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— Ela faz parte do Padrão, Lan — disse Moiraine, com ar reprovador. Seu olhar também estava em outro lugar. — É o Tenebroso, Nynaeve. A tempestade nos deixou… por um tempo, pelo menos. — Ela ergueu uma das mãos como se sentisse o ar, e então a esfregou no vestido inconscientemente, como se tivesse tocado algo sujo. — Contudo, ele ainda está observando… — ela suspirou — …e seu olhar está mais forte. Não sobre nós, mas sobre o mundo. Quanto ainda falta até ele se fortalecer o suficiente para…

Nynaeve se curvou; subitamente ela quase podia sentir alguém olhando para as suas costas. Era uma explicação que preferia que a Aes Sedai não lhe tivesse dado.

Lan investigava a trilha que seguiam rio abaixo, mas, onde antes ele havia escolhido o caminho, agora era Moiraine quem o fazia, segura como se seguisse alguma trilha invisível, pegadas no ar, o cheiro da memória. Lan se limitava a verificar a rota que ela pretendia tomar, para ver se era segura. Nynaeve tinha a sensação de que, mesmo que ele dissesse que não era, Moiraine insistiria de qualquer maneira. E ele iria, tinha certeza. Descendo direto o rio até…

Com um susto, Nynaeve deixou seus pensamentos de lado. Eles estavam aos pés da Ponte Branca. O arco pálido brilhava na luz do sol, uma teia de aranha leitosa delicada demais para se sustentar, que cruzava o Arinelle. O peso de um homem a derrubaria, quanto mais o de um cavalo. Certamente ela desabaria sob o próprio peso a qualquer momento.

Lan e Moiraine avançaram com seus cavalos sem se preocuparem, subindo a rampa branca brilhante que dava direto na ponte, cascos tinindo, não como aço sobre vidro, mas como aço sobre aço. A superfície da ponte certamente parecia escorregadia como vidro, vidro molhado, mas dava aos cavalos um apoio firme e seguro.

Nynaeve se obrigou a segui-los, mas desde o primeiro passo ela quase esperava que a estrutura inteira se estilhaçasse embaixo deles. Se renda fosse feita de vidro, ela pensou, teria esse aspecto.

Só depois que já haviam atravessado quase tudo ela reparou no cheiro forte de carvão engrossando o ar. No instante seguinte ela viu.

Ao redor da praça aos pés da Ponte Branca, pilhas de toras enegrecidas, ainda soltando fios de fumaça, ocupavam o lugar de meia dúzia de edifícios. Homens vestindo uniformes vermelhos que mal lhes serviam e armaduras sujas patrulhavam as ruas, mas marchavam rápido, como se tivessem medo de encontrar alguma coisa, e olhavam para trás enquanto avançavam. Os habitantes da cidade, os poucos que estavam na rua, quase corriam, os ombros curvados como se alguma coisa os estivesse caçando.

Lan parecia taciturno, até mesmo para seu normal, e todos davam passagem para os três, inclusive os soldados. O Guardião farejou o ar e fez uma careta, grunhindo baixinho. Nynaeve não se espantou, com o fedor do incêndio tão forte.

— Há de ser o que a Roda tecer — murmurou Moiraine. — Nenhum olho pode ver o Padrão até que ele seja tecido.

No instante seguinte ela desmontou Aldieb e já estava falando com as pessoas da cidade. Não fez perguntas; distribuiu simpatia e, para surpresa de Nynaeve, pareceu genuína. Pessoas que se esquivavam de Lan, prontas para fugir de qualquer estranho, paravam para falar com Moiraine. Elas próprias pareciam assustadas com o que estavam fazendo, mas se abriam, de certa forma, ante o olhar límpido e a voz calmante de Moiraine. Os olhos da Aes Sedai pareciam compartilhar a dor das pessoas, solidarizar-se com a confusão que elas sentiam, e as línguas logo se soltavam.

Mas as pessoas ali ainda mentiam. A maioria delas. Algumas negavam que houvesse acontecido algum problema. Nada se passara. Moiraine mencionou os prédios queimados ao redor da praça. Tudo estava bem, insistiam eles, olhando além do que não queriam ver.

Um sujeito gordo falou com jeito bonachão e aparentemente despreocupado, mas sua bochecha se contraía a cada ruído atrás dele. Com um sorriso que a todo momento desaparecia do rosto, ele afirmou que um lampião caído havia provocado um incêndio que se espalhou com o vento antes que alguém pudesse fazer alguma coisa. Um olhar de relance mostrou a Nynaeve que nenhuma estrutura queimada estava do lado da outra.

Havia quase tantas histórias diferentes quanto pessoas. Várias mulheres abaixaram o tom de voz de um jeito conspiratório. A verdade era que havia um homem em algum lugar da cidade mexendo com o Poder Único. Estava na hora de as Aes Sedai chegarem; na opinião delas, já havia passado da hora, não importava o que os homens dissessem a respeito de Tar Valon. Que a Ajah Vermelha resolvesse as coisas.

Um sujeito afirmou que havia sido um ataque de bandidos, e outro que fora um tumulto provocado pelos Amigos das Trevas.

— Aqueles que estão indo ver o falso Dragão, a senhora sabe — confidenciou ele, um tom sinistro na voz. — Estão por toda parte. Amigos das Trevas, todos eles.

E outros ainda falavam de algum problema, sem serem específicos quanto ao tipo, que havia descido pelo rio num barco.

— Nós mostramos a eles — resmungou um homem de rosto estreito, esfregando as mãos, nervoso. — Deixe que eles fiquem com esse tipo de coisa nas Terras da Fronteira, que é o lugar dela. A gente foi até as docas e… — Ele parou tão bruscamente que seus dentes bateram. Sem dizer mais uma palavra, saiu correndo, olhando para trás, de esguelha, como se achasse que eles fossem persegui-lo.

O barco havia escapado — e isso acabou ficando claro por outras pessoas — cortando suas amarras e fugindo rio abaixo, ainda na véspera, enquanto uma multidão enfurecida invadia as docas. Nynaeve se perguntou se Egwene e os rapazes estariam a bordo. Uma mulher afirmou que havia um menestrel a bordo. Se esse menestrel era Thom Merrilin…

Ela tentou dar sua opinião a Moiraine, de que alguém de Campo de Emond poderia ter fugido no barco. A Aes Sedai ouviu, paciente, assentindo, até ela acabar.

— Talvez — disse então, mas parecia ter dúvidas.

Uma estalagem ainda estava de pé na praça, o salão dividido em dois por uma parede que ia até a altura dos ombros. Moiraine fez uma pausa quando entrou na estalagem, sentindo o ar com a mão. Ela sorriu para o que quer que estivesse sentindo, mas não falou nada.

A refeição foi feita em silêncio, um silêncio que pairava não só na mesa deles, mas em todo o salão. O punhado de pessoas que estava comendo ali se concentrava em seus próprios pratos e pensamentos. O estalajadeiro, limpando mesas com uma ponta de seu avental, resmungava para si mesmo sem parar, mas sempre baixo demais para que fosse ouvido. Nynaeve achou que não seria agradável dormir ali; até mesmo o ar estava pesado de medo.

No momento em que afastavam seus pratos, limpos com os últimos pedaços de pão, um dos soldados de uniforme vermelho surgiu à porta. Para Nynaeve, ele pareceu resplandecente, com seu capacete pontudo e placa peitoral reluzente, até parar fazendo pose, a mão repousando no cabo da espada e uma expressão austera no rosto, e afrouxar com o dedo o colarinho apertado demais. Isso a fez pensar em Cenn Buie tentando agir como um Conselheiro de Aldeia.

Lan se dignou a lhe dirigir um olhar de relance e bufou.

— Milícia. Inútil.

O soldado olhou para a sala, deixando os olhos pousarem sobre eles. Hesitou, depois respirou fundo antes de andar a passo firme para exigir saber, apressadamente, quem eram, o que estavam fazendo em Ponte Branca e quanto tempo pretendiam ficar.

— Vamos partir assim que eu terminar minha cerveja — disse Lan. Ele tomou mais um gole lento antes de levantar a cabeça e olhar para o soldado. — Que a Luz ilumine a Rainha Morgase.

O homem de uniforme vermelho abriu a boca, depois deu uma boa olhada nos olhos de Lan e recuou um passo. Ele se recompôs imediatamente, olhando de relance para Moiraine e para ela, que por um momento pensou que ele ia fazer alguma coisa imbecil para não parecer covarde na frente de duas mulheres. Em sua experiência, os homens frequentemente eram idiotas assim. Mas muita coisa havia acontecido em Ponte Branca; incertezas demais tinham escapado dos porões das mentes dos homens. O miliciano olhou para Lan e voltou a reconsiderar. O rosto cinzelado do Guardião não tinha expressão, mas havia aqueles olhos azuis frios. Muito frios.