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O miliciano acabou por dar apenas um breve aceno de cabeça.

— Faça isso mesmo. Há estranhos demais por aqui para o bem da paz da Rainha. — Girando nos calcanhares, ele saiu pisando forte novamente, praticando seu olhar duro mais uma vez. Nenhum dos locais na estalagem pareceu reparar.

— Para onde vamos? — Nynaeve perguntou ao Guardião. O clima na sala estava tão pesado que ela manteve a voz baixa, cuidando, porém, de mostrar-se firme. — Atrás do barco?

Lan olhou para Moiraine, que balançou a cabeça ligeiramente e disse:

— Primeiro preciso encontrar aquele que posso ter certeza de encontrar, e no momento ele está em algum lugar ao norte de nós. Não acho que os outros dois tenham ido com o barco, de qualquer maneira. — Um sorriso breve e satisfeito tocou seus lábios. — Eles estiveram nesta sala, talvez um dia atrás, não mais que dois. Com medo, mas partiram vivos. O vestígio não teria durado sem essa emoção forte.

— Quais dois? — Nynaeve inclinou-se atenta sobre a mesa. — Você sabe? — A Aes Sedai balançou a cabeça, um mínimo movimento, e Nynaeve voltou a se recostar. — Se eles só estão um ou dois dias à frente, por que não vamos atrás deles primeiro?

— Eu sei que eles estiveram aqui — respondeu Moiraine, com aquela voz insuportavelmente calma —, mas, além disso, não sei dizer se eles foram para leste, norte ou sul. Acredito que sejam inteligentes o suficiente para terem ido para leste, na direção de Caemlyn, mas não tenho certeza, e, como eles não têm mais seus objetos, não saberei onde estão até estar talvez a meia milha deles. Em dois dias podem ter percorrido vinte milhas, ou quarenta, em qualquer direção, se o medo os motivou, e eles certamente estavam com medo quando saíram daqui.

— Mas…

— Sabedoria, por mais medo que eles tivessem, em qualquer direção que tenham fugido, irão acabar por se lembrar de Caemlyn, e é lá que os encontrarei. Mas vou ajudar primeiro aquele que posso encontrar agora.

Nynaeve tornou a abrir a boca, mas Lan a interrompeu com a voz suave.

— Eles tinham motivo para ter medo. — Olhou ao redor, depois abaixou a voz. — Um Meio-homem passou aqui. — Ele fez uma careta, do jeito que havia feito na praça. — Ainda consigo sentir o cheiro dele por toda parte.

Moiraine suspirou.

— Manterei a esperança até saber que ela se foi. Recuso-me a crer que o Tenebroso consiga vencer tão facilmente. Vou encontrar todos os três vivos e bem. Preciso acreditar nisso.

— Eu também quero encontrar os rapazes — disse Nynaeve —, mas e quanto a Egwene? Você jamais a menciona, e me ignora quando pergunto. Achei que você fosse levá-la até… — olhou para as outras mesas e abaixou a voz — …até Tar Valon.

A Aes Sedai estudou o tampo da mesa por um momento antes de levantar os olhos para encontrar os de Nynaeve, e, quando o fez, a Sabedoria recuou ao ver um lampejo de raiva que quase pareceu fazer os olhos de Moiraine cintilarem. Então ela endireitou as costas, sua própria raiva crescendo, mas, antes que pudesse dizer uma só palavra, a Aes Sedai falou friamente:

— Também espero encontrar Egwene viva e bem. Não desisto facilmente de jovens com tamanha habilidade depois que as encontro. Mas há de ser como a Roda tecer.

Nynaeve sentiu uma bola fria na boca do estômago. Será que eu sou uma dessas jovens das quais você não vai desistir? Vamos ver, Aes Sedai. A Luz que a queime, isso nós vamos ver!

A refeição terminou em silêncio, e foram três pessoas silenciosas que atravessaram os portões a cavalo e seguiram a Estrada para Caemlyn. Os olhos de Moiraine vasculhavam o horizonte a nordeste. Atrás deles, a cidade de Ponte Branca, suja de fuligem e fumaça, encolhia-se de medo.

29

Olhos Impiedosos

Elyas tratou de correr pela planície de grama marrom como se tentasse compensar o tempo passado com o Povo Errante, marcando um ritmo rumo ao sul que fez até mesmo Bela parecer contente em parar quando o crepúsculo se adensou. Apesar do quanto queria avançar, entretanto, ele tomava precauções que não havia tomado antes. À noite, só faziam fogueira se já houvesse madeira morta no chão. Não os deixava quebrar um graveto sequer de árvores vivas. As fogueiras que fazia eram pequenas, e sempre ocultas dentro de um buraco cuidadosamente escavado onde ele havia recortado um tampão de lama. Assim que a refeição era preparada, ele enterrava as brasas e recolocava o tampão. Antes de voltarem a partir no cinza que antecedia a aurora, ele percorria o local do acampamento polegada por polegada para ter certeza de que não havia sinal de que qualquer pessoa tinha estado lá. Chegava até mesmo a ajeitar pedras viradas e endireitar plantas amassadas. Fazia essas coisas rapidamente, nunca levando mais do que alguns minutos, mas não partiam até que ele se desse por satisfeito.

Perrin não achava que essas precauções adiantassem muito contra sonhos, mas, quando começava a pensar nas coisas contra as quais elas podiam valer, desejou que fossem apenas os sonhos. Na primeira vez, Egwene perguntou ansiosa se os Trollocs estavam de volta, mas Elyas simplesmente balançou a cabeça em negativa e os mandou seguir em frente. Perrin não disse nada. Ele sabia que não havia nenhum Trolloc por perto; os lobos só sentiam o cheiro da grama, das árvores e de bichos pequenos. Não era medo de Trollocs o que motivava Elyas, mas aquela outra coisa que nem mesmo ele sabia ao certo o que era. Os lobos não sabiam do que se tratava, mas sentiam a desconfiança urgente de Elyas e começavam a investigar como se o perigo estivesse em seus calcanhares ou aguardasse em emboscada depois da elevação seguinte.

A terra se tornou uma extensão de cristas longas e onduladas, baixas demais para serem chamadas de colinas, elevando-se de través em seu caminho. Um tapete de grama dura, ainda ressecada pelo inverno e salpicada de ervas daninhas, espalhava-se diante deles, ondulado por um vento leste que não tinha nada para impedi-lo por cerca de cem milhas. Os bosques de árvores iam ficando cada vez mais esparsos. O sol se erguia relutante, sem calor.

Em meio às cristas baixas, Elyas acompanhava os contornos da terra tanto quanto conseguia, e evitava passar pelo alto das encostas sempre que possível. Quase nunca falava, e quando o fazia…

— Vocês sabem quanto tempo isso vai levar, dar a volta em todo maldito morro assim? Sangue e cinzas! Só vou conseguir me livrar de vocês lá pelo verão. Não, não podemos simplesmente seguir em linha reta! Quantas vezes tenho de dizer? Vocês têm alguma ideia, até mesmo a mais remota, de como um homem se destaca num horizonte em um terreno desses? Que me queimem, mas estamos indo e vindo tanto quanto avançando. Serpenteando feito uma cobra. Eu podia andar mais rápido com os pés atados. Bem, vocês vão ficar me olhando ou vão andar?

Perrin e Egwene se entreolhavam. Ela punha a língua para fora pelas costas de Elyas. Nenhum dos dois dizia nada. A única vez em que Egwene protestara, dizendo que Elyas era quem queria dar a volta às colinas e não devia colocar a culpa neles, recebera uma lição sobre como o som se propagava, feita num rosnado que podia ter sido ouvido a uma milha de distância. Ele deu a lição olhando sobre os ombros, e sequer reduziu a velocidade enquanto falava.

Estivesse ele falando ou não, os olhos de Elyas vasculhavam tudo ao redor, às vezes fixamente, como se houvesse algo para se ver além da mesma grama seca sob seus pés. Se ele via alguma coisa, Perrin não conseguia, nem tampouco os lobos. A testa de Elyas franzia-se mais que o normal, mas ele não explicava, nem por que tinham de se apressar, nem o que temia que os estivesse caçando.