— Os dias estão ficando mais curtos — fez notar Brienne.
— Bom, pode ser que sim. Se não confia em mim na cama, podia enrolar-me no chão, senhora.
— No meu chão, não.
— Um homem pode pensar que não tem nenhuma confiança em mim.
— A confiança ganha-se. Como o ouro.
— Como quiser, senhora — disse Crabb — mas lá em cima, a norte, onde a estrada acaba, nessa altura irá ter de confiar no Dick. Se eu quisesse roubar lhe o ouro à espadeirada, quem é que me impedia?
— Não tem uma espada. Mas eu tenho
Brienne fechou a porta entre eles e ficou ali à escuta até ter a certeza dele se ter ido embora. Por mais lesto que fosse, Dick Crabb não era nenhum Jaime Lannister, nenhum Rato Louco, nem sequer um Humfrey Wagstaff.
Era magro e mal alimentado, e a sua única armadura era um meio-elmo amolgado e salpicado de ferrugem. Em vez de espada, usava uma velha adaga cheia de entalhes. Enquanto estivesse acordada, o homem não constituía qualquer ameaça para si.
— Podrick — disse — chegará uma altura em que não haverá mais estalagens para nos fornecer abrigo. Não confio no nosso guia. Quando acamparmos, pode me vigiar enquanto durmo?
— Ficar acordado, senhora? Sor. — O rapaz refletiu. — Tenho uma espada. Se Crabb tentar te fazer mal, posso matá-lo.
— Não — disse ela com severidade. — Não deve tentar lutar com ele. Tudo o que peço é que o vigie enquanto eu durmo e me acorde se ele fizer alguma coisa suspeita. Vai descobrir que acordo depressa.
Crabb mostrou as suas verdadeiras cores no dia seguinte, quando pararam para dar água aos cavalos. Brienne teve de se esconder atrás de uns arbustos para esvaziar a bexiga. No momento em que se acocorava, ouviu Podrick dizer:
— O que está fazendo? Saí daí. — Acabou o que tinha a fazer, puxou as bragas para cima e quando regressou à estrada foi encontrar Dick a limpar farinha dos dedos.
— Não vai encontrar dragões nos alforges — disse-lhe. — Transporto o ouro comigo. — Algum encontrava-se na bolsa que trazia ao cinto, o resto estava escondido num par de bolsos cosidos no interior do vestuário. A gorda bolsa que tinha dentro do alforge estava cheia de cobres grandes e pequenos, dinheiros e meios-dinheiros, pequenas moedas de prata e estrelas... e fina farinha branca, para a tornar ainda mais gorda. Comprara a farinha ao cozinheiro das Sete Espadas, na manhã em que partira de Valdocaso.
— O Dick não tinha más intenções, senhora. — Torceu os seus dedos manchados de farinha para mostrar que não tinha armas. — Tava só vendo se tinha esses dragões que me prometeu. O mundo está cheio de mentirosos, prontos a aldrabar um homem honesto. Não que você seja um deles.
Brienne esperava que ele fosse melhor guia do que era ladrão.
— É melhor irmos andando. — Voltou a montar
Dick costumava cantar enquanto viajavam; nunca era uma canção inteira, só um bocado desta, um verso daquela. Brienne suspeitava que o homem pretendia seduzi-la, para a fazer baixar a guarda. Por vezes tentava levar a ela e a Podrick a cantar com ele, mas sem sucesso. O rapaz era demasiado tímido e tinha a língua demasiado presa, e Brienne não cantava.
Cantava para o seu pai? Perguntara-lhe uma vez a Senhora Stark, em Correrrio. Cantava para Renly? Não o fizera, nunca, embora tivesse desejado... tinha-o desejado...
Quando não estava a cantar, o Dick falava, regalando-os com histórias sobre a Ponta da Garra Rachada. Cada vale sombrio tinha o seu senhor, dizia ele, todos unidos apenas pela desconfiança que sentiam por forasteiros. Nas suas veias, o sangue dos Primeiros Homens corria escuro e forte.
— Os ândalos tentaram tomar a Garra, mas sangramos eles nos vales e os afogamos nos pântanos. Só que o que os filhos deles não conseguiram conquistar com as espadas, as lindas filhas conquistaram com beijos.
Casaram com as casas que não conseguiam conquistar, ah foi.
Os reis Darklyn de Valdocaso tinham procurado impor o seu domínio sobre a Ponta da Garra Rachada; os Mooton de Lagoa da Donzela também, e mais tarde fora a vez dos altivos Celtigar da Ilha dos Caranguejos.
Mas os homens da Garra conheciam os seus pântanos e florestas como nenhum forasteiro podia conhecer, e quando eram muito pressionados desapareciam nas cavernas que transformavam os seus montes em colmeias.
Quando não lutavam com aspirantes a conquistadores, lutavam uns com os outros. As suas rixas de sangue eram tão profundas e escuras como os pântanos entre os seus montes. De tempos a tempos, algum campeão trazia a paz à Ponta, mas nunca durava mais do que a sua vida. Lorde Lúcifer Hardy, esse fora um dos grandes, e os Irmãos Brune também. O Velho Crackbones ainda mais, mas os Crabb eram os mais poderosos de todos. — Dick ainda se recusava a acreditar que Brienne nunca tivesse ouvido falar de Sor Clarence Crabb e das suas façanhas.
— Porque haveria eu de mentir? — perguntou-lhe ela. — Todos os sítios têm os seus heróis locais. No lugar de onde venho, os cantores cantam sobre Sor Galladon de Morne, o Cavaleiro Perfeito.
— Sor Gallaquem de Quê? — O homem soltou uma fungadela. — Nunca ouvi falar. Porque diabo era ele assim tão perfeito?
— Sor Galladon foi um campeão de tal valor que a própria Donzela perdeu o coração por ele. Deu-lhe uma espada encantada como símbolo do seu amor. Chamava-se a Justa Donzela. Nenhuma espada vulgar era capaz de a parar, e nenhum escudo podia aguentar o seu beijo. Sor Galladon usava orgulhosamente a Justa Donzela, mas só por três vezes a desembainhou. Não queria usar a Donzela contra os mortais, pois era tão potente que desequilibraria qualquer luta.
Crabb achou aquilo hilariante.
— O Cavaleiro Perfeito? Soa mais ao Palerma Perfeito. Pra que raio se há-de ter uma espada mágica, se não é pra lhe dar uso?
— Honra — disse ela. — O motivo é a honra.
Aquilo só conseguiu fazê-lo rir mais alto.
— Sor Clarence Crabb era capaz de limpar aquele rabo peludo que tinha com o seu Cavaleiro Perfeito, senhora. Se algum dia se tivessem encontrado, era mais uma cabeça cheia de sangue na prateleira dos Murmúrios, cá pra mim. ‘Devia ter usado a espada mágica’, ele iria dizer às outras cabeças. ‘Devia ter usado a merda da espada.’
Brienne não pôde evitar sorrir.
— Talvez — concedeu — mas Sor Galladon não era palerma nenhum. Contra um inimigo com dois metros e quarenta, montado num auroque, podia perfeitamente ter desembainhado a Justa Donzela. Usou-a uma vez para matar um dragão, segundo se diz.
Dick não se deixou impressionar.
— O Crackbones também lutou com um dragão, mas não precisou de espada mágica nenhuma. Deu-lhe só um nó no pescoço, de modo que de cada vez que ele largava fogo, assava o próprio rabo.
— E o que fez o Crackbones quando Aegon e as irmãs chegaram? — perguntou-lhe Brienne.
— Tava morto. A senhora tem de saber disso. — Crabb deitou-lhe um olhar de través. — Aegon mandou a irmã à Garra Rachada, a tal Visenya. Os senhores tinham ouvido falar do fim de Harren. Como não eram palermas nenhuns, puseram as espadas aos pés dela. A rainha tomou-os como seus homens, e disse que não deviam lealdade a Lagoa da Donzela, Ilha dos Caranguejos ou Valdocaso. Isso não impediu aqueles malditos Celtigar de mandar homens à costa oriental pra coleta de impostos. Se mandar suficientes, alguns regressam... fora isso, a gente dobra-se só aos nossos senhores, e ao rei. Ao rei verdadeiro, não a Robert e gente desse. — Cuspiu. — Havia alguns Crabb, Brune e Boggse com o Príncipe Rhaegar no Tridente, e na Guarda Real também. Um Hardy, um Cave, um Pyne, e três Crabb, o Clement, o Rupert e Clarence, o Baixo. Tinha um metro e oitenta, o tipo, mas era baixo comparado com o verdadeiro Sor Clarence. Somos todos bons homens dos dragões, aqui no caminho da Garra Rachada.