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— Nós nunca vimos o senhor — disse Rand ao aceitar os cachecóis. — O senhor é um homem bom. O melhor que encontramos em dias.

O fazendeiro mostrou-se surpreso, depois satisfeito. Pegando as rédeas, ele virou os cavalos e desceu a alameda estreita. Antes que ele completasse a curva, Rand já guiava Mat pela Estrada de Caemlyn.

O vento foi ficando mais forte com o cair da noite, Mat começou a perguntar, em tom de queixa, quando iriam parar, mas Rand continuou andando, puxando Mat atrás de si, procurando por um abrigo melhor do que embaixo de uma cerca-viva. Com suas roupas ainda molhadas e o vento ficando mais frio a cada minuto, ele não sabia se conseguiriam sobreviver mais uma noite a céu aberto. A noite caiu sem que ele conseguisse avistar qualquer abrigo. O vento ficou gélido, açoitando seu manto. Então, na escuridão à frente, ele viu luzes. Uma aldeia.

Sua mão deslizou para o bolso, sentindo as moedas ali dentro. Mais que o suficiente para uma refeição e um quarto para os dois. Um quarto abrigado do frio da noite. Se permanecessem a céu aberto, no vento e no frio com roupas úmidas, quem os procurasse não encontraria mais que dois cadáveres. Bastava não atrair atenção, se pudessem evitar. Nada de flauta, e, com os olhos daquele jeito, Mat certamente não teria como fazer malabarismos. Ele agarrou a mão de Rand mais uma vez e partiu na direção das luzes convidativas.

— Quando vamos parar? — perguntou Mat novamente. Do jeito que ele olhava adiante, com a cabeça inclinada para a frente, Rand não tinha certeza se Mat podia vê-lo, quanto mais as luzes da aldeia.

— Quando estivermos em algum lugar quente — ele respondeu.

Poças de luz das janelas das casas iluminavam as ruas da cidade, e as pessoas caminhavam por elas sem se preocupar com o que poderia estar lá fora no escuro. A única estalagem era um prédio grande, de um andar só, com o aspecto de que tivera cômodos acrescentados aos lotes ao longo dos anos sem qualquer planejamento. A porta da frente se abriu para deixar alguém sair, e uma onda de gargalhadas o acompanhou.

Rand ficou paralisado no meio da rua, as risadas bêbadas da Carroceiro Dançante ecoando em sua cabeça. Ele viu o homem descer a rua com um passo nada firme, então respirou fundo e abriu a porta. Tomou cuidado para que o manto cobrisse a espada. As risadas o envolveram.

Lampiões pendurados no teto alto iluminavam a sala, e de cara ele pôde ver e sentir a diferença da estalagem de Saml Hake. Ali não havia bebedeira, para começar. Os homens da cidade, se não estavam inteiramente sóbrios, não estavam muito longe disso. As risadas eram verdadeiras, ainda que um pouco forçadas. Pessoas rindo para esquecer os problemas, mas com uma alegria genuína também. O salão propriamente dito era limpo e arrumado, e quente por conta do fogo que rugia numa grande lareira na outra extremidade. Os sorrisos das atendentes eram tão calorosos quanto o fogo, e quando elas riam Rand podia ver que era porque queriam.

O estalajadeiro era tão limpo quanto sua estalagem, com um avental de um branco reluzente em torno do corpanzil. Rand ficou contente ao ver que ele era um homem corpulento; duvidava que algum dia voltasse a confiar num estalajadeiro magricela. Seu nome era Rulan Allwine, um bom presságio, pensou Rand, com muito da sonoridade de Campo de Emond nele, e ele os olhou de cima a baixo, depois mencionou educadamente o pagamento adiantado.

— Não estou sugerindo que vocês sejam desse tipo, compreendam, mas tem havido alguns na estrada estes dias que não fazem muita questão de pagar no dia seguinte. Parece que há muitos jovens se dirigindo para Caemlyn.

Rand não se ofendeu, molhado e esgotado como estava. Quando Mestre Allwine mencionou o preço, entretanto, seus olhos se arregalaram, e Mat emitiu um som como se tivesse engasgado com alguma coisa.

A papada do estalajadeiro sacudiu quando ele balançou a cabeça lamentando, mas ele parecia estar acostumado a isso.

— São tempos difíceis — disse o estalajadeiro numa voz resignada. — Não há muita coisa, e o pouco que há custa cinco vezes o que estávamos acostumados. E vai estar mais caro no mês que vem, posso lhe assegurar.

Rand pegou seu dinheiro e olhou para Mat. A boca de Mat se apertou, teimosa.

— Quer dormir embaixo de uma cerca? — perguntou Rand. Mat suspirou e esvaziou o bolso com relutância. Quando a quantia foi paga, Rand fez uma careta ao ver o pouco que restava para dividir com Mat.

Dez minutos depois, porém, eles estavam comendo ensopado em uma mesa num canto perto da lareira, empurrando-o para suas colheres com pedaços grandes de pão. As porções não eram tão grandes quanto Rand poderia ter desejado, mas eram quentes e enchiam o estômago. O calor da lareira foi penetrando em seu corpo lentamente. Ele fingia manter os olhos no prato, mas observava a porta com atenção. Aqueles que entravam ou saíam pareciam fazendeiros, mas isso não era o bastante para aplacar seu medo.

Mat comia devagar, saboreando cada pedaço, embora ficasse resmungando por causa da luz dos lampiões. Depois de um tempo, ele pegou o cachecol que Alpert Mull lhe dera e o enrolou ao redor da cabeça, puxando-o para baixo pela testa até que seus olhos ficassem quase escondidos. Isso lhes valeu alguns olhares que Rand gostaria que pudessem ter evitado. Ele limpou o prato com pressa, pedindo a Mat que fizesse o mesmo, depois perguntou a Mestre Allwine sobre o quarto.

O estalajadeiro pareceu surpreso por eles estarem indo se deitar tão cedo, mas não fez qualquer comentário. Pegou uma vela e os conduziu por um labirinto de corredores até um quartinho com duas camas estreitas, num canto da estalagem. Quando foi embora, Rand largou seus pertences ao lado da cama, jogou o manto em cima de uma cadeira e deixou-se cair sobre o edredom inteiramente vestido. Suas roupas ainda estavam úmidas e desconfortáveis, mas, se precisassem sair correndo, queria estar pronto. Manteve o cinturão da espada, e dormiu com a mão no cabo.

O canto de um galo o despertou com um susto pela manhã. Ele ficou ali deitado, vendo a aurora iluminar a janela, e se perguntou se ousaria dormir um pouco mais. Dormir durante o dia, quando poderiam estar andando. Um bocejo fez seus maxilares estalarem.

— Ei — exclamou Mat. — Eu consigo enxergar! — Ele se sentou na cama, olhando à sua volta com os olhos apertados. — Um pouco, pelo menos. Seu rosto ainda está meio borrado, mas dá para dizer quem é você. Eu sabia que eu ia melhorar. À noite vou enxergar melhor que você. De novo.

Rand pulou da cama, coçando-se ao vestir o manto. Suas roupas estavam amarrotadas por terem secado nele enquanto dormia, e elas pinicavam.

— Estamos desperdiçando a luz do dia — disse. Mat pulou da cama tão rápido quanto ele; também estava se coçando.

Rand se sentia bem. Estavam a um dia de distância de Quatro Reis, e nenhum dos homens de Gode havia aparecido. Um dia mais perto de Caemlyn, onde Moiraine estaria esperando por eles. Sim, ela estaria. Nada mais de se preocupar com Amigos das Trevas assim que estivessem novamente com a Aes Sedai e o Guardião. Era estranho querer tanto estar com uma Aes Sedai. Luz, quando eu encontrar Moiraine novamente, vou dar um beijo nela! Riu ao pensar nisso. Sentia-se bem o bastante para investir parte de seu estoque cada vez menor de moedas no desjejum, um grande pedaço de pão e um jarro de leite frio.

Eles estavam comendo nos fundos do salão quando um jovem entrou, da própria aldeia pela aparência, com um passo arrogante e girando no dedo um chapéu de pano enfeitado com uma pluma. A única outra pessoa na sala era um velho que varria o chão e que nem sequer levantou a cabeça. O olhar do jovem correu a sala, mas, quando pousou em Rand e Mat, o chapéu lhe caiu do dedo. Ele ficou encarando os dois por um minuto inteiro antes de pegar o chapéu do chão, depois tornou a olhar mais um pouco, passando os dedos pelos cachos grandes e escuros. Finalmente, aproximou-se da mesa deles, hesitante.