— Sim, senhora — disse Rand. — Vamos mesmo. E obrigado.
Ela lhe deu um sorriso forçado como se soubesse muito bem que o agradecimento dele era por mais do que seu conselho, ou mesmo o jantar e a cama quente.
Por todo o dia seguinte Mat o provocou sobre Else enquanto eles seguiam pela estrada. Rand tentava mudar de assunto, e o que os Grinwells haviam sugerido sobre se apresentar em estalagens era a coisa mais fácil na sua cabeça. Pela manhã, com Else fazendo beicinho enquanto ele ia embora e a Senhora Grinwell vigiando com olho de águia e cara de “já vão tarde” e “quanto mais cedo melhor”, aquilo era simplesmente algo para calar a boca de Mat. Quando chegaram à aldeia seguinte, já era outra coisa.
Com o crepúsculo descendo, eles entraram na única estalagem de Arien, e Rand falou com o estalajadeiro. Ele tocou “Barca Sobre o Rio”, que o estalajadeiro gordo chamou de “Querida Sara”, e parte de “A Estrada para Dun Aren”, e Mat fez alguns malabarismos, e o lado bom disso foi que eles dormiram em uma cama naquela noite e comeram batatas assadas e carne quente. Era o menor quarto da estalagem, claro, embaixo das vigas dos fundos, e a refeição chegou no meio de uma longa noite de música e malabarismo, mas ainda era uma cama sob um teto. Melhor ainda, para Rand, todas as horas do dia haviam sido passadas na estrada. E os frequentadores da estalagem não pareceram se importar se Mat olhava para eles com desconfiança. Alguns deles até olhavam de soslaio uns para os outros. Os tempos faziam com que desconfiar de estranhos fosse uma coisa comum, e sempre havia estranhos em estalagens.
Foi a melhor noite de sono desde que Rand deixara Ponte Branca, apesar de dividir a cama com Mat e seus resmungos noturnos. Pela manhã, o estalajadeiro tentou convencê-los a ficar mais um ou dois dias, mas, quando não conseguiu, convocou um fazendeiro de olhos cansados que havia bebido demais para guiar a própria carroça para casa na noite anterior. Uma hora depois eles estavam cinco milhas a leste dali, deitados de costas na palha da carroça de Eazil Forney.
E esse se tornou seu jeito de viajar. Com um pouco de sorte, e uma carona ou duas, quase sempre conseguiam chegar à aldeia seguinte ao cair da noite. Se houvesse mais de uma estalagem em uma aldeia, os estalajadeiros os disputavam assim que ouviam a flauta de Rand e viam Mat fazer malabarismos. Juntos eles ainda não chegavam aos pés de um menestrel, mas eram mais do que a maioria dos aldeões via em um ano. Duas ou três estalagens em uma cidade significava um quarto melhor, com duas camas, e porções mais generosas de um corte melhor de carne, e às vezes até mesmo uns cobres a mais em seus bolsos quando partiam. Pela manhã quase sempre havia alguém para oferecer uma carona, outro fazendeiro que havia ficado até tarde e bebido demais ou um mercador que havia gostado o suficiente do entretenimento que eles lhe haviam proporcionado para não se importar que eles pulassem na parte de trás de um de seus carroções. Rand começou a pensar que eles não teriam mais problemas até Caemlyn. Mas, então, chegaram a Quatro Reis.
32
Quatro Reis na Sombra
A aldeia era maior que a maioria; mas ainda era uma cidadezinha insignificante para ter um nome como Quatro Reis. Como de costume, a Estrada de Caemlyn passava pelo centro da pequena cidade, mas outra rodovia de tráfego bem pesado vinha do sul também. Em sua maioria, as aldeias eram mercados e pontos de encontro dos fazendeiros da área, mas não havia muitos fazendeiros por ali. Quatro Reis sobrevivia como parada para comboios de carroções de mercadores a caminho de Caemlyn e das cidades mineiras nas Montanhas da Névoa, além de Baerlon, bem como das aldeias no meio do caminho. Pela estrada do sul seguia o comércio de Lugard com as minas a oeste; mercadores de Lugard indo a Caemlyn tinham uma rota mais direta. A área ao redor contava com poucas fazendas, que quase não eram o bastante para alimentar a si mesmas e à cidade, e tudo na aldeia girava em torno dos mercadores e seus carroções, os homens que os dirigiam e os trabalhadores que carregavam as mercadorias.
Havia áreas de terra nua, batida até virar pó, por toda Quatro Reis, cheias de carroções estacionados roda a roda e abandonados, a não ser por alguns guardas entediados. Estábulos e cavalariças ladeavam as ruas, todas largas o bastante para permitir a passagem dos carroções e com sulcos fundos deixados pela passagem de muitas rodas. Não havia campo, e as crianças brincavam nesses sulcos, desviando-se de carroções e dos xingamentos de seus condutores. As mulheres da aldeia, as cabeças cobertas por lenços, mantinham os olhos abaixados e caminhavam apressadas, às vezes seguidas por comentários dos carroceiros que faziam Rand enrubescer; até Mat se assustou com alguns deles. Não havia mulheres fofocando por cima da cerca com as vizinhas. Casas precárias de madeira praticamente colavam-se umas nas outras, separadas apenas por vielas estreitas, e a caiação, onde alguém tivesse se dado ao trabalho de caiar as tábuas marcadas pelo tempo, era quase apagada, como se havia anos não recebessem uma nova demão. Postigos pesados nas casas não se abriam fazia tanto tempo que as dobradiças eram massas sólidas de ferrugem. Por toda parte havia barulho, clangor de oficinas de ferreiros, gritos dos condutores dos carroções, risadas estrondosas que vinham das estalagens da cidade.
Rand desceu da parte de trás de um carroção de mercador com cobertura de lona quando passaram por uma estalagem toda colorida, pintada em tons vivos de verde e amarelo que atraíam o olhar de longe entre as casas cor de chumbo. A fila dos carroções seguiu em frente. Nenhum dos condutores sequer pareceu notar que ele e Mat haviam sumido; o crepúsculo avançava, e todos só conseguiam pensar em desatrelar os cavalos e chegar às estalagens. Rand tropeçou numa vala, depois saltou rapidamente para evitar um carroção pesado que vinha chegando pelo outro lado. O condutor o xingou aos gritos ao passar. Uma mulher da aldeia desviou dele e se apressou sem sequer olhar em seus olhos.
— Este lugar… eu não sei — disse. Achou que ouvia música em meio ao burburinho, mas não sabia dizer de onde vinha. Talvez da estalagem, mas era difícil saber. — Não gosto daqui. Talvez seja melhor a gente seguir em frente desta vez.
Mat lhe dirigiu um olhar de escárnio, depois virou os olhos para o céu. Nuvens negras engrossavam acima de sua cabeça.
— E dormir sob uma cerca-viva esta noite? Com o que vem aí? Já voltei a me acostumar com camas. — Ele inclinou a cabeça para apurar o ouvido, depois soltou um grunhido. — Talvez um desses lugares não tenha músicos. De qualquer maneira, aposto que não têm malabarista. — Ele pendurou o arco nos ombros e seguiu para a porta amarelo berrante, estudando tudo com olhos semicerrados. Rand o seguiu, vacilante.
Havia músicos lá dentro, a cítara e o tambor quase afogados por risadas roucas e gritos bêbados. Rand nem se deu ao trabalho de encontrar o senhorio. As duas estalagens seguintes também tinham músicos, e a mesma cacofonia ensurdecedora. Homens vestidos com roupas simples enchiam as mesas e andavam aos tropeços, agitando canecas e tentando acariciar criadas que serviam e se desviavam com sorrisos congelados e resignados no rosto. Os prédios tremiam com a algazarra, e o cheiro era acre, um fedor de vinho velho e corpos sujos. Dos mercadores, em suas sedas, veludos e rendas, nem sinal; salas de jantar particulares nos andares de cima protegiam-lhes os ouvidos e os narizes. Rand e Mat apenas enfiavam a cabeça pela porta antes de ir embora. Rand já começava a achar que não teriam escolha a não ser seguir em frente.
A quarta estalagem, a Carroceiro Dançante, estava em silêncio.
Ela era tão colorida quanto as outras, amarela com detalhes vermelhos brilhantes e um verde-bílis de doer os olhos, embora ali a tinta estivesse rachada e descascando. Rand e Mat entraram.