— Os lobos não são… — Perrin parou ao ver a bota de Byar recuar. Respirando fundo, ele continuou num tom de voz mais suave: — Os lobos não são criaturas do Tenebroso. Eles odeiam o Tenebroso. Pelo menos, odeiam Trollocs e Desvanecidos. — Ficou surpreso ao ver o homem de rosto magro assentir como se para si mesmo.
Bornhald ergueu uma sobrancelha.
— Quem lhe contou isso?
— Um Guardião — disse Egwene. Ela se encolheu ante o olhar calcinante de Byar. — Ele disse que lobos odeiam Trollocs, e Trollocs têm medo de lobos. — Perrin ficou feliz por ela não ter mencionado Elyas.
— Um Guardião. — O homem grisalho suspirou. — Uma criatura das bruxas de Tar Valon. O que mais aquela espécie contaria a você, quando ele próprio é um Amigo das Trevas, e um servo de Amigas das Trevas? Você não sabe que Trollocs têm focinhos e dentes de lobos, e pelo de lobo?
Perrin piscou, tentando clarear a mente. Ainda sentia o cérebro tremer como gelatina de tanta dor, mas havia alguma coisa errada ali. Ele não conseguia pensar com lucidez bastante para entender o que era.
— Nem todos — resmungou Egwene. Perrin dirigiu a Byar um olhar desconfiado, mas o homem magro se limitou a observá-la. — Alguns têm chifres, como carneiros ou bodes, ou bicos de gaviões, ou… ou… toda espécie de coisa.
Bornhald balançou a cabeça com tristeza.
— Eu lhes dou todas as chances, e vocês se afundam cada vez mais a cada palavra. — Ele ergueu um dedo. — Vocês andam com lobos, criaturas do Tenebroso. — Um segundo dedo. — Vocês admitem conhecer um Guardião, outra criatura do Tenebroso. Eu duvido que ele tivesse lhes contado o que contou se estivesse só de passagem. — Um terceiro dedo. — Você, garoto, carrega uma marca de Tar Valon no bolso. A maioria dos homens fora de Tar Valon se livra delas o mais rápido que pode. A menos que sirvam às bruxas de Tar Valon. — Um quarto. — Você carrega a arma de um guerreiro embora se vista como um fazendeiro. Um dissimulado então. — O polegar se levantou. — Vocês conhecem Trollocs e Myrddraal. Aqui ao sul, apenas alguns estudiosos e aqueles que viajaram pelas Terras da Fronteira acreditam que elas são algo além de histórias. Talvez vocês tenham estado nas Terras da Fronteira. Se estiveram, digam-me onde. Eu viajei muito pelas Terras da Fronteira e as conheço bem. Não? Ah, que pena então. — Ele olhou para sua mão aberta, depois a bateu com força na mesa. A expressão de avô dizia que os netos haviam feito uma travessura muito grave. — Por que não me contam a verdade sobre como passaram a correr pela noite com os lobos?
Egwene abriu a boca, mas Perrin viu a obstinação no modo como o maxilar dela se projetava e soube no mesmo instante que ela ia contar uma das histórias que eles haviam combinado. Isso não daria certo. Não naquele momento, não ali. Sua cabeça doía, e ele desejou ter tempo para pensar melhor, mas não havia tempo. Quem poderia dizer por onde esse Bornhald havia viajado, com que terras e cidades estava familiarizado? Se ele os apanhasse numa mentira, não haveria como voltar à verdade. Bornhald estaria convencido de que eram mesmo Amigos das Trevas.
— Nós somos dos Dois Rios — disse ele rapidamente.
Egwene o fitou visivelmente perplexa antes de se conter, mas ele continuou a dizer a verdade… ou uma versão dela. Eles haviam deixado os Dois Rios para ver Caemlyn. No caminho, haviam ouvido falar das ruínas de uma grande cidade, mas, quando encontraram Shadar Logoth, havia Trollocs lá. Os dois conseguiram fugir atravessando o Rio Arinelle, mas àquela altura estavam completamente perdidos. Então encontraram um homem que se ofereceu para guiá-los até Caemlyn. Ele dissera que seu nome não era da conta deles, e não parecia lá muito amigável, mas eles precisavam de um guia. O primeiro lobo que qualquer um dos dois havia visto fora depois que os Filhos da Luz apareceram. Tudo o que haviam tentado fazer era se esconder para não serem comidos por lobos nem mortos por homens a cavalo.
— …se soubéssemos que vocês eram Filhos da Luz — concluiu —, teríamos ido até vocês em busca de ajuda.
Byar resfolegou sem acreditar. Perrin não deu muita importância a isso; se o Senhor Capitão se convencesse, Byar não poderia lhes fazer mal. Estava claro que Byar pararia de respirar se o Senhor Capitão Bornhald lhe dissesse para fazer isso.
— Não há nenhum Guardião nessa história — disse o homem grisalho depois de um instante.
A criatividade de Perrin lhe falhara; ele sabia que deveria ter tido tempo para pensar naquilo. Egwene se adiantou para preencher a brecha.
— Nós o encontramos em Baerlon. A cidade estava lotada de homens que haviam descido das minas depois do inverno, e fomos colocados na mesma mesa numa estalagem. Só falamos com ele durante uma única refeição.
Perrin voltou a respirar. Obrigado, Egwene.
— Devolva a eles seus pertences, Filho Byar. As armas não, claro. — Quando Byar olhou para ele, surpreso, Bornhald acrescentou: — Ou você é daqueles que passaram a saquear os não iluminados, Filho Byar? Esse é um negócio ruim, sabe? Nenhum homem pode ser ladrão e caminhar na Luz. — Byar parecia lutar com a descrença em relação àquela sugestão.
— Então o senhor está nos soltando? — Egwene parecia surpresa. Perrin levantou a cabeça para olhar o Senhor Capitão.
— É claro que não, criança — disse Bornhald, triste. — Vocês podem estar falando a verdade sobre serem dos Dois Rios, já que sabem sobre Baerlon e as minas. Mas Shadar Logoth…? Esse é um nome que muitíssimo poucos conhecem, a maioria Amigos das Trevas, e qualquer um que conheça o bastante para saber o nome sabe o suficiente para não ir até lá. Sugiro que pensem numa história melhor na jornada até Amador. Vocês terão tempo, já que devemos fazer uma parada em Caemlyn. De preferência a verdade, criança. Existe liberdade na verdade e a Luz.
Byar esqueceu parte de sua deferência com relação ao homem de cabelos grisalhos. Ele deu as costas aos prisioneiros, e suas palavras tinham um tom de ultraje.
— O senhor não pode! Não é permitido! — Bornhald ergueu uma sobrancelha, incrédulo, e Byar recuou, engolindo em seco. — Perdoe-me, meu Senhor Capitão. Eu me esqueci de qual é o meu lugar, e humildemente peço perdão e me submeto ao castigo, mas, como meu próprio Senhor Capitão apontou, precisamos chegar a Caemlyn a tempo e, sem a maioria de nossas montarias sobressalentes, já será difícil chegar sem termos de levar prisioneiros.
— E o que você sugere? — perguntou Bornhald calmamente.
— O castigo para Amigos das Trevas é a morte. — A voz neutra tornava tudo mais aterrador. Ele parecia estar sugerindo que se pisasse num inseto. — Não existe trégua com a Sombra. Não há misericórdia para os Amigos das Trevas.
— O zelo deve ser aplaudido, Filho Byar, mas, como preciso dizer frequentemente ao meu filho Dain, o excesso de zelo pode ser uma falta grave. Lembre-se de que os Princípios também dizem: “Nenhum homem está tão perdido que não possa ser trazido para a Luz.” Esses dois são jovens. Eles não podem estar tão mergulhados na Sombra. Ainda podem ser trazidos para a Luz, se permitirem que a Sombra seja levantada de seus olhos. Devemos lhes dar essa chance.
Por um momento Perrin quase sentiu afeto pelo homem com jeito de avô que se interpunha entre eles e Byar. Então Bornhald voltou seu sorriso de avô para Egwene.
— Se você se recusar a vir para a Luz quando chegarmos a Amador, serei forçado a entregá-la aos Questionadores, e perto deles o zelo de Byar não passa de uma vela ao lado do sol. — Bornhald parecia um homem que lamentava o que devia fazer, mas que não tinha intenção de fazer outra coisa que não seu dever. — Arrependa-se, renuncie ao Tenebroso, venha para a Luz, confesse seus pecados e diga o que sabe desta vileza com lobos, e isso lhe será poupado. Você caminhará livre, na Luz. — Seu olhar se concentrou em Perrin, e ele deu um suspiro de tristeza. Um arrepio gelado percorreu a espinha de Perrin. — Mas você, Perrin dos Dois Rios, você matou dois dos Filhos. — Ele tocou o machado que Byar ainda segurava. — Você… Receio que a forca o aguarde em Amador.