E, o pior de tudo, Mat dirigia ao mercador de Ponte Branca — o Amigo das Trevas? — um olhar duas vezes mais intenso do que a qualquer outra pessoa, e Gode reparou. Não havia como não reparar. Mas isso não perturbou em nada sua postura. Ao contrário, ele sorriu ainda mais e assentiu para Mat como se estivesse cumprimentando um velho conhecido. Então olhou para Rand e ergueu uma sobrancelha questionadora. Rand não queria saber qual era a pergunta. Tentou evitar olhar para o homem, mas sabia que era tarde demais para isso. Tarde demais. Tarde demais novamente.
Somente uma coisa parecia perturbar o equilíbrio do homem do manto de veludo: a espada de Rand. Ele a havia deixado na cintura. Dois ou três homens se levantaram, cambaleantes, para perguntar se Rand achava que estava tocando tão mal que precisava de proteção, mas nenhum deles reparou na garça no cabo. Gode reparou. Suas mãos pálidas se fecharam, e ele franziu a testa para a espada por um longo tempo antes que o sorriso voltasse. Quando voltou, não estava tão seguro quanto antes.
Pelo menos uma coisa boa, pensou Rand. Se ele acreditar que faço jus à marca da garça, talvez nos deixe em paz. Então só precisaremos nos preocupar com Hake e seus capangas. Não era lá um pensamento muito reconfortante, e, com ou sem espada, Gode continuava observando. E sorrindo.
Para Rand a noite pareceu durar um ano inteiro. Todos aqueles olhos voltados para ele: Hake, Jak e Strom, como abutres observando uma ovelha presa num pântano, e Gode, esperando como algo ainda pior. Começou a achar que todos no salão observavam com algum motivo oculto. O vapor do vinho quente e o fedor de corpos sujos e suados faziam sua cabeça girar, e o burburinho de vozes o açoitava até sua visão ficar turva e até mesmo o som de sua flauta arranhava seus ouvidos. O som do trovão parecia ribombar dentro de sua cabeça. O cansaço pendia sobre ele como um peso de ferro.
No fim das contas, a necessidade de levantar com a aurora começou a levar os homens com relutância para a escuridão. Um fazendeiro tinha de prestar contas apenas a si mesmo, mas os mercadores eram notoriamente pouco compreensivos quanto a ressacas quando estavam pagando os condutores. No começo da madrugada o salão foi se esvaziando lentamente à medida que até mesmo aqueles que tinham quartos no andar de cima subiam, cambaleantes, em busca de suas camas.
Gode foi o último freguês. Quando Rand pegou a caixa de couro da flauta, bocejando, Gode se levantou e jogou o manto sobre o braço. As criadas limpavam, resmungando umas com as outras sobre a bagunça de vinho derramado e pratos quebrados. Hake estava trancando a porta da frente com uma chave grande. Gode abordou Hake num canto por um momento, e Hake chamou uma das mulheres para que o levasse a um quarto. O homem do manto de veludo deu um sorriso sagaz para Mat e Rand antes de desaparecer escada cima.
Hake estava olhando para Rand e Mat, ladeado por Jak e Strom.
Rand rapidamente terminou de pendurar suas coisas nos ombros, segurando tudo desajeitadamente atrás de si com a mão esquerda para poder alcançar a espada. Ele não fez nenhum movimento na direção dela, mas queria saber que ela estava a postos. Reprimiu um bocejo; a extensão de seu cansaço era algo que eles não deveriam saber.
Mat pendurou no ombro o arco e seus poucos outros pertences de modo desajeitado, mas enfiou a mão embaixo do casaco enquanto via Hake e seus capangas se aproximarem.
Hake carregava um lampião, e, para surpresa de Rand, ele fez uma pequena mesura e um gesto indicando uma porta lateral.
— Seus catres são por ali. — Apenas um ligeiro retorcer dos lábios estragou sua atuação.
Mat apontou para Jak e Strom com o queixo.
— Você precisa desses dois para nos mostrar nossas camas?
— Eu sou um homem de propriedade — disse Hake, alisando a frente de seu avental sujo —, e todo cuidado é sempre pouco para homens de propriedade. — Um som violento de trovão sacudiu as janelas, e ele olhou de relance, mas significativamente, para o teto, então dirigiu aos dois um sorriso de dentes salientes. — Vocês querem ver suas camas ou não?
Rand ficou imaginando o que aconteceria se eles dissessem que queriam ir embora. Se você realmente soubesse mais sobre o uso de uma espada do que os poucos exercícios que Lan lhe mostrou…
— Mostre o caminho — disse, tentando endurecer a voz. — Não gosto de ninguém atrás de mim.
Strom deu um risinho, mas Hake assentiu placidamente, virou-se na direção da porta lateral, e os dois homenzarrões foram caminhando atrás dele. Respirando fundo, Rand lançou um olhar frustrado na direção da porta da cozinha. Se Hake já tinha trancado a porta dos fundos, correr agora só daria início ao que ele estava esperando evitar. Seguiu soturnamente o dono da estalagem.
Na porta lateral ele hesitou, e Mat se colou às suas costas. O motivo para o lampião de Hake era evidente. A porta dava para um corredor negro como piche. Somente o lampião que Hake carregava, marcando Jak e Strom em silhueta, lhe dava a coragem de seguir em frente. Se eles se virassem, ele saberia. E faria o quê? O chão rangia sob suas botas.
O corredor terminava em uma porta tosca e sem pintura. Não vira se havia outra porta no caminho. Hake e os capangas passaram, e ele seguiu rapidamente, antes que eles pudessem ter chance de montar uma armadilha, mas Hake apenas levantou o lampião bem alto e fez um gesto indicando o aposento.
— Aqui está.
Um velho depósito, ele o havia chamado, e pelo aspecto não era usado fazia algum tempo. Barris envelhecidos pelo tempo e caixotes quebrados tomavam metade do chão. Goteiras pingavam de mais de um ponto do teto, e uma vidraça quebrada na janela suja deixava o vento soprar a chuva livremente para dentro. Coisas soltas impossíveis de identificar atulhavam as prateleiras, e uma grossa camada de poeira cobria quase tudo. A presença dos catres prometidos era uma surpresa.
A espada o deixa nervoso. Ele não vai tentar nada até que estejamos ferrados no sono. Rand não tinha intenção de dormir sob o teto de Hake. Assim que o dono da estalagem saísse, ele pretendia pular pela janela.
— Serve — disse. Manteve os olhos em Hake, desconfiado, atento a um sinal para os dois homens sorridentes ao lado do estalajadeiro. Fez um esforço para não passar a língua nos lábios. — Deixe o lampião.
Hake grunhiu, mas enfiou o lampião em uma prateleira. Hesitou, olhando para eles, e Rand teve certeza de que ele ia dar a ordem para que Jak e Strom pulassem em cima deles, mas seus olhos se dirigiram à espada de Rand com uma expressão calculista no rosto, e ele fez um gesto brusco com a cabeça para os dois homenzarrões. As caras largas deles demonstraram surpresa por um instante, mas eles o acompanharam para fora do cômodo sem olhar para trás.
Rand esperou que o crec-crec-crec de seus passos desaparecesse, depois contou até cinquenta antes de enfiar a cabeça no corredor. A escuridão era quebrada apenas por um retângulo de luz que parecia distante como a lua: a porta para o salão. Quando ele enfiou a cabeça, algo grande se moveu na escuridão perto da outra porta. Jak ou Strom, montando guarda.
Um rápido exame da porta lhe disse tudo o que ele precisava saber, e pouco disso era bom. As tábuas eram grossas e resistentes, mas não havia tranca, e nenhuma barra do lado de dentro. Mas pelo menos ela abria para dentro do cômodo.
— Achei que eles viriam para cima da gente — disse Mat. — O que estão esperando? — Ele havia sacado a adaga, e a segurava com tanta força que os dedos estavam brancos. A luz do lampião reluzia na lâmina. Seu arco e sua aljava jaziam esquecidos no chão.