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Egwene pôs a mão no braço de Perrin; seus olhos estavam imensos na escuridão. Sua pergunta silenciosa óbvia apesar da sombra que escondia seus traços. O que fazer? Elyas e os lobos ainda caçavam noite adentro. Os cavalos abaixo mexiam as patas, nervosos. Se corrermos agora, eles vão nos pegar.

Um dos Mantos-brancos avançou com seu cavalo e gritou para o alto da colina.

— Se conseguem entender a fala humana, desçam e se rendam. Vocês não serão machucados se caminharem na Luz. Se não se renderem, serão todos mortos. Vocês têm um minuto. — As lanças abaixaram, pontas compridas de aço reluzindo com a luz das tochas.

— Perrin — sussurrou Egwene —, não temos como fugir deles. Se não desistirmos, eles nos matarão. Perrin?

Elyas e os lobos ainda estavam livres. Outro grito distante e gorgolejante marcou um Manto-branco que havia caçado Pintada muito de perto. Se corrermos… Egwene estava olhando para ele, esperando que ele lhe dissesse o que fazer. Se corrermos… Ele balançou a cabeça cansado e se levantou, como se em transe, descendo cambaleante a colina na direção dos Filhos da Luz. Ele ouviu Egwene suspirar e ir atrás dele, arrastando os pés com relutância. Por que os Mantos-brancos são tão persistentes, como se odiassem os lobos? O que há de errado no cheiro deles? Quase pensou que conseguia identificar essa sensação de “errado”, quando o vento veio dos cavaleiros.

— Largue esse machado — gritou o líder.

Perrin cambaleou em sua direção, torcendo o nariz para se livrar do cheiro que achava que sentia.

— Largue, caipira! — A lança do líder se deslocou na direção do peito de Perrin.

Por um momento ele ficou encarando a ponta de aço afiado da lança, longa o suficiente para atravessá-lo por completo, e gritou subitamente:

— Não! — Mas não foi para o cavaleiro que ele gritou.

Das profundezas da noite surgiu Saltador, e Perrin se tornou um com o lobo. Saltador, o filhote que vira as águias voarem, e quisera tanto alçar voo pelo céu como elas. O filhote que saltou e pulou até conseguir saltar mais alto que qualquer outro lobo, e que jamais perdera o desejo de filhote de sair voando pelo céu. Da noite veio Saltador, e saltou, alçando voo como as águias. Os Mantos-brancos só tiverem um momento para começar a praguejar antes que as mandíbulas de Saltador se fechassem na garganta do homem com a lança apontada para Perrin. O impulso do lobo enorme os lançou ambos para o chão pelo outro lado do cavalo. Perrin sentiu os ossos da garganta do homem sendo esmagados, sentiu o gosto do sangue.

Saltador pousou de leve no chão, já distante do homem que havia matado. Seu pelo estava manchado de sangue, o próprio e o de outros. Um corte que lhe descia pela face atravessava o buraco onde o olho esquerdo havia estado. Seu olho bom cruzou com os dois de Perrin por um breve instante. Corra, irmão! Ele girou para dar outro salto, para alçar voo uma última vez, e uma lança o pregou ao chão. Uma segunda vara de aço trespassou suas costelas, cravando-se no chão embaixo dele. Esperneando, ele tentou morder as lanças que o perfuravam. Alçar voo.

A dor preencheu o espírito de Perrin, e ele gritou, um grito sem palavras, que tinha um quê de uivo. Sem pensar, ele lançou-se à frente, ainda gritando. Todo e qualquer pensamento havia desaparecido. Os cavaleiros haviam se agrupado demais para serem capazes de usar as lanças, e o machado era uma pluma em suas mãos, uma imensa presa de lobo feita de aço. Algo lhe acertou a cabeça, e, enquanto ele caía, não sabia dizer se era Saltador ou ele quem morrera.

— …alçar voo como as águias.

Murmurando, Perrin abriu os olhos, zonzo. Sua cabeça doía, e ele não conseguia lembrar por quê. Piscando por causa da luz, ele olhou ao redor. Egwene estava ajoelhada, observando-o. Estavam em uma tenda quadrada do tamanho de um quarto médio numa casa de fazenda, com uma lona à guisa de chão. Lampiões a óleo em suportes altos, um em cada canto, emitiam uma luz brilhante.

— Graças à Luz, Perrin — disse ela baixinho. — Tive medo de que eles tivessem matado você.

Em vez de responder, ele ficou olhando fixamente para o homem de cabelos grisalhos sentado na única cadeira que havia na tenda. Um rosto velho de avô, de olhos escuros, olhava para ele, um rosto que em sua mente não se encaixava com o tabardo branco e dourado que o homem vestia, nem com a armadura reluzente por cima da roupa do mais puro branco. Parecia um rosto gentil, honesto e digno, e alguma coisa nele se adequava à elegante austeridade dos objetos da tenda. Uma mesa e uma cama dobrável, um lavabo com uma bacia branca simples e jarro, um baú de madeira incrustado em padrões geométricos simples. Onde havia madeira, ela estava polida até brilhar, e o metal reluzia, mas não tanto, e nada era espalhafatoso. Tudo na tenda tinha o ar artesanal, mas só alguém que havia visto o trabalho de artesãos, como Mestre Luhhan, ou Mestre Aydaer, o marceneiro, notaria.

Franzindo a testa, o homem mexeu duas pequenas pilhas de objetos sobre a mesa com um dedo grosso. Perrin reconheceu o conteúdo de seus bolsos em uma daquelas pilhas, e sua faca de cintura. A moeda de prata que Moiraine lhe dera rolou da pilha, e o homem a empurrou de volta, intrigado. Franzindo os lábios, ele deixou as pilhas e ergueu o machado de Perrin que também estava em cima da mesa, sopesando-o. Sua atenção se voltou para os dois prisioneiros.

Perrin tentou se levantar. Uma dor lancinante ao longo dos seus braços e pernas frustrou seu movimento. Pela primeira vez ele percebeu que estava amarrado, mãos e pés. Seu olhar seguiu para Egwene. Ela deu de ombros, desanimada, e se contorceu de modo que ele pôde ver as costas dela. Meia dúzia de laçadas amarravam seus pulsos e tornozelos; as cordas faziam marcas profundas em sua pele. Um outro pedaço de corda corria entre as amarrações ao redor de tornozelos e pulsos, curta o bastante para impedir que ela esticasse o corpo; caso tentasse se levantar, não conseguiria mais do que ficar agachada.

Perrin olhou aquelas cordas. O fato de estarem amarrados já era chocante o bastante, mas ali havia cordas suficientes para segurar cavalos. O que eles acham que nós somos?

O homem grisalho os observava, curioso e pensativo, como Mestre al’Vere tentando resolver um problema. Ele segurava o machado como se tivesse esquecido dele.

A aba da tenda se abriu, e um homem alto entrou. Seu rosto era comprido e magro, com olhos tão fundos que pareciam espiar de dentro de cavernas. Não havia carne sobrando nele, nem um pouco de gordura; sua pele se repuxava com força sobre os músculos e ossos.

Perrin teve um vislumbre da noite lá fora, e de fogueiras, e de dois guardas de manto branco na entrada da tenda, depois a aba voltou ao lugar. Assim que o recém-chegado entrou, parou, rígido como uma barra de ferro, olhando direto à frente, para a outra parede da tenda. Sua armadura de placas e malha reluzia como prata contra o manto e o casaco cor de neve.

— Meu Senhor Capitão. — Sua voz era tão rígida quanto a postura, e áspera, mas de algum modo apática, sem expressão.

O homem de cabelos grisalhos fez um gesto casual.

— Descanse, Filho Byar. Você contabilizou quanto nos custou este… encontro?

O homem alto separou os pés, mas, afora isso, Perrin não viu nada de descanso em sua postura.

— Nove homens mortos, meu Senhor Capitão, e vinte e três feridos, sete com gravidade. Mas todos podem cavalgar. Trinta cavalos tiveram de ser sacrificados. Os tendões deles foram dilacerados! — Ele enfatizou isso em sua voz sem emoção, como se o que tivesse acontecido aos cavalos fosse pior do que as mortes e ferimentos dos homens. — Muitas das montarias de reserva foram dispersas. Pode ser que encontremos algumas quando o sol raiar, meu Senhor Capitão, mas, com lobos a afugentá-las, levaremos dias até recolher todas. Os homens que deveriam vigiá-las foram designados para a guarda noturna até chegarmos a Caemlyn.