O tráfego continuou a reduzir-se à medida que avançavam para norte e para leste, até que por fim deixaram de encontrar estalagens. Por essa altura, a estrada costeira era mais ervas daninhas do que sulcos. Naquela noite abrigaram-se numa aldeia de pescadores. Brienne pagou um punhado de cobres aos aldeões para os deixarem pernoitar num celeiro cheio de feno.
Ficou com o sobrado para si e para Podrik e puxou a escada depois de subirem.
— Se me deixar aqui em baixo sozinho, posso perfeitamente roubar os cavalos — gritou Crabb de baixo. — É melhor que os faça subir a escada tamem, senhora. — Quando ela o ignorou, ele prosseguiu dizendo:
— Esta noite vai chover. Uma chuva fria e forte. Você e o Pod irão dormir todos aconchegadinhos e quentes, e o pobre velho Dick vai ficar aqui em baixo a tremer sozinho. — Abanou a cabeça, resmungando, enquanto transformava uma pilha de feno numa cama. — Nunca conheci donzela tão desconfiada como você.
Brienne enrolou-se debaixo do manto, com Podrick a bocejar a seu lado. Não fui sempre cautelosa, podia ter gritado a Crabb. Quando era rapariguinha., acreditava que todos os homens eram tão nobres como o meu pai. Até os homens que lhe diziam como era uma menina bonita, como era alta, esperta e inteligente, como era graciosa quando dançava. Fora a Septã Roelle quem tirara as lascas de cima dos seus olhos.
— Eles só dizem aquelas coisas para conquistar o favor do senhor vosso pai — dissera a mulher. — Encontrará a verdade no espelho, não na língua dos homens. — Fora uma lição dura, uma lição que a deixara a chorar, mas servira-lhe bem em Harrenhal quando Sor Hyle e os amigos tinham jogado o seu jogo. Uma donzela tem de ser desconfiada neste mundo, senão não será donzela por muito tempo, estava ela a pensar quando a chuva começou a cair.
No corpo-a-corpo, em Pontamarga, procurara os seus pretendentes e espancara-os um por um, Farrow, Ambrose e Bushy, Mark Mullendore, Raymond Nayland e Will, o Cegonha. Atropelara Harry Sawyer e quebrara o elmo de Robin Potter, deixando-lhe uma cicatriz com mau aspecto. E quando o último deles caíra, a Mãe entregara-lhe Connington. Daquela vez, Sor Ronnet empunhava uma espada, em vez de uma rosa. Cada golpe que lhe dera era mais doce do que um beijo.
Loras Tyrell fora o último a enfrentar a sua fúria naquele dia. Nunca a cortejara, quase nem sequer a olhara, mas naquele dia trazia três rosas douradas no escudo, e Brienne odiava rosas. Vê-las dera-lhe uma força furiosa. Adormeceu sonhando com a luta que tinham tido, e com Sor Jaime a prender-lhe um manto de arco-íris em volta dos ombros.
Ainda chovia na manhã seguinte. Ao quebrarem o jejum, Dick sugeriu que esperassem que a chuva parasse.
— E isso será quando? Amanhã? Dentro de uma quinzena? Quando o verão voltar? Não. Temos mantos, e léguas a percorrer.
Choveu durante todo aquele dia. O estreito trilho que seguiam rapidamente se transformou em lama por baixo deles. As árvores que viam estavam despidas, e a chuva contínua transformara as folhas delas caídas num tapete encharcado e castanho. Apesar do seu forro de pele de esquilo, o manto de Dick deixava passar a água, e Brienne via-o a tremer. Sentiu um momento de piedade pelo homem. Ele não tem comido bem, isso é evidente.
Perguntou a si própria se haveria realmente uma angra de contrabandistas, ou um castelo arruinado chamado Murmúrios. Homens famintos fazem coisas desesperadas. Tudo aquilo podia ser um estratagema para a intrujar. A suspeita amargou-lhe o estômago.
Durante algum tempo pareceu que o marulhar constante da chuva era o único som que havia no mundo. Dick continuou a avançar, sem querer saber de nada. Observou-o de perto, notando o modo como ele dobrava as costas, como se enrolar-se na sela pudesse mantê-lo seco. Daquela vez não havia uma aldeia à mão quando a escuridão caiu sobre eles. Nem havia árvores que lhes fornecessem abrigo. Foram forçados a acampar por entre uns rochedos, cinquenta metros acima da linha das marés. Os rochedos, pelo menos, manteriam o vento afastado.
É melhor a gente fazer turnos de vigia esta noite, senhora — disselhe Crabb, no momento em que Brienne lutava por acender uma fogueira com a madeira trazida pelas marés. — Num sítio como este pode haver chapinheiros.
— Chapinheiros? — Brienne deitou-lhe um olhar desconfiado.
— Monstros — disse Dick com satisfação. — Parecem homens até se chegar perto, mas a cabeça é grande demais, e têm escamas onde um homem comum deve ter pelos. São brancos como a barriga dum peixe, com pele entre os dedos. Tão sempre úmidos e a cheirar a peixe, mas atrás daqueles lábios com ar choramingas que têm há filas de dentes verdes afiados como agulhas. Há quem diga que os Primeiros Homens os mataram a todos, mas não acredite nisso. Chegam de noite e roubam criancinhas malcriadas, andando por aí com aqueles pés de pato com um ruidinho de chapinhar. Ficam com as moças pra acasalar, mas comem os rapazes, roendo-os com aqueles dedos verdes e afiados. — Mostrou um sorriso a Podrick. — A você comeriam, moço. O comeriam cru.
— Se tentarem, eu mato-os. — Podrick tocou a espada.
— Tenta lá. Tenta. Os chapinheiros não são fáceis de matar. — Piscou o olho a Brienne. — É uma mocinha má, senhora?
— Não. — Só uma idiota. A madeira estava demasiada úmida para pegar, por mais faíscas que Brienne fizesse saltar da pederneira e do aço. Os gravetos fumegaram um pouco, mas foi tudo. Descontente, instalou-se com as costas apoiadas num rochedo, cobriu-se com o manto e resignou-se a uma noite fria e úmida. Sonhando com uma refeição quente, roeu uma porção de carne de vaca dura e salgada enquanto Dick falava sobre a altura em que Sor Clarence Crabb lutara com o rei dos chapinheiros. Ele conta histórias bem contadas, teve de admitir, mas Mark Mullendore também era divertido, com o seu macaquinho.
O tempo estava demasiado úmido para se ver o sol a pôr-se, demasiado cinzento para se ver a lua a nascer. A noite foi negra e desprovida de estrelas. Crabb esgotou as histórias e foi dormir. Podrick também estava em breve a ressonar. Brienne ficou sentada com as costas apoiadas ao rochedo, escutando as ondas. Está perto do mar, Sansa? Perguntou a si própria. Está à espera nos Murmúrios por um navio que nunca chegará?
Quem está com você? Passagens para três disse ele. Terá o Duende se juntado a vós e a Sor Dontos ou será que encontrou a sua irmãzinha?
O dia fora longo, e Brienne estava fatigada. Descobriu que até ficar sentada contra o rochedo, com a chuva a tamborilar levemente a toda a volta, fazia com que as pálpebras começassem a pesar. Dormitou por duas vezes.
Da segunda, acordou de repente, com o coração aos saltos, convencida de que alguém estava em pé por cima dela. Sentia os membros rígidos, e o manto estava a enrodilhar-se em volta dos seus tornozelos. Libertou-se dele com um pontapé e levantou-se. Dick estava aninhado de encontro a um rochedo, meio enterrado em areia molhada e pesada, a dormir. Um sonho.
Foi um sonho.
Talvez tivesse cometido um erro ao abandonar Sor Creighton e Sor Illifer. Tinham-lhe parecido honestos. Gostaria que Jaime estivesse comigo, pensou... mas ele era um cavaleiro da Guarda Real, o lugar que lhe competia era com o rei. Além disso, era Renly quem desejava. Jurei que o protegeria, e falhei. Depois jurei que o vingaria, e também falhei em fazê-lo. Em vez disso, fugi com a Senhora Catelyn, e também a ela falhei. O vento mudara de direção, e a chuva escorria-lhe pela cara.
No dia seguinte, a estrada reduziu-se a um fio pedregoso, e por fim a uma mera sugestão. Perto do meio-dia, chegou a um fim abrupto no sopé de uma escarpa esculpida pelo vento. Por cima, um pequeno castelo franzia o cenho por sobre as vagas, com três torres tortas delineadas contra um céu de chumbo.