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— Aquilo são os Murmúrios? — perguntou Podrick.

— Aquilo parece-te uma porcaria duma ruína? — Crabb cuspiu. — Aquilo é o Antro Terrível, onde o velho Lorde Brune tem a sede. Mas a estrada acaba aqui. Pra nós, daqui pra frente são pinheiros.

Brienne estudou a escarpa.

Como chegamos lá acima?

— É fácil. — Dick deu a volta ao cavalo. — Fique perto do Dick. Os chapinheiros são bichos pra apanhar os que ficam pra trás.

O caminho ascendente revelou-se um íngreme trilho pedregoso escondido no interior de uma fenda na rocha. A maior parte era natural, mas aqui e ali tinham sido esculpidos degraus para facilitar a ascensão. Paredes abruptas de rocha, carcomida por séculos de vento e borrifos das ondas, apertavam-nos de ambos os lados. Em alguns pontos tinham tomado formas fantásticas. Dick indicou algumas enquanto subiam.

— Ali está a cabeça de um ogro, vê? — disse, e Brienne sorriu quando a viu. — E aquilo ali é um dragão de pedra. A outra asa partiu-se quando o meu pai era moço. Aquilo ali por cima são as tetas descaídas como as duma velha bruxa. — E deitou um relance ao peito de Brienne.

— Sor? Senhora? — disse Podrick. — Há um cavaleiro.

— Onde? — Nenhuma das rochas lhe sugeria um cavaleiro.

— Na estrada. Não é cavaleiro de pedra. Um verdadeiro. A seguir-nos. Lá em baixo. — Apontou.

Brienne torceu-se na sela. Tinham subido até uma altura suficiente para ver léguas ao longo da costa. O cavalo aproximava-se pela mesma estrada que tinham percorrido, duas ou três milhas atrás deles . Outra vez?

Deitou um relance desconfiado a Dick.

— Não me olhe de lado — disse Crabb. — Ele não tem nada a ver com o velho Dick, seja quem for. Algum homem do Brune, o mais certo, a voltar das guerras. Ou um daqueles cantores que andam dum lado pró outro.

— Virou a cabeça e cuspiu. — Não é chapinheiro nenhum, isso é certo.

Esses não montam a cavalo.

—Não — disse Brienne. Naquilo, pelo menos, podiam concordar.

Os últimos trinta metros da subida revelaram-se os mais íngremes e traiçoeiros. Pedrinhas soltas rolavam por baixo dos cascos dos cavalos e caíam aos saltinhos pelo caminho pedregoso que tinham deixado para trás.

Quando emergiram da fenda na rocha, encontraram-se junto às muralhas do castelo. Num parapeito, por cima deles, uma cara espreitou-os, após o que desapareceu. Brienne achou que podia ter sido uma mulher e disse isso mesmo a Dick.

Ele concordou.

— O Brune é velho demais pra andar a subir aos adarves, e os filhos e netos foram prás guerras. Não ficou ali ninguém a não ser mulheres, e um bebê ranhoso ou dois.

Estava nos lábios de Brienne perguntar ao guia de qual dos reis fora a causa que o Lorde Brune abraçara, mas já não tinha importância. Os filhos de Brune tinham partido; alguns podiam nem regressar. Não obteremos aqui hospitalidade esta noite. Não era provável que um castelo cheio de velhos, mulheres e crianças abrisse as portas a estranhos armados.

— Fala de Lorde Brune como se o conhecesse — disse ela ao Dick.

— Pode ser que tenha conhecido, em tempos.

Brienne deitou um relance ao peito do gibão do homem. Fios soltos e um bocado esfarrapado de pano mais escuro indicavam o lugar de onde um símbolo qualquer fora arrancado. O seu guia era um desertor, não duvidava.

Poderia o cavaleiro que os seguia ser um dos seus irmãos de armas?

— Devíamos continuar — exortou o homem — antes do Brune começar a perguntar a si próprio por que diabo estamos aqui à sombra das suas muralhas. Até uma mulher pode esticar a porcaria da corda duma besta.

— Dick indicou com um gesto os montes de pedra calcária que se erguiam atrás do castelo, com as suas vertentes arborizadas. — Daqui prá frente não há mais estradas, só ribeiros e trilhos de caça, mas a senhora não precisa de ter medo. Dick conhece esta zona.

Era isso que Brienne temia. O vento soprava em rajadas ao longo do topo da escarpa, mas a única coisa que conseguia cheirar era uma armadilha.

— E aquele cavaleiro? — A menos que o seu cavalo fosse capaz de caminhar sobre as ondas, em breve subiria a escarpa.

— Que é que ele tem? Se for um palerma qualquer de Lagoa da Donzela, pode nem sequer encontrar a porcaria do caminho. E se encontrar, a gente despista-o nos bosques. Não vai ter lá estrada pra seguir.

Só o nosso rastro. Brienne perguntou a si própria se não seria melhor enfrentar o cavaleiro ali, de espada na mão. Parecerei uma completa idiota se for um cantor ambulante ou um dos filhos do Lorde Brune. Supunha que Crabb tinha razão. Se ainda vier atrás de nós amanhã, posso lidar com ele nessa altura.

— Como quiser — disse, virando a égua na direção das árvores.

O castelo do Lorde Brune minguou nas suas costas, e em breve ficou fora de vista. Sentinelas e pinheiros marciais erguiam-se a toda a volta, altas lanças vestidas de verde lançadas para o céu. O chão da floresta era um tapete de agulhas caídas com a espessura de uma muralha de castelo, juncado de pinhas. Os cascos dos cavalos pareciam não fazer um som.

Choveu um pouco, parou durante algum tempo, e então recomeçou a chover, mas entre os pinheiros quase não sentiram uma gota.

O avanço era muito mais lento nos bosques. Brienne incitava a égua a avançar através da penumbra verde, ziguezagueando de um lado para o outro por entre as árvores. Apercebeu-se de que seria muito fácil perder-se ali. Todos os lados para onde olhava pareciam iguais. O próprio ar parecia cinzento, verde e imóvel. Galhos de pinheiro raspavam nos seus braços e arranhavam ruidosamente o escudo pintado de novo. A estranha quietude mexia-lhe mais com os nervos a cada hora que passava.

Também a incomodava Dick. Mais tarde nesse dia, quando o ocaso se aproximava, tentou cantar.

— Havia um urso, um urso, um urso! Preto e castanho e coberto de pêlo — cantou, com uma voz tão áspera como um par de bragas de lã. Os pinheiros beberam a sua canção, tal como bebiam o vento e a chuva. Pouco depois, parou.

— Isto aqui é mau — disse Podrick. — Este lugar é mau.

Brienne sentia o mesmo, mas não serviria de nada admiti-lo.

— Um pinhal é um sítio sombrio, mas no fim de contas é só uma floresta. Não há nada aqui que tenhamos que temer.

— Então e os chapinheiros? E as cabeças?

— Aí está um moço esperto — disse Dick, rindo.

Brienne deitou-lhe um olhar aborrecido.

— Os chapinheiros não existem — disse a Podrick — e as cabeças também não.

Os montes subiram, os montes desceram. Brienne deu por si a rezar para que Dick fosse honesto, e soubesse para onde os estava a levar.

Sozinha, nem sequer tinha a certeza de conseguir voltar a encontrar o mar.

De dia ou de noite, o céu mostrava-se de um cinzento sólido e encoberto, sem sol nem estrelas que a ajudassem a orientar-se.

Acamparam cedo naquela noite, depois de descerem uma colina e de se acharem na borda de um reluzente pântano verde. À luz cinzenta esverdeada, o terreno que se estendia em frente parecia bastante sólido, mas quando avançaram, engoliram os cavalos até ao garrote. Tiveram de dar meia volta e lutar por regressar a um terreno mais sólido.

— Não importa — garantiu-lhes Crabb. — Voltamos subir a colina e descermos por outro lado.

O dia seguinte foi igual. Cavalgaram por entre pinheiros e pântanos, sob céus escuros e chuva intermitente, passando por poços e grutas e pelas ruínas de antigas fortalezas cujas pedras estavam cobertas de musgo. Cada pilha de pedras tinha uma história, e Dick contou todas. Se acreditasse no que ele contava, os homens da Ponta da Garra Rachada tinham lavado os seus pinheiros com sangue. A paciência de Brienne começou rapidamente a desgastar-se.