Perrin engoliu em seco. Luz! Eles podiam fazer isso conosco. Uma centena de corvos. Eles podiam…
— Mexam-se — rosnou Elyas, levantando-se de um salto. Ele acenou para que Egwene viesse e, sem esperar, começou a trotar na direção das árvores. — Mexam-se. Que os queimem! — gritou, olhando para trás. — Mexam-se!
Galopando Bela, Egwene transpôs a elevação e os alcançou antes que chegassem à base da encosta. Não havia tempo para explicações, mas seus olhos viram a raposa no mesmo instante. Seu rosto ficou branco como a neve.
Elyas alcançou as árvores e virou ali, na margem do bosque, acenando vigorosamente para que eles se apressassem. Perrin tentou correr mais rápido e tropeçou. Girando os braços, ele quase não conseguiu evitar cair de cara no chão. Sangue e cinzas! Estou correndo o mais rápido que posso!
Um corvo solitário saiu voando do arvoredo. Ele se inclinou na direção deles, gritou e girou na direção sul. Sabendo que já era tarde demais, Perrin tentou pegar a funda em sua cintura. Ainda estava tentando pegar uma pedra no bolso para colocar na funda quando o corvo subitamente se dobrou no ar e despencou no chão. Seu queixo caiu, e então ele viu a funda pendendo da mão de Egwene. Ela sorriu, vacilante, para ele.
— Não fiquem aí parados contando carneirinhos! — gritou Elyas.
Com um susto, Perrin correu para o meio das árvores, depois pulou para fora do caminho para não ser atropelado por Egwene e Bela.
A distância, quase sumindo de vista a oeste, o que parecia uma névoa escura elevou-se no ar. Perrin sentiu os lobos passando naquela direção, indo para o norte. Ele os sentiu notarem os corvos, à esquerda e à direita, sem reduzir o passo. A névoa negra turbilhonava ao norte como se perseguindo os lobos, então abruptamente se desfez e relampejou ao sul.
— Você acha que eles nos viram? — perguntou Egwene. — Nós já estávamos nas árvores, não estávamos? Eles não podiam nos ver a essa distância. Podiam? Não tão longe.
— Nós os vimos a essa distância — disse Elyas secamente. Perrin se mexeu, desconfortável, e Egwene respirou, assustada. — Se tivessem nos visto — rosnou —, teriam caído em nós como fizeram com aquela raposa. Pense, se quiser continuar viva. O medo a matará se não o controlar. — Seu olhar penetrante se deteve por um instante em cada um dos dois. Por fim ele assentiu. — Agora eles já se foram, e nós deveríamos ir também. Mantenham essas fundas à mão. Podem ser úteis novamente.
Ao saírem do arvoredo, Elyas os conduziu para oeste a partir da linha de marcha que vinham seguindo. A respiração de Perrin ficou presa na garganta; era como se eles estivessem perseguindo os últimos corvos que haviam visto. Elyas prosseguiu, incansável, e não havia nada que pudessem fazer a não ser segui-lo. Afinal, Elyas conhecia um lugar seguro. Algum lugar. Assim dissera.
Correram até a colina seguinte, esperaram os corvos se moverem, depois voltaram a correr, esperaram, correram. O progresso constante que haviam mantido era cansativo o bastante, mas todos exceto Elyas rapidamente começaram a ceder sob esse ritmo intermitente. Perrin arfava, e buscava o máximo de ar quando tinha alguns minutos para se deitar no topo de uma colina, deixando a investigação a Elyas. Bela ficava parada de cabeça baixa, narinas resfolegantes, a cada parada. O medo os fustigava, e Perrin não sabia se estava sob controle ou não. Só queria que os lobos lhes dissessem o que havia atrás deles, se é que havia algo, fosse o que fosse.
Adiante havia mais corvos do que Perrin jamais esperara ver novamente. À esquerda e à direita os pássaros pretos se acumulavam, e também ao sul. Uma dezena de vezes eles alcançaram o esconderijo de um bosque ou o parco abrigo de uma encosta apenas momentos antes de os corvos alçarem voo. Uma vez, com o sol começando a deslizar de seu auge do meio-dia, eles estavam a céu aberto, paralisados como estátuas, a meia milha do abrigo mais próximo, quando uma centena ou mais dos espiões de penas do Tenebroso passaram como um relâmpago uma mera milha a leste. O suor escorria pelo rosto de Perrin apesar do vento, até que a última forma negra se tornou um pontinho e desapareceu. Ele perdeu a conta dos retardatários que derrubaram com suas fundas.
Ele vira provas mais que suficientes caídas no caminho dos corvos para justificar seu medo. Havia encarado com fascinação nervosa um coelho dilacerado. A cabeça sem olhos jazia para cima, com os demais pedaços, pernas, entranhas, espalhados num círculo ao redor dela. Pássaros também, bicados até virarem massas disformes de penas. E mais duas raposas.
Lembrou-se de alguma coisa que Lan dissera. Todas as criaturas do Tenebroso se deleitam em matar. O poder do Tenebroso é a morte. E se os corvos os encontrassem? Olhos impiedosos brilhando como continhas pretas. Bicos afiados girando ao redor deles. Bicos pontiagudos como agulhas tirando sangue. Uma centena deles. Ou será que eles podem chamar mais de sua espécie? Talvez todos eles na caçada? Uma imagem nauseante surgiu em sua mente. Uma pilha de corvos do tamanho de uma colina, fervilhante como vermes, lutando por alguns poucos pedaços ensanguentados de carne.
Subitamente essa imagem foi varrida e substituída por outras, cada uma se revelando límpida por um instante, em seguida girando e se transformando na seguinte. Os lobos haviam encontrando corvos ao norte. Pássaros gritando mergulhavam, rodopiavam e tornavam a mergulhar, bicos arrancando sangue a cada volta. Lobos resfolegantes pulavam e se desviavam, contorcendo-se no ar, abrindo e fechando as mandíbulas. Vezes sem conta Perrin sentiu o gosto de penas e o gosto repulsivo de corvos esmagados vivos, sentiu a dor de cortes sangrando por todo o seu corpo, soube com um desespero que jamais se aproximava de desistir que todo o seu esforço não era o bastante. Subitamente os corvos se afastaram, voando em turbilhão para um último ataque de ódio sobre os lobos. Lobos não morrem tão facilmente quanto raposas, e eles tinham uma missão. Asas negras batendo e eles se foram, algumas poucas penas negras caindo sobre seus mortos. O vento lambia um furo feito em sua perna esquerda. Havia algo de errado com um dos olhos de Saltador. Ignorando as próprias dores, Pintada os reuniu, e eles começaram a seguir num passo dolorido na direção que os corvos haviam seguido. O pelo deles estava coberto de sangue. Estamos indo. O perigo vai à nossa frente.
Movendo-se num trote cambaleante, Perrin trocou olhares com Elyas. Os olhos amarelos do homem não tinham expressão, mas ele sabia. Não disse nada. Ficou apenas olhando para Perrin e esperou, o tempo todo mantendo aquele passo sem esforço.
Esperando por mim. Esperando que eu admita que sinto os lobos.
— Corvos. — Perrin ofegou, relutante. — Atrás de nós.
— Ele tinha razão — disse Egwene baixinho. — Você consegue falar com eles.
Os pés de Perrin pareciam blocos de ferro nas pontas de varas de madeira, mas ele tentava fazê-los andar mais rápido. Ah, se pudesse correr mais rápido que os olhos deles, mais rápido que os lobos, mas, acima de tudo, mais rápido que os olhos de Egwene, que agora o conheciam por aquilo que ele de fato era. O que é você? Maculado, a Luz me cegue! Amaldiçoado!