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Ele expulsou os lobos de sua cabeça e piscou, surpreso. Não sabia que podia fazer isso. Agora estava determinado a não deixá-los voltar. Nem em sonhos? Não sabia ao certo se o pensamento era seu ou deles.

Egwene ainda usava o colar de contas azuis que Aram lhe dera, e um raminho de alguma coisa com folhas vermelhas brilhantes e minúsculas nos cabelos, outro presente do jovem Tuatha’an. De que Aram havia tentado convencê-la a ficar com o Povo Errante, Perrin tinha certeza. Estava feliz por ela não ter aceitado, mas queria que ela não ficasse mexendo nas contas com tanto carinho.

Finalmente ele disse:

— O que você passou tanto tempo conversando com Ila? Quando não estava dançando com aquele sujeito de pernas compridas, estava falando com ela como se tivesse algum tipo de segredo.

— Ila estava me dando conselhos sobre como ser uma mulher — respondeu Egwene, distraída.

Ele começou a rir, e ela lhe dirigiu um olhar mortiço e perigoso que ele não conseguiu ver.

— Conselhos! Ninguém nos diz como ser homens. Nós apenas somos.

— Esse — disse Egwene — provavelmente é o motivo pelo qual vocês se saem tão mal.

Lá na frente, Elyas deu uma sonora gargalhada.

28

Pegadas no Ar

Nynaeve fitou, assombrada, o que assomava à frente descendo o rio: a Ponte Branca reluzindo ao sol com um brilho leitoso. Outra lenda, ela pensou, olhando de esguelha para o Guardião e a Aes Sedai, que cavalgavam logo à sua frente. Outra lenda, e eles nem sequer parecem reparar. Ela resolveu não se mostrar estupefata. Eles vão rir se me virem boquiaberta como uma caipira. Os três continuaram cavalgando em silêncio na direção da lendária Ponte Branca.

Desde aquela manhã depois de Shadar Logoth, quando ela encontrara Moiraine e Lan na margem do Arinelle, não houvera muita conversa entre ela e a Aes Sedai. Haviam se falado, claro, mas nada substancial na opinião de Nynaeve. As tentativas de Moiraine de convencê-la a ir para Tar Valon, por exemplo. Tar Valon. Iria até lá, se preciso fosse, e faria o treinamento delas, mas não pelos motivos que a Aes Sedai pensava. Se Moiraine tivesse feito algum mal a Egwene e aos garotos…

Às vezes, contra sua vontade, Nynaeve se pegava pensando no que uma Sabedoria poderia fazer com o Poder Único, no que ela poderia fazer. Mas, sempre que percebia o que estava em sua cabeça, um lampejo de raiva queimava esse pensamento ruim. O Poder era uma coisa suja. Ela não queria nada com ele. A menos que fosse necessário.

A maldita mulher só queria falar de levá-la a Tar Valon para o treinamento. Moiraine não lhe dizia nada! E ela nem queria saber tanta coisa assim.

— Como pretende encontrá-los? — ela se lembrava de ter perguntado.

— Conforme lhe falei — Moiraine respondeu sem se importar em olhar para ela —, saberei quando estiver perto dos dois que perderam suas moedas. — Não era a primeira vez que Nynaeve perguntava, mas a voz da Aes Sedai era como um lago parado que se recusava a ondular, não importava quantas pedras Nynaeve atirasse; isso fazia o sangue da Sabedoria ferver. Moiraine seguiu adiante, como se não sentisse o olhar da Sabedoria em suas costas. Nynaeve sabia que ela devia ser capaz disso, de tão intenso que era seu olhar. — Quanto mais tempo levar, mais perto precisarei chegar, mas eu saberei. Quanto àquele que ainda conserva sua moeda, contanto que a tenha em sua posse, eu poderei segui-lo por meio mundo, se preciso for.

— E depois? O que planeja fazer depois que os encontrar, Aes Sedai? — Ela não acreditava nem por um instante que a Aes Sedai estaria tão interessada em encontrá-los se não tivesse planos.

— Tar Valon, Sabedoria.

— Tar Valon, Tar Valon. Isso é tudo o que sempre diz, e eu estou ficando…

— Parte do treinamento que você receberá em Tar Valon, Sabedoria, lhe ensinará a controlar seu temperamento. Não se pode fazer nada com o Poder Único quando a emoção governa sua mente. — Nynaeve abriu a boca, mas a Aes Sedai continuou: — Lan, preciso falar com você por um instante.

Os dois aproximaram as cabeças, e Nynaeve ficou sozinha com uma expressão de mau humor e irritação profundos que ela odiava todas as vezes que percebia no próprio rosto. Vinha com frequência quando a Aes Sedai desviava suas perguntas para outro assunto, defletidas com facilidade por suas armadilhas conversacionais, ou quando ignorava seus gritos até eles terminarem em silêncio. A cara feia fazia com que ela se sentisse uma garotinha que havia sido apanhada agindo como tola por alguém do Círculo das Mulheres. Era uma sensação com a qual Nynaeve não estava acostumada, e o sorriso calmo no rosto de Moiraine só tornava tudo pior.

Se pelo menos houvesse um jeito de se livrar da mulher. Lan estaria melhor sozinho — um Guardião deveria ser capaz de cuidar do que fosse necessário, ela disse a si mesma apressadamente, sentindo um rubor súbito; não havia nenhuma outra razão — mas a presença de um implicava a do outro.

E, no entanto, Lan a deixava ainda mais furiosa do que Moiraine. Ela não compreendia como ele conseguia afetá-la com tanta facilidade. Ele raramente falava. Às vezes não chegava a dizer uma dezena de palavras num dia inteiro, e jamais tomava parte em nenhuma das… discussões com Moiraine. Frequentemente ficava afastado das duas mulheres, investigando o terreno, mas mesmo quando estava ali ficava um pouco de lado, observando-as como se observa um duelo. Nynaeve queria que ele parasse. Se aquilo era um duelo, ela não havia conseguido marcar nem um só ponto, e Moiraine não parecia sequer perceber que estava em uma luta. Nynaeve poderia ter passado sem seus olhos azuis frios, sem uma plateia, ainda que silenciosa.

Assim havia sido a jornada deles durante a maior parte do tempo. Silenciosa, exceto quando seu temperamento levava a melhor sobre ela — e às vezes quando ela gritava, o som de sua voz parecia chocar-se contra o silêncio como vidro se quebrando. A terra em si estava silenciosa, como se o mundo fizesse uma pausa para respirar. O vento gemia nas árvores, mas todo o resto estava parado. O vento parecia distante também, mesmo quando atravessava o manto em suas costas.

No começo a quietude era um alívio, depois de tudo o que havia acontecido. Parecia que não tivera um minuto de silêncio desde antes da Noite Invernal. Ao fim do primeiro dia sozinha com a Aes Sedai e o Guardião, entretanto, olhava para trás, inquieta na sela, como se tivesse uma coceira no meio das costas, onde não podia alcançar. O silêncio parecia um cristal condenado a se estilhaçar, e a espera da primeira rachadura deixava seus nervos à flor da pele.

Ele também pesava sobre Moiraine e Lan, por mais que parecessem imperturbáveis. Nynaeve logo percebeu que, por baixo da tranquila aparência, a cada hora que passava eles iam ficando mais tensos, como molas de um relógio retesadas prestes a se romperem. Moiraine parecia ouvir coisas que não estavam lá, e o que ela ouvia a fazia franzir a testa. Lan observava a floresta e o rio como se as árvores sem folhas e a água ampla e preguiçosa revelassem os sinais de armadilhas e emboscadas esperando adiante.

Parte dela estava feliz por ela não ser a única a notar aquela sensação de calmaria antes da tempestade, mas, se os afetava, era real, e outra parte dela só queria que aquilo não passasse de sua imaginação. Uma parte daquilo reverberava nos cantos de sua mente, como quando ela escutava o vento, mas agora ela sabia que aquilo tinha a ver com o Poder Único, e não conseguia se forçar a aceitar aquelas ondulações no limiar do pensamento.

— Não é nada — disse Lan baixinho quando ela perguntou. Ele não olhou para ela ao falar; seus olhos não paravam de analisar tudo ao redor. Então, contradizendo o que acabara de dizer, ele acrescentou: — Você devia voltar aos seus Dois Rios quando chegarmos a Ponte Branca e à Estrada de Caemlyn. É perigoso demais aqui. Mas nada tentará impedir você de voltar. — Foi o discurso mais longo que ele fez o dia todo.