Egwene jogou a cabeça para trás.
— E eu achei que você não queria que eu me tornasse uma Aes Sedai — disse ela, com excesso de doçura na voz.
— Sangue e cinzas, você acredita que estamos seguros aqui? Estas pessoas estão a salvo com a gente aqui? Um Desvanecido poderia nos encontrar a qualquer momento.
A mão dela tremeu segurando as contas. Ela a abaixou e respirou fundo.
— O que tiver de acontecer vai acontecer, quer partamos agora ou na semana que vem. É nisso que eu acredito agora. Divirta-se, Perrin. Pode ser a última chance que temos.
Ela passou os dedos pelo rosto dele com tristeza. Então Aram estendeu a mão para ela, e Egwene correu para ele, já rindo novamente. Enquanto eles corriam para onde as rabecas cantavam, Aram se virou para trás e dirigiu um sorriso triunfante para Perrin, como se para dizer “ela não é sua, mas será minha”.
Eles estavam se deixando enfeitiçar demais pelo Povo, pensou Perrin. Elyas tem razão. Eles não precisam tentar converter você ao Caminho da Folha. Este se infiltra em você.
Ila o vira se encolhendo para se proteger do vento, então fora buscar um manto grosso de lã em seu carroção; um manto verde-escuro, ele ficou contente ao ver, depois de todos aqueles vermelhos e amarelos. Quando o colocou em torno dos ombros, pensando que era espantoso o manto ser grande o bastante para ele, Ila disse, séria:
— Podia caber melhor. — Ela olhou para o machado no cinto, e, quando ergueu os olhos para ele, a tristeza de seus olhos não combinava com o sorriso. — Podia caber muito melhor.
Todos os Latoeiros faziam isso. Eles nunca deixavam de sorrir, jamais havia qualquer hesitação em seus convites para se juntar a eles para uma bebida ou escutar música, mas seus olhares sempre tocavam o machado, e ele podia sentir o que eles pensavam. Um instrumento de violência. Não existe nenhuma desculpa para a violência contra outro ser humano. Nunca. O Caminho da Folha.
Às vezes queria gritar com eles. Havia Trollocs no mundo, e Desvanecidos. Havia aqueles que cortariam cada folha. O Tenebroso estava lá fora, e o Caminho da Folha arderia nos olhos de Ba’alzamon. Teimoso, ele continuou a carregar o machado. Passou a usar o manto jogado para trás, mesmo quando ventava muito, de modo que a lâmina em meia-lua nunca ficasse oculta. De vez em quando Elyas olhava intrigado para a arma pendurada pesadamente ao seu lado e sorria para ele, aqueles olhos amarelos parecendo ler sua mente. Isso quase o fazia esconder o machado. Quase.
Se o acampamento Tuatha’an era fonte de constante irritação, pelo menos seus sonhos eram normais ali. Às vezes ele acordava suando de um sonho com Trollocs e Desvanecidos invadindo o acampamento, os carroções nas cores do arco-íris se transformando em fogueiras sob tochas, pessoas caindo em poças de sangue, homens, mulheres e crianças que corriam, gritavam e morriam mas não faziam nenhum esforço para se defender de espadas em forma de foice. Noite após noite ele acordava sobressaltado na escuridão, ofegante e estendendo a mão para pegar o machado até perceber que os carroções não estavam em chamas, que nenhum focinho ensanguentado resfolegava sobre corpos dilacerados e retorcidos amontoados no chão. Mas aqueles eram pesadelos comuns, e estranhamente reconfortantes à sua maneira. Se havia um lugar para o Tenebroso aparecer, era nesses sonhos, mas ele não estava lá. Nada de Ba’alzamon. Apenas pesadelos comuns.
Mas Perrin estava ciente dos lobos quando estava acordado. Eles mantinham-se longe dos acampamentos e da caravana em movimento, mas ele sempre sabia onde estavam. Podia sentir o desprezo deles pelos cães que protegiam os Tuatha’an. Feras barulhentas que haviam esquecido para que serviam suas mandíbulas, haviam esquecido o gosto do sangue quente; podiam assustar humanos, mas sairiam se arrastando com medo se a matilha se aproximasse. A cada dia sua percepção ficava mais aguçada, mais clara.
Pintada ficava mais impaciente a cada pôr do sol. O fato de Elyas querer levar os humanos para o sul fazia isso valer a pena, mas, se devia ser feito, então que fosse feito. Que parassem com aquela viagem lenta. Os lobos haviam sido feitos para correr livres, e ela não gostava de ficar longe da matilha por tanto tempo. A impaciência também incomodava Vento. A caça ali era mais do que pobre, e ele desprezava viver de ratos do campo, coisa para filhotes espreitarem enquanto aprendiam a caçar, comida adequada para os velhos, que não eram mais capazes de derrubar um cervo ou um touro selvagem. Às vezes Vento achava que Queimado tinha razão; que se deixassem os problemas humanos para os humanos. Mas ele não dava vazão a esses pensamentos quando Pintada estava por perto, e muito menos ao lado de Saltador. Saltador era um lutador grisalho e cheio de cicatrizes, impassível com o conhecimento de anos, com a astúcia que mais do que compensava qualquer coisa que a idade pudesse ter lhe roubado. Ele não tinha a menor consideração pelos humanos, mas Pintada queria acabar logo com aquilo, e Saltador esperaria quando ela esperasse e correria quando ela corresse. Lobo ou homem, touro ou urso, o que quer que desafiasse Pintada encontraria as mandíbulas de Saltador à espera para despachá-lo para o longo sono. Essa era a vida para Saltador, e isso fazia Vento se manter cauteloso, e Pintada parecia ignorar os pensamentos de ambos.
Tudo isso estava claro na mente de Perrin. Ele desejou fervorosamente chegar a Caemlyn, ir ao encontro de Moiraine e Tar Valon. Mesmo que não houvesse respostas, aquilo tudo poderia acabar. Elyas olhava para ele, e ele tinha certeza de que o homem de olhos amarelos sabia. Por favor, que isso tudo acabe…
O sonho começou de modo mais agradável do que a maioria dos que ele vinha tendo ultimamente. Estava à mesa de Alsbet Luhhan, afiando seu machado com uma pedra. A Senhora Luhhan nunca permitia que o trabalho da forja, ou qualquer coisa que cheirasse a isso, fosse levado para dentro de casa. Mestre Luhhan tinha até de levar as facas dela para fora na hora de afiá-las. Mas, naquele momento, ela cozinhava e não disse uma palavra sequer sobre o machado. Nem quando um lobo veio do fundo da casa e se enroscou entre Perrin e a porta que dava para o quintal. Perrin continuou a amolar o machado; em breve seria hora de usá-lo.
Subitamente o lobo se levantou, um rosnado no fundo da garganta, os pelos grossos do pescoço se eriçando. Ba’alzamon entrou na cozinha pela porta do quintal. A Senhora Luhhan continuou cozinhando.
Perrin levantou-se, apressado, erguendo o machado, mas Ba’alzamon ignorou a arma, concentrando-se no lobo. Chamas dançavam no lugar onde seus olhos deveriam estar.
— É isso o que você tem para protegê-lo? Ora, eu já enfrentei isso antes. Muitas vezes.
Ele curvou um dedo, e o lobo soltou um uivo no instante em que chamas lhe saíram pelos olhos, ouvidos, boca, pele. O fedor de carne e pelo queimados tomou a cozinha. Alsbet Luhhan ergueu a tampa de uma panela e começou a mexer com uma colher de pau.
Perrin largou o machado e pulou para a frente, tentando apagar as chamas com as mãos. O lobo desfez-se em cinzas negras entre suas mãos. Olhando a pilha disforme de carvão no chão limpo da Senhora Luhhan, ele recuou. Queria poder limpar a fuligem gordurosa de suas mãos, mas a ideia de esfregá-las na roupa embrulhou seu estômago. Pegou o machado, agarrando o cabo até os nós dos dedos estalarem.
— Deixe-me em paz! — gritou ele.
A Senhora Luhhan bateu a colher na borda da panela e recolocou a tampa, cantarolando para si mesma.
— Você não pode fugir de mim — disse Ba’alzamon. — Não pode se esconder de mim. Se é o escolhido, você é meu.
O calor do fogo em seu rosto forçou Perrin a recuar cozinha adentro até bater com as costas na parede. A Senhora Luhhan abriu o forno para verificar o pão.
— O Olho do Mundo consumirá você — continuou Ba’alzamon. — Eu o marco como meu! — Ele estendeu a mão com o punho cerrado como se fosse atirar alguma coisa; quando seus dedos se abriram, um corvo atacou o rosto de Perrin.