas palavras. O sacerdote havia sonhado o mesmo sonho, quando ele tinha visto o cometa vermelho no céu pela primeira vez.
Devemos varrer as terras verdes com fogo e espada, extirpar os sete deuses e as arvores brancas dos homens do norte...
— Olho do Corvo. — Asha chamou — Você deixou seu juízo em Asshai? Se não podemos manter o norte — e não podemos — como vamos ganhar os Sete Reinos?
— Porque não? Já foi feito antes. Será que Balon ensinou tão pouco a sua garota sobre os caminhos das guerras? Victarion, a filha de nosso irmão nunca ouviu falar de Aegon o Conquistador, é o que parece.
— Aegon? — Victarion cruzou seus braços sobre a armadura em seu peito. — O que o conquistador tem a ver conosco?
— Eu sei tanto de guerra quanto você, Olho do Corvo — Asha disse
— Aegon Tagaryen conquistou Westeros com dragões.
— E assim iremos nós — Euron Greyjoy prometeu — Esse corno que vocês ouviram eu encontrei entre as ruínas fumegantes que foram Valiria, onde nenhum homem ousou andar, exceto eu. Você ouviu seu chamado, e sentiu seu poder. Isto é um chifre de dragão, amarrados com bandas de ouro vermelho e esculpido em aço Valiriano com encantamentos.
Os antigos senhores dragões procuraram tais chifres, antes de a Perdição os devorarem. Com esse corno, homens de ferro, eu posso trazer dragões a minha vontade.
Asha riu em voz alta.
— Um chifre para ligar cabras a sua vontade seria de mais uso, Olho de Corvo. Não existem mais dragões.
— Novamente garota, você está errada. Existem três, e eu sei onde encontrá-los. Certamente isso vale uma coroa de troncos.
— EURON! — gritou Lucas Codd, o Mão o Esquerda.
— EURON! OLHO DE CORVO! EURON! — cantou o Oarsman, o Vermelho.
Os mudos e mestiços do Silencio abriram os cestos de Euron e derramaram seus presentes diante dos capitães e dos reis. Em seguida, foi Hotho Harlaw que o sacerdote ouviu, assim que ele enchia suas mãos de ouro. Gorold Goodbrother gritou também, e Erik, o Quebrador de Bigornas.
— EURON! EURON! EURON! — o grito cresceu, tornou-se um rugido. — EURON! EURON! OLHO DE CORVO! REI EURON! — Rolou pela Colina de Nagga, como o deus da tempestade chacoalhando as nuvens.
— EURON! EURON! EURON! EURON! EURON! EURON!. — Até mesmo um sacerdote pode duvidar. Até mesmo um profeta pode conhecer o terror. Aeron Cabelo Molhado procurou dentro de si mesmo por seu deus e encontrou apenas o silencio. Com as milhares de vozes gritando o nome de seu irmão, tudo o que ele podia ouvir era o grito de uma dobradiça de ferro enferrujada.
BRIENNE
A leste desta Lagoa da Donzela, os montes erguiam-se, selvagens, e os pinheiros fechavam-se em volta deles como uma hoste de soldados cinzentos esverdeados.
Dick dizia que a estrada costeira era o caminho mais curto e mais fácil, portanto raramente perdiam de vista a baía. As vilas e aldeias ao longo da costa iam-se tornando mais pequenas à medida que avançavam, e também menos frequentes. Ao cair da noite procuravam uma estalagem. Crabb partilhava a cama comum com outros viajantes, enquanto Brienne pagava um quarto para si e para Podrick.
— Era mais barato se dormíssemos todos na mesma cama, senhora — dizia o Dick. — Poderia pôr a sua espada entre nós. O Velho Dick era um tipo inofensivo. Cavalheiresco como um cavaleiro e tão honesto como o dia é longo.