Apenas meia dúzia de homens se sentava às mesas que preenchiam o salão, todos debruçados sobre suas canecas, cada qual sozinho e melancólico com seus pensamentos. Os negócios definitivamente não iam bem, mas já tinham tido dias melhores. O número de criadas era o mesmo dos fregueses e elas se ocupavam pelo salão. Havia muita coisa a fazer… o chão estava incrustado de sujeira e teias de aranha enchiam os cantos do teto… mas a maioria não fazia nada de realmente útil. Só se movia para que não fosse vista parada.
Um homem ossudo com cabelos compridos e grudentos que caíam até os ombros se virou e olhou para eles de cara feia quando passaram pela porta. O primeiro ronco lento de trovão se fez ouvir em Quatro Reis.
— O que vocês querem? — O homem esfregava as mãos num avental engordurado que lhe caía até os tornozelos. Rand ficou se perguntando se havia mais sujeira no avental ou nas mãos do homem. Ele era o primeiro estalajadeiro magro que Rand via na vida. — Então? Falem alguma coisa, comprem uma bebida ou saiam daqui! Por acaso pareço um show de raridades?
Enrubescendo, Rand começou a fala decorada que havia aperfeiçoado nas estalagens anteriores àquela.
— Eu toco flauta, e meu amigo faz malabarismo, e você não verá dois melhores que nós em um ano. Por um bom quarto e uma boa refeição, vamos encher este seu salão. — Ele se lembrou dos salões cheios que já vira naquela noite, e especialmente do homem que havia vomitado bem à sua frente no último deles. Precisara dar um bom salto para manter as botas intocadas. Hesitou um pouco, mas respirou fundo e continuou: — Vamos encher sua estalagem com homens que irão compensar, com a comida e bebida que comprarem vinte vezes o pouco que custamos. Por que…
— Eu já tenho um homem que toca dulcimer — disse o estalajadeiro, azedo.
— Você tem um bêbado, Saml Hake — disse uma das criadas. Ela passava por ele com uma bandeja e duas canecas, e fez uma pausa para oferecer a Rand e Mat um sorriso rechonchudo. — Na maioria das vezes, ele não consegue ver o suficiente para encontrar o salão — confidenciou num sussurro alto. — Não o vejo faz dois dias.
Sem tirar os olhos de Rand e Mat, Hake casualmente virou as costas da mão no rosto dela. A mulher deu um grunhido surpreso e desabou pesadamente no chão sujo; uma das canecas quebrou, e o vinho derramado escorreu em pequenos riachos pela poeira.
— Você vai ser descontada pelo vinho e pela caneca quebrada. Vá pegar novas bebidas. E depressa. Os homens não pagam para esperar enquanto você fica de preguiça. — O tom dele era tão casual quanto o golpe. Nenhum dos frequentadores ergueu a vista do próprio vinho, e as outras criadas voltaram os olhos em outra direção.
A mulher rechonchuda esfregou a bochecha e lançou um olhar de puro ódio para Hake, mas recolheu a caneca vazia e os pedaços quebrados em sua bandeja e saiu sem dizer palavra.
Hake ficou ali chupando os dentes, pensativo, olhando para Rand e Mat. Seu olhar demorou-se na espada com a marca da garça.
— Quer saber? — disse finalmente. — Vocês podem ficar com dois catres num depósito vazio lá nos fundos. Quartos são muito caros para dar. E vocês comem depois que todo mundo tiver ido embora. Deve sobrar alguma coisa.
Rand desejou que houvesse uma estalagem em Quatro Reis que ainda não tivessem visitado. Desde Ponte Branca, ele havia encontrado frieza, indiferença e hostilidade direta, mas nada que lhe desse a sensação de desconforto que aquele homem e aquela aldeia lhe traziam. Disse a si mesmo que era só a sujeira, a pobreza e o barulho, mas a sensação ruim persistia. Mat observava Hake como se suspeitasse de alguma armadilha, mas não deu nenhum sinal de querer desistir da Carroceiro Dançante e dormir sob uma cerca-viva. Trovões sacudiram as janelas. Rand suspirou.
— Os catres servirão se estiverem limpos, e se houver cobertores limpos suficientes. Mas nós comemos duas horas depois que escurecer totalmente, não depois, e do melhor que você tiver. Olhe. Vamos lhe mostrar o que sabemos fazer. — Estendeu a mão para a caixa da flauta, mas Hake sacudiu a cabeça.
— Não interessa. Este bando aqui se satisfaz com qualquer tipo de barulho contanto que pareça música. — Olhou mais uma vez a espada de Rand; seu sorriso fino não tocava nada a não ser os lábios. — Comam quando quiserem, mas se não puserem gente aqui dentro vão para o olho da rua. — Indicou dois homens de rosto austero sentados contra a parede atrás dele. Eles não estavam bebendo, e seus braços eram grossos como pernas. Quando Hake assentiu para eles, seus olhares deslizaram até Rand e Mat, secos e sem expressão.
Rand pôs uma das mãos no cabo da espada, torcendo para que o embrulho no estômago não se refletisse em seu rosto.
— Contanto que tenhamos o que foi acordado — disse ele num tom de voz uniforme.
Hake piscou, e por um momento ele próprio pareceu desconfortável. Subitamente ele assentiu:
— Foi o que eu disse, não foi? Bem, comecem logo. Vocês não vão trazer ninguém ficando aí parados. — E se afastou, fazendo cara feia e gritando com as criadas como se elas estivessem deixando de atender uns cinquenta clientes.
Havia uma pequena plataforma elevada na outra ponta do salão, perto da porta dos fundos. Rand colocou um banco em cima dela e ajeitou seu manto, o cobertor e o manto embrulhado de Thom atrás do banco com a espada em cima de tudo.
Ficou se perguntando se havia sido sábio em continuar usando a espada abertamente. Espadas eram coisa comum, mas a marca da garça sempre atraía atenção e especulação. Não de todos, mas qualquer um que reparasse o fazia se sentir pouco à vontade. Ele podia estar deixando um rastro claro para os Myrddraal… se é que os Desvanecidos precisavam desse tipo de rastro. Parecia que não. De qualquer maneira, relutava em deixar de usá-la. Tam a dera para ele. Seu pai. Enquanto usasse a espada, ainda haveria alguma conexão entre Tam e ele, um fio que lhe dava o direito de ainda chamar Tam de pai. Tarde demais agora, pensou. Não tinha certeza do que queria dizer com isso, mas sabia que era verdade. Tarde demais.
Na primeira nota de “Galo do Norte”, a meia dúzia de frequentadores no salão levantou a cabeça, tirando os olhos do vinho. Até mesmo os dois leões de chácara se inclinaram um pouquinho para a frente. Todos aplaudiram quando ele terminou, incluindo os dois leões de chácara, e mais uma vez, quando Mat fez uma chuva de bolas coloridas girar em suas mãos. Do lado de fora, o céu voltou a resmungar. A chuva estava custando a cair, mas era possível sentir a pressão; quanto mais ela demorasse, com mais força desabaria.
A notícia se espalhou e, quando escureceu do lado de fora, a estalagem estava lotada de homens rindo e falando tão alto que Rand mal conseguia ouvir o que estava tocando. Só os trovões lá no alto sobrepujavam o ruído no salão. Os relâmpagos piscavam nas janelas, e nos poucos momentos de mais tranquilidade ele conseguia ouvir baixinho a chuva caindo no telhado. Os homens que entravam passaram a deixar trilhas de água no chão.
Sempre que ele fazia uma pausa, vozes gritavam nomes de canções em meio ao burburinho. Ele não reconhecia uma boa parte dos títulos, mas, quando pedia para que alguém cantarolasse um pedacinho da canção, frequentemente descobria que a conhecia. O mesmo acontecera em outros lugares antes. “Jaim Alegre” ali era “O Flerte de Rhea”, e em uma parada anterior se chamava “Cores do Sol”. Alguns nomes permaneciam os mesmos; outros mudavam numa distância de dez milhas. E ele também havia aprendido novas canções. “O Mascate Bêbado” era uma delas, embora às vezes ela se chamasse “Latoeiro na Cozinha”. “Dois Reis Vieram Caçar” era “Dois Cavalos Correndo”, além de vários outros nomes. Ele tocava as que conhecia, e os homens socavam as mesas exigindo mais.
Outros pediam que Mat voltasse a fazer malabarismos. Às vezes acontecia uma briga entre aqueles que queriam música e os que preferiam malabares. Em dado momento uma faca surgiu, uma mulher gritou e um homem recuou de uma mesa com sangue correndo pelo rosto, mas Jak e Strom, os dois leões de chácara, chegaram rapidamente e, com completa imparcialidade, jogaram todos os envolvidos na rua, com galos na cabeça. Essa era sua tática com qualquer problema. As conversas e os risos continuaram como se nada tivesse acontecido. Ninguém sequer olhou ao redor, exceto aqueles em que os leões de chácara esbarravam no caminho para a porta.