— Claro que não — rosnou Elyas. — Não teria funcionado em mim, o amansamento, mas me deixou furioso elas quererem tentar. Isto é coisa antiga, garoto. Mais antiga do que as Aes Sedai. Mais antiga do que qualquer pessoa usando o Poder Único. Antiga como a humanidade. Antiga como os lobos. Elas também não gostam disso, as Aes Sedai. Coisas antigas voltando. Eu não sou o único. Existem outras coisas, outras pessoas. Deixam as Aes Sedai nervosas, fazem com que resmunguem sobre barreiras antigas se enfraquecendo. As coisas estão se rompendo, elas dizem. Têm medo de que o Tenebroso se liberte, é isso. Do jeito que algumas delas olhavam para mim, alguém pensaria que a culpa era minha. As da Ajah Vermelha, pelo menos, mas algumas outras também. O Trono de Amyrlin… Aaaah! Eu fico longe delas na maior parte do tempo, e passo ao largo de amigos das Aes Sedai também. Se forem espertos, vocês também vão fazer isso.
— Para mim, não haveria nada melhor do que ficar longe das Aes Sedai — disse Perrin.
Egwene lhe lançou um olhar duro. Perrin torceu para que ela não explodisse e dissesse que queria ser uma Aes Sedai. Mas ela não disse nada, embora tivesse ficado de cara amarrada, e Perrin continuou.
— Não tivemos escolha. Tivemos Trollocs nos perseguindo, e Desvanecidos, e Draghkar. Tudo menos Amigos das Trevas. Não podemos nos esconder, e não temos como lutar sozinhos. Então quem vai nos ajudar? Quem mais é forte o bastante, além das Aes Sedai?
Elyas ficou em silêncio por um tempo, olhando para os lobos, com mais frequência para Pintada e Queimado. Perrin se remexia, nervoso, e tentava não olhar. Quando olhava, tinha a sensação de que quase podia ouvir o que Elyas e os lobos estavam dizendo uns para os outros. Mesmo que não tivesse nada a ver com o Poder, ele não queria fazer parte daquilo. Ele tinha de estar fazendo alguma piada maluca. Eu não sei falar com lobos. Um dos lobos — Saltador, ele achava — olhou para ele e pareceu sorrir. Perrin ficou imaginando como ele havia dado o nome ao lobo.
— Vocês poderiam ficar comigo — disse Elyas finalmente. — Conosco. — Egwene ergueu as sobrancelhas, e Perrin ficou boquiaberto. — Ora, o que poderia ser mais seguro? — questionou Elyas. — Trollocs fazem qualquer coisa para matar um lobo solitário, mas desviam milhas de seu caminho para evitar uma matilha. E vocês também não vão precisar se preocupar com as Aes Sedai. Elas não vêm com frequência a estas florestas.
— Não sei. — Perrin evitava olhar para os lobos que o ladeavam. Um era Pintada, e ele podia sentir os olhos dela pousados nele. — Para começar, não são só Trollocs.
Elyas soltou uma risada fria.
— Eu já vi uma matilha acabar com um dos Sem-olhos também. Perdi metade da matilha, mas eles não queriam desistir depois que sentiram o cheiro dele. Trollocs, Myrddraal, para os lobos é tudo a mesma coisa. É você que eles querem, garoto. Eles já ouviram falar em outros homens que podem falar com lobos, mas você é o primeiro que eles conhecem além de mim. Mas também vão aceitar sua amiga, e vocês vão ficar mais seguros aqui do que em qualquer cidade. Há Amigos das Trevas nas cidades.
— Escute — disse Perrin com urgência —, eu gostaria que você parasse de dizer isso. Eu não posso… fazer isso… o que você faz, o que você está dizendo.
— Como quiser, garoto. Fique se enganando, se é o que quer. Não é segurança que está procurando?
— Eu não estou me enganando. Não há nada para me enganar. Tudo o que queremos…
— Estamos indo para Caemlyn — disse Egwene com firmeza. — E de lá para Tar Valon.
Fechando a boca, Perrin devolveu o olhar furioso dela com outro. Ele sabia que ela seguia sua liderança quando queria, e não quando não queria, mas podia ao menos deixar que ele respondesse por si mesmo.
— E você, Perrin? — Ele mesmo perguntou e respondeu: — Eu? Bem, deixe-me pensar. Sim. É, eu acho que vou. — Virou-se para ela com um leve sorriso. — Bem, Egwene, agora somos dois. Acho que vou com você, afinal. É bom conversar sobre essas coisas antes de tomar uma decisão, não é? — Ela enrubesceu, mas não relaxou o maxilar.
Elyas resmungou.
— Pintada disse que era o que vocês decidiriam. Disse que a garota está plantada firmemente no mundo humano, ao passo que você — ele assentiu para Perrin — está no meio do caminho. Nessas circunstâncias, suponho que seja melhor irmos para o sul com vocês. Caso contrário, vocês provavelmente morrerão de fome, ou se perderão, ou…
Subitamente Queimado se levantou, e Elyas virou a cabeça para fitar o grande lobo. Depois de um momento, Pintada também se ergueu. Ela se aproximou mais de Elyas, de modo a também encarar Queimado. Todos permaneceram imóveis por longos minutos, então Queimado se virou e desapareceu na noite. Pintada se sacudiu, depois voltou a seu lugar, deitando-se no chão como se nada tivesse acontecido.
Elyas olhou nos olhos questionadores de Perrin.
— Pintada é a líder desta matilha — explicou ele. — Alguns dos machos poderiam derrotá-la se a desafiassem, mas ela é mais inteligente que qualquer um deles, e todos sabem disso. Ela já salvou a matilha mais de uma vez. No entanto, Queimado acha que a matilha está perdendo tempo com vocês três. O ódio aos Trollocs é tudo que existe para ele, e se há Trollocs tão longe, aqui ao sul, ele quer sair à caça deles para matá-los.
— Nós entendemos — disse Egwene, parecendo aliviada. — Nós podemos achar o caminho sozinhos, de verdade… com algumas orientações, é claro, se você as der.
Elyas agitou a mão no ar.
— Eu disse que é Pintada quem lidera a matilha, não disse? Pela manhã vou para o sul com vocês, e eles também. — Egwene fez uma cara de quem não achava que aquela era a melhor notícia que poderia ter recebido.
Perrin ficou sentado, envolto em seu próprio silêncio. Ele podia sentir Queimado partindo. E o macho cheio de cicatrizes não era o único; uma dezena de outros, todos machos jovens, seguiu-o. Ele queria acreditar que era apenas Elyas brincando com sua imaginação, mas não conseguia. Pouco antes que os lobos partindo sumissem de sua mente, ele sentiu um pensamento que sabia que vinha de Queimado, tão agudo e claro quanto se fosse seu próprio pensamento. Ódio. Ódio e o gosto de sangue.
24
Fuga pelo Arinelle
Ao longe ouvia-se o ruído de água gotejando, respingos surdos ecoando e tornando a ecoar, perdendo-se de sua origem para sempre. Havia pontes de pedra e rampas sem parapeito por toda parte, todas despontando de amplas torres de pedra de topo achatado, todas polidas, lisas e com veios vermelhos e dourados. Nível após nível, o labirinto estendia-se para cima e para baixo pela escuridão, sem começo nem fim aparente. Cada ponte levava a uma torre, cada rampa a outra torre, outras pontes. Para qualquer direção que Rand se voltasse, até onde seu olho podia distinguir na penumbra, era a mesma coisa, acima e abaixo. Não havia luz suficiente para enxergar com clareza, e ele estava quase feliz por isso. Algumas das rampas levavam a plataformas que tinham de estar diretamente acima das primeiras. Ele não conseguia ver a base de nenhuma delas. Seguia em frente, em busca de liberdade, sabendo que era uma ilusão. Tudo era ilusão.
Rand conhecia a ilusão; ele a havia seguido vezes demais para não saber. Por mais longe que fosse, para cima ou para baixo em qualquer direção, só havia a pedra brilhante. Pedra, mas a umidade da terra profunda e recém-revirada permeava o ar com a doçura enjoativa da decomposição. O cheiro de uma tumba aberta antes do tempo. Ele tentou não respirar, mas o cheiro enchia suas narinas. Agarrava-se à sua pele como óleo.
Um movimento rápido atraiu seu olhar, e ele estacou onde estava, meio agachado contra o muro de proteção reluzente que contornava o topo de uma das torres. Não era um esconderijo. Um vigia poderia tê-lo avistado de mil outros lugares. As sombras preenchiam o ar, mas não havia sombras mais profundas nas quais se esconder. A luz não vinha de lampiões, lanternas ou tochas; estava simplesmente lá, porque sim, como se emanasse do ar. Era suficiente para ver, de certa forma; o suficiente para ser visto. Mas a imobilidade dava um pouco de proteção.