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— Que a gente durma. — Rand começou a mexer entre os barris e caixotes. — Venha e me ajude a encontrar alguma coisa para bloquear a porta.

— Por quê? Você não pretende realmente dormir aqui, pretende? Vamos sair pela janela e dar o fora. Prefiro estar molhado que morto.

— Um deles está no fim do corredor. Se fizermos qualquer barulho, eles estarão em cima de nós antes que possamos piscar. Acho que Hake iria preferir nos enfrentar acordados do que correr o risco de nos deixar escapar.

Resmungando, Mat começou a procurar também, mas não havia nada de útil no lixo espalhado no chão. Os barris estavam vazios, os caixotes, quebrados e lascados, e tudo junto empilhado na frente da porta não impediria ninguém de abri-la. Então alguma coisa familiar em uma prateleira chamou a atenção de Rand. Duas cunhas, cobertas de ferrugem e poeira. Ele as pegou com um sorriso.

Enfiou as duas apressadamente embaixo da porta e, quando o trovão seguinte sacudiu a estalagem, empurrou-as com força à custa de dois chutes com o calcanhar. O som do trovão diminuiu, e ele conteve a respiração, apurando o ouvido. Tudo o que Rand escutou foi a chuva batucando no telhado. Nenhuma tábua rangendo sob pés em disparada.

— A janela — disse.

Ela não era aberta havia anos, a julgar pela quantidade de sujeira incrustada ao seu redor. Juntaram-se e empurraram com toda a força. Os joelhos de Rand ficaram trêmulos antes que a janela cedesse; ela gemia a cada polegada, relutante. Quando a abertura ficou grande o bastante para que eles pudessem passar, ele se agachou e então parou.

— Sangue e cinzas! — grunhiu Mat. — Não admira que Hake não tenha se preocupado com a possibilidade de fugirmos.

Barras de ferro em uma esquadria reluziam molhadas à luz do lampião. Rand empurrou-as; eram sólidas como um rochedo.

— Eu vi uma coisa — disse Mat. Ele começou a procurar apressadamente no meio do lixo nas prateleiras e voltou com um pé de cabra enferrujado. Enfiou a ponta dele embaixo da esquadria de ferro em um dos lados, e Rand fez uma careta.

— Lembre-se do barulho, Mat.

Mat fez uma careta e resmungou baixinho, mas esperou. Rand pôs as mãos no pé de cabra e tentou encontrar uma boa base na poça d’água cada vez maior embaixo da janela. O trovão soava, e eles faziam força. Com um gemido torturado de pregos que fazia os pelos da nuca de Rand se arrepiarem, a esquadria se deslocou… um quarto de polegada, se tanto. Calculando o momento de acordo com as trovoadas e os relâmpagos, eles tornaram a fazer força com o pé de cabra. Nada. Um quarto de polegada. Nada. Um fiozinho de cabelo. Nada. Nada.

Subitamente os pés de Rand escorregaram na água, e os dois caíram no chão. O pé de cabra bateu contra as barras como um gongo. Rand ficou deitado numa poça, prendendo a respiração e apurando o ouvido. Silêncio, a não ser pela chuva.

Mat massageou os dedos machucados e fuzilou Rand com o olhar.

— Nesse ritmo a gente nunca vai sair daqui. — A esquadria de ferro não cedera o suficiente para dois dedos passarem. Dezenas de pregos grossos cruzavam a abertura estreita.

— Temos de continuar tentando — disse Rand ao se levantar. Mas, ao colocar o pé de cabra sob a borda da moldura, a porta rangeu quando alguém tentou abri-la. As cunhas de partir lenha a mantinham fechada. Ele trocou um olhar de preocupação com Mat, que puxou a adaga novamente. A porta cedeu mais um pouquinho com um rangido.

Rand respirou fundo e tentou manter a voz firme.

— Vá embora, Hake. Estamos tentando dormir.

— Receio que estejam me confundindo. — A voz era tão ardilosa e cheia de si que já identificava o dono. Howal Gode. — Mestre Hake e seus… asseclas não nos perturbarão. Eles dormem a sono solto, e pela manhã só se perguntarão para onde vocês foram. Deixem-me entrar, jovens amigos. Precisamos conversar.

— Não temos nada para falar com você — disse Mat. — Vá embora e deixe a gente dormir.

A risadinha de Gode era cheia de malícia.

— É claro que temos coisas para falar. Vocês sabem disso tão bem quanto eu. Eu vi nos olhos de vocês. Posso sentir isso vindo de vocês em ondas. Parte de vocês já pertence ao meu mestre. Parem de fugir e aceitem. As coisas serão tão mais fáceis para vocês. Se as bruxas de Tar Valon os encontrarem, vocês desejarão ter cortado as próprias gargantas antes que elas acabem com vocês, mas não serão capazes de fazer isso. Só meu mestre pode proteger vocês delas.

Rand custou a engolir em seco.

— Não sabemos do que você está falando. Deixe-nos em paz. — As tábuas do corredor rangeram. Gode não estava só. Quantos homens ele poderia ter trazido em duas carruagens?

— Deixem de ser tolos, meus jovens amigos. Vocês sabem. Sabem muito bem. O Grande Senhor das Trevas marcou vocês como sendo dele. Está escrito que, quando ele acordar, os novos Senhores do Medo estarão lá para louvá-lo. Vocês devem ser dois deles, caso contrário eu não teria sido enviado até aqui para encontrá-los. Vida eterna, e poder além dos sonhos. — Sua voz estava repleta de fome por esse poder.

Rand olhou para trás e viu a janela no instante em que um raio partiu o céu, e quase gemeu. O breve relâmpago mostrou homens do lado de fora, homens que ignoravam a chuva que os encharcava enquanto permaneciam ali, vigiando a janela.

— Estou me cansando disto — anunciou Gode. — Vocês vão se submeter ao meu mestre, ao mestre de vocês, ou serão obrigados a isso. O que não seria nada agradável para vocês. O Grande Senhor das Trevas governa a morte, e ele pode conferir a vida na morte ou a morte em vida conforme desejar. Abram esta porta. De um jeito ou de outro, sua fuga chegou ao fim. Abram, eu já disse!

Ele devia ter dito mais alguma coisa também, pois subitamente um corpo pesado se chocou contra a porta, que estremeceu, e as cunhas deslizaram uma fração de polegada com um ruído de ferrugem arranhando a madeira do piso. Uma, duas vezes a porta tremeu enquanto corpos se jogavam contra ela. Às vezes as cunhas aguentavam firme; outras, deslizavam mais um pouquinho, e, um pouquinho de cada vez, a porta vinha inexoravelmente para dentro.

— Rendam-se — exigiu Gode, no corredor —, ou passem a eternidade desejando tê-lo feito!

— Se nós não temos escolha… — Mat lambeu os lábios sob o olhar de Rand. Seus olhos dardejavam como os de um texugo encurralado; seu rosto estava branco, e ele falava ofegante. — A gente podia concordar e escapar depois. Sangue e cinzas, Rand, não há saída!

As palavras pareceram chegar a Rand através de chumaços de lã enfiados em seus ouvidos. Não há saída. No alto, trovões ressoaram e foram abafados quando um relâmpago cortou o ar. Preciso encontrar uma saída. Gode gritava com eles, exigindo, apelando. A porta deslizou mais uma polegada… Uma saída!

A luz encheu o aposento, inundando a visão; o ar rugiu e ardeu. Rand sentiu quando foi arremessado contra a parede. Ele escorregou e desabou, as orelhas zumbindo e cada pelo em seu corpo arrepiado. Atordoado, ele se levantou, cambaleante. Os joelhos tremiam, e ele pôs a mão na parede para se firmar. Olhou ao redor, espantado.

O lampião, caído de lado na beirada de uma das poucas prateleiras que se agarravam às paredes, ainda queimava e iluminava. Todos os barris e caixotes, alguns escurecidos e queimando, jaziam onde haviam sido atirados. A janela, barras e tudo, e a maior parte da parede também, havia desaparecido, deixando um buraco cheio de lascas. O teto cedera, e colunas de fumaça enfrentavam a chuva ao redor das margens serrilhadas da abertura. A porta estava pendurada pelas dobradiças, inclinada para o corredor.

Com uma sensação de irrealidade e zonzo, Rand ergueu o lampião. Parecia que a coisa mais importante do mundo era garantir que ele não se quebrasse.

Uma pilha de caixotes subitamente se mexeu, e Mat se levantou do meio dela. Ele trançou os pés, piscando e se apalpando como se querendo saber se tudo ainda estava no devido lugar. Ele olhou para Rand.