Ainda acariciando os cães, Elyas estudou o bosque.
— Aqui há Tuatha’an. O Povo Errante. — Eles o olharam sem entender, e ele acrescentou: — Latoeiros.
— Latoeiros?! — Perrin espantou-se. — Eu sempre quis conhecer os Latoeiros. Eles acampam do outro lado do rio lá em Barca do Taren às vezes, mas não descem para os Dois Rios, até onde eu sei. Não sei por quê.
Egwene bufou.
— Provavelmente porque o povo de Barca do Taren é tão ladrão quanto os Latoeiros. Sem dúvida eles iam acabar roubando descaradamente uns aos outros. Mestre Elyas, se realmente há Latoeiros por perto, não deveríamos seguir em frente? Não queremos que Bela seja roubada, e… bem, não temos muitas outras coisas, mas todo mundo sabe que os Latoeiros roubam qualquer coisa.
— Incluindo bebês? — perguntou Elyas, seco. — Sequestrar crianças, e tudo mais? — Ele cuspiu, e ela enrubesceu. Aquelas histórias sobre bebês eram contadas às vezes, mas na maioria das vezes por Cenn Buie e um dos Coplins ou Congars. As outras histórias todo mundo conhecia. — Os Latoeiros me deixam enjoado às vezes, mas eles não roubam mais do que a maioria das pessoas. Bem menos do que algumas que conheço.
— Vai ficar escuro daqui a pouco, Elyas — disse Perrin. — Precisamos acampar em algum lugar. Por que não com eles, se eles nos aceitarem? — A Senhora Luhhan tinha uma panela consertada por Latoeiros que ela vivia dizendo que era melhor do que nova. Mestre Luhhan não gostava muito dos elogios que sua esposa fazia ao trabalho dos Latoeiros, mas Perrin queria ver como ele era feito. Mesmo assim, havia uma relutância em Elyas que ele não entendia. — Existe alguma razão pela qual não deveríamos?
Elyas sacudiu a cabeça, mas a relutância ainda estava lá, na postura dos seus ombros e nos lábios apertados.
— Pode ser. Só não preste atenção ao que eles disserem. Um monte de bobagens. Na maioria das vezes o Povo Errante faz as coisas de qualquer maneira, mas há momentos em que eles decidem se comportar com formalidade. Nessas horas, ajam como eu agir. E guardem seus segredos. Não precisam contar tudo ao mundo.
Os cães andavam ao lado deles, abanando o rabo, enquanto Elyas os conduzia entre as árvores. Perrin sentiu os lobos irem mais devagar e soube que eles não entrariam. Não tinham medo dos cães. Desprezavam essa espécie, que havia desistido da liberdade pelo conforto de dormir à beira de uma fogueira. Mas as pessoas eles evitavam.
Elyas caminhava com segurança, como se conhecesse o caminho, e perto do centro do bosque os carroções dos Latoeiros surgiram, espalhados entre os carvalhos e os freixos.
Como todos em Campo de Emond, Perrin havia ouvido muito a respeito dos Latoeiros, ainda que nunca tivesse visto um deles, e o acampamento era exatamente o que esperava. Os carroções eram pequenas casas sobre rodas, caixas altas de madeira laqueada e pintadas com cores brilhantes, vermelhos, azuis, amarelos e verdes e alguns tons cujo nome ele não sabia dizer. O Povo Errante estava ocupado com tarefas que eram decepcionantemente triviais: cozinhando, costurando, cuidando de crianças, consertando arreios, mas suas roupas eram ainda mais coloridas que os carroções e aparentemente escolhidas ao acaso; às vezes casaco e calças, ou vestidos e xales, combinavam-se de um jeito que fazia doer os olhos. Eles pareciam borboletas num campo de flores silvestres.
Quatro ou cinco homens em pontos diferentes do acampamento tocavam rabecas e flautas, e algumas pessoas dançavam como beija-flores das cores do arco-íris. Crianças e cães corriam, brincando entre as fogueiras. Os cães eram mastins iguais aos que haviam confrontado os viajantes, mas as crianças puxavam suas orelhas e caudas e montavam em suas costas, e os cães imensos aceitavam tudo com placidez. Os três que estavam com Elyas, a língua pendendo da boca, olhavam para o homem barbudo como se ele fosse seu melhor amigo. Perrin balançou a cabeça. Ainda eram grandes o bastante para alcançar a garganta de um homem mal tirando as patas dianteiras do chão.
Subitamente a música parou, e Perrin percebeu que todos os Latoeiros olhavam para ele e seus companheiros. Até mesmo as crianças e os cães pararam e ficaram observando, desconfiados, como se prestes a fugir.
Por um momento tudo ficou em silêncio absoluto, e então um homem magro, baixinho e de cabelos grisalhos deu um passo à frente e fez uma mesura formal para Elyas. Ele vestia um casaco vermelho de colarinho alto, e calças verdes bufantes enfiadas em botas que iam até os joelhos.
— Bem-vindo às nossas fogueiras. Você conhece a canção?
Elyas fez uma mesura semelhante, pressionando o peito com ambas as mãos.
— Suas boas-vindas aquecem meu espírito, Mahdi, como suas fogueiras aquecem o corpo, mas eu não conheço a canção.
— Então ainda buscamos — entoou o homem de cabelos grisalhos. — Como foi, assim há de ser, se lembrarmos, buscarmos e encontrarmos. — Ele fez um gesto amplo com o braço, abarcando as fogueiras, com um sorriso no rosto, e sua voz assumiu uma leveza alegre. — A refeição está quase pronta. Junte-se a nós, por favor.
Como se aquilo tivesse sido um sinal, a música voltou a tocar e as crianças voltaram a rir e a correr com os cães. Todos no acampamento retomaram o que estavam fazendo, como se os recém-chegados fossem amigos aceitos havia muito tempo.
Mas o homem grisalho hesitou e olhou para Elyas.
— Seus… outros amigos? Eles vão ficar longe? Eles assustam os pobres cães.
— Eles vão ficar longe, Raen. — O balançar de cabeça de Elyas tinha um toque de pouco-caso. — A essa altura, você já devia saber disso.
O homem grisalho abriu as mãos como se querendo dizer que era sempre bom se certificar. Quando se virou para conduzi-los ao acampamento, Egwene desmontou e se aproximou de Elyas.
— Vocês dois são amigos? — Um Latoeiro sorridente apareceu para pegar Bela; Egwene entregou as rédeas com relutância, depois de um bufo irônico de Elyas.
— Nós nos conhecemos — replicou secamente o homem vestido de peles.
— O nome dele é Mahdi? — perguntou Perrin.
Elyas grunhiu alguma coisa baixinho.
— O nome dele é Raen. Mahdi é seu título. Buscador. Ele é o líder deste bando. Podem chamá-lo de Buscador se o outro nome soar estranho. Ele não vai se importar.
— Que história era aquela de canção? — perguntou Egwene.
— É por isso que eles viajam — disse Elyas —, ou pelo menos é o que dizem. Estão procurando uma canção. É isso o que o Mahdi busca. Eles dizem que a perderam durante a Ruptura do Mundo, e, se puderem encontrá-la novamente, o paraíso da Era das Lendas retornará. — Ele correu os olhos ao redor do acampamento e bufou. — Eles não sabem nem o que é a canção; afirmam que saberão quando a encontrarem. Também não sabem de que forma se espera que ela traga o paraíso, mas eles a vêm buscando há quase três mil anos, desde a Ruptura. Eu acho que vão continuar buscando até a Roda parar de girar.
Então eles chegaram à fogueira de Raen, no meio do acampamento. O carroção do Buscador era amarelo com listras vermelhas, e os raios de suas rodas altas de bordas vermelhas alternavam o vermelho e o amarelo. Uma mulher rechonchuda, tão grisalha quanto Raen, mas com o rosto ainda sem rugas, saiu do carroção e parou nos degraus da parte traseira, endireitando um xale de franjas azuis sobre os ombros. Sua blusa era amarela e a saia vermelha, ambos tons vivos. A combinação fez Perrin piscar, e Egwene deixou escapar um som estrangulado.
Quando viu as pessoas que seguiam Raen, a mulher desceu com um sorriso de boas-vindas. Era Ila, esposa de Raen, uma cabeça mais alta que o marido, e em pouco tempo fez Perrin esquecer as cores de suas roupas. Sua atitude maternal o fez lembrar-se da Senhora al’Vere e o fez sentir-se bem-vindo desde o primeiro sorriso.
Ila saudou Elyas como um velho conhecido, mas com um distanciamento que pareceu magoar Raen. Elyas lhe dirigiu um sorriso seco e um assentimento com a cabeça. Perrin e Egwene se apresentaram, e ela segurou as mãos deles nas suas com muito mais calor do que havia demonstrado com Elyas, chegando até mesmo a abraçar Egwene.