— Rapaz! — Ele ouviu a voz rouca de Thom. — Rapaz, se está tentando quebrar esse pescoço tolo, não faça isso caindo em cima de mim.
Rand olhou para baixo. Thom se agarrava aos degraus da escada de corda logo abaixo dele, olhando com ar sinistro para a pequena distância que os separava. Assim como Rand, o menestrel havia deixado o manto lá embaixo.
— Thom — disse, encantado. — Thom, quando você subiu?
— Quando você não deu ouvidos às pessoas gritando com você. Que me queimem, garoto, todo mundo está achando que você ficou maluco.
Rand olhou para baixo e ficou surpreso ao ver todos os rostos voltados para ele. Apenas Mat, sentado de pernas cruzadas na proa de costas para o mastro, não estava olhando para ele. Até mesmo os homens nos remos tinham os olhos erguidos, deixando as remadas perderem o ritmo. E ninguém estava chamando a atenção deles por isso. Rand girou a cabeça ao redor para olhar a popa por baixo do braço. O Capitão Domon encontrava-se de pé diante do remo de navegação, punhos grandes como pernis na cintura, olhando furioso para ele no topo do mastro. Rand se virou para sorrir para Thom.
— Quer que eu desça, então?
Thom assentiu vigorosamente.
— Eu agradeceria muito.
— Está certo. — Trocando a posição das mãos no estai dianteiro, ele deu um impulso para a frente, soltando o topo do mastro. Ouviu Thom engolir uma imprecação quando sua queda foi interrompida e ele ficou pendurado no estai dianteiro pelas mãos. O menestrel olhou de cara feia para ele, uma das mãos estendida a meio caminho de agarrá-lo. Ele sorriu para Thom novamente. — Vou descer agora.
Lançando as pernas para cima, ele enganchou um joelho no cabo grosso que corria do mastro até a proa, depois se segurou com a dobra do cotovelo… e soltou as mãos. Lentamente, depois com velocidade cada vez maior, foi escorregando para baixo. Pouco antes de chegar à proa ele se soltou e caiu de pé no convés bem na frente de Mat, deu um passo à frente para se equilibrar e se virou para encarar o navio com braços bem abertos, como Thom fazia depois de uma acrobacia.
Alguns aplausos esparsos vieram da tripulação, mas ele estava olhando surpreso para Mat, e para o que Mat segurava, escondido de todos os demais por seu corpo. Uma adaga curva com uma bainha de ouro trabalhada com estranhos símbolos. Finos fios de ouro davam a volta no cabo, que era encimado por um rubi do tamanho do polegar de Rand, e as guardas eram serpentes de escamas de ouro mostrando as presas.
Mat continuou a deslizar a adaga para dentro e para fora da bainha por um momento. Ainda brincando com a adaga, ergueu a cabeça lentamente; seus olhos tinham uma expressão distante. Subitamente eles focalizaram Rand, e ele levou um susto, enfiando a adaga dentro do casaco.
Rand se agachou, os braços cruzados sobre os joelhos.
— Onde você conseguiu isso? — Mat não disse nada, olhando rapidamente para ver se havia mais alguém por perto. Por um milagre, estavam sozinhos. — Você não a pegou de Shadar Logoth, pegou?
Mat o fitou.
— A culpa é sua. Sua e de Perrin. Vocês dois me puxaram para longe do tesouro, e eu estava com ela na mão. Não foi Mordeth que me deu. Eu peguei, então os avisos de Moiraine sobre os presentes dele não se aplicam. Você não vai contar a ninguém, Rand. Eles podem tentar roubá-la.
— Eu não vou contar a ninguém — disse Rand. — Acho que o Capitão Domon é honesto, mas não apostaria nos outros, principalmente Gelb.
— A ninguém — insistiu Mat. — Nem Domon, nem Thom, nem ninguém. Somos os dois únicos que restam de Campo de Emond, Rand. Não podemos nos dar ao luxo de confiar em mais ninguém.
— Eles estão vivos, Mat. Egwene e Perrin. Eu sei que estão vivos. — Mat pareceu envergonhado. — Mas vou guardar seu segredo. Só nós dois. Pelo menos não precisamos nos preocupar com dinheiro agora. Podemos vendê-la e conseguir o suficiente para viajar até Tar Valon como reis.
— É claro — disse Mat, depois de um minuto. — Se for preciso. Só não conte a ninguém até eu dizer.
— Já disse que não vou fazer isso. Escute, você teve mais algum sonho desde que viemos a bordo? Como em Baerlon? Esta é a primeira chance que tenho de perguntar sem mais seis pessoas escutando.
Mat virou a cabeça, olhando-o de esguelha.
— Talvez.
— O que você quer dizer com talvez? Ou você teve ou não teve.
— Está certo, está certo, tive. Mas não quero falar sobre isso. Não quero nem pensar nisso. Não ajuda em nada.
Antes que qualquer um dos dois pudesse falar mais alguma coisa, Thom veio a passos largos pelo convés, o manto sobre o braço. O vento batia nos seus cabelos brancos, e os longos bigodes pareciam se eriçar.
— Consegui convencer o capitão de que você não é maluco — anunciou —, de que aquilo era parte do seu treinamento. — Ele segurou o estai dianteiro e o balançou. — Aquela sua exibição boba descendo escorregando pela corda ajudou, mas você teve sorte de não quebrar esse pescoço tolo.
O olhar de Rand foi até o estai dianteiro e o seguiu até o alto, e, à medida que subia, seu queixo ia caindo. Ele havia mesmo descido aquilo. E havia se sentado no alto do…
Subitamente pôde ver a si mesmo lá no alto, braços e pernas bem abertos. Sentou-se com força no chão, e por pouco não tombou de costas. Thom olhava para ele, pensativo.
— Eu não sabia que você tinha uma cabeça tão boa para alturas, rapaz. Talvez pudéssemos nos apresentar em Illian, ou Ebou Dar, ou até mesmo em Tear. O pessoal das cidades grandes no sul gosta de equilibristas de corda.
— Nós vamos para… — No último minuto Rand lembrou de olhar ao redor para ver se havia alguém próximo o bastante para ouvi-los. Vários membros da tripulação os observavam, incluindo Gelb, com ódio no olhar como de costume, mas ninguém podia ouvir o que ele estava falando. — Tar Valon — ele concluiu. Mat deu de ombros como se, para ele, desse na mesma para onde iam.
— No momento, rapaz — disse Thom, acomodando-se ao lado deles. — Mas amanhã… quem sabe? Assim é a vida de um menestrel. — Ele pegou um punhado de bolas coloridas de uma de suas mangas largas. — Já que tirei você lá do alto, vamos praticar a cruzada tripla.
O olhar de Rand vagou até o alto do mastro, e ele estremeceu. O que está acontecendo comigo? Luz, o quê? Ele precisava descobrir. Precisava chegar a Tar Valon antes de enlouquecer de verdade.
25
O Povo Errante
Bela seguia placidamente sob o sol fraco como se os três lobos trotando não muito longe fossem apenas cães de aldeia, mas o jeito como ela revirava os olhos na direção deles de tempos em tempos, mostrando apenas a parte branca, indicava que não era o que ela sentia. Egwene, no lombo da égua, não estava mais à vontade. Ela observava os lobos constantemente pelo canto do olho, e às vezes se virava na sela para olhar ao redor. Perrin tinha certeza de que ela estava procurando o restante da matilha, embora negasse, zangada, quando ele sugeria isso, negasse estar com medo dos lobos que andavam com eles, negasse estar preocupada com o resto da matilha ou com o que eles estariam fazendo. Ela negava e continuava observando, os olhos semicerrados, umedecendo os lábios, inquieta.
O resto da matilha estava bem distante; ele podia ter dito a ela. De que serviria isso, mesmo que ela acreditasse em mim? Especialmente se ela acreditasse em mim. Ele não estava disposto a mexer naquele vespeiro até que fosse necessário. Não queria nem pensar em como sabia. O homem vestido de peles corria à frente deles, às vezes ele mesmo parecendo um lobo, e nunca olhava ao redor quando Pintada, Saltador e Vento surgiam, mas ele também sabia.