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A noite se adensou, aliviada somente por um pouco de luar. O surto de energia de Mat foi passando, e suas queixas recomeçaram. Nós de dor se formaram nas panturrilhas de Rand. Ele dizia a si mesmo que havia caminhado mais num dia duro trabalhando na fazenda com Tam, mas, por mais que repetisse isso, ele mesmo não conseguia acreditar. Trincando os dentes, ignorou as dores e não parou.

Com Mat reclamando e ele se concentrando em dar cada passo, estavam quase na aldeia antes que ele visse as luzes. Ele parou, cambaleando, subitamente consciente de uma queimação que subia dos seus pés até o alto das pernas. Achava que estava com uma bolha no pé direito.

Ao ver as luzes da aldeia, Mat caiu de joelhos com um gemido.

— Podemos parar agora? — disse, ofegante. — Ou você quer encontrar uma estalagem e pendurar uma placa para os Amigos das Trevas? Ou um Desvanecido.

— O outro lado da cidade — respondeu Rand, encarando as luzes. Daquela distância, no escuro, parecia Campo de Emond. O que nos aguarda ali? — Mais uma milha, é só.

— Só! Eu não ando mais nem uma braça!

As pernas de Rand pareciam estar em chamas, mas ele se forçou a dar mais um passo, e depois outro. Não ficou mais fácil, mas ele seguiu em frente, um passo de cada vez. Antes de avançar dez passos, ouviu Mat cambalear atrás dele, resmungando baixinho. Achou muito bom não conseguir ouvir o que Mat estava falando.

Era tarde o suficiente para que as ruas da aldeia estivessem desertas, embora a maioria das casas tivesse luz em pelo menos uma das janelas. A estalagem no meio da cidade estava fartamente iluminada, cercada por uma poça de luz dourada que afastava as trevas. Música e risos, abafados pelas paredes grossas, vinham do prédio. A placa sobre a porta rangia ao vento. Quase na outra extremidade da estalagem, uma carroça e um cavalo estavam parados na Estrada de Caemlyn com um homem verificando os arreios. Dois homens estavam do outro lado do edifício, nas fímbrias da luz.

Rand parou nas sombras ao lado de uma casa onde não havia luz. Estava cansado demais para caçar pelas ruelas um caminho para dar a volta. Um minuto de descanso não poderia fazer mal algum. Só um minuto. Só até os homens irem embora. Mat escorregou contra a parede com um suspiro de satisfação, inclinando-se para trás, como se sua intenção fosse dormir ali mesmo.

Alguma coisa nos dois homens à margem das sombras deixava Rand inquieto. Ele não conseguia definir o que era, no começo, mas percebeu que o homem na carroça sentia o mesmo. O homem alcançou a ponta do arreio que estava verificando, ajustou o mordedor na boca do cavalo, depois voltou e começou tudo de novo. Manteve a cabeça abaixada durante todo esse tempo, os olhos no que estava fazendo e longe dos outros homens. Poderia simplesmente não estar se dando conta deles, embora estivessem a menos de dez braças, não fosse pela maneira rígida como se movia e o modo como às vezes se virava desajeitadamente no que estava fazendo para não olhar diretamente para os dois.

Um dos homens nas sombras era apenas um vulto negro, mas o outro estava mais próximo da luz, de costas para Rand. Mesmo assim era óbvio que ele não estava muito animado com a conversa que estavam tendo. Ele torcia as mãos e mantinha os olhos no chão, de vez em quando balançando a cabeça em concordância com alguma coisa que o outro dizia. Rand não conseguia ouvir nada, mas teve a impressão de que era o homem nas sombras quem falava; o outro, nervoso, apenas escutava, assentia e torcia as mãos ansiosamente.

No fim das contas, o que estava envolto em trevas se virou, e o sujeito nervoso começou a retornar para a luz. Apesar do frio, ele enxugava o rosto com o avental comprido que vestia, como se estivesse encharcado de suor.

A pele arrepiada, Rand observou o vulto se afastando na noite. Ele não sabia por quê, mas seu desconforto parecia acompanhar aquela figura, um formigamento vago em sua nuca e nos pelos que se arrepiavam em seus braços, como se ele subitamente tivesse percebido que havia alguém chegando de mansinho por trás dele. Sacudindo rapidamente a cabeça, esfregou os braços com força. Você está ficando tão tolo quanto Mat, não está?

Naquele momento, o vulto deslizou pela borda da luz que vinha de uma janela, apenas à margem dela, e a pele de Rand se arrepiou toda. A placa da estalagem fazia cri-cri-cri ao vento, mas o manto negro não se mexia.

— Desvanecido — sussurrou, e Mat se levantou de um pulo, como se tivesse ouvido um grito.

— O que…?

Ele tampou a boca de Mat.

— Baixinho. — O vulto escuro se perdera nas trevas. Onde? — Já foi embora agora. Eu acho. Espero. — Ele afastou a mão; o único som que Mat fez foi o de inspirar profundamente.

O homem nervoso estava quase na porta da estalagem. Ele parou e ajeitou o avental, visivelmente recompondo-se antes de entrar.

— Amigos estranhos esses seus, Raimun Holdwin — disse subitamente o homem da carroça. Era a voz de um velho, mas forte. Ele se endireitou, balançando a cabeça. — Amigos estranhos, no escuro, para um estalajadeiro.

O homem nervoso deu um pulo quando o outro falou, olhando ao redor como se não tivesse visto a carroça nem o outro homem até então. Então respirou bem fundo, aprumou-se e disse, sério:

— E o que você quer dizer com isso, Almen Bunt?

— Exatamente o que eu disse, Holdwin. Amigos estranhos. Ele não é daqui, é? Muita gente esquisita tem vindo nas últimas semanas. Mas muita gente esquisita mesmo.

— Você é o sujeito ideal para falar disso. — Holdwin olhou torto para o sujeito da carroça. — Eu conheço muitos homens, até mesmo de Caemlyn. Ao contrário de você, entocado sozinho naquela sua fazenda. — Ele fez uma pausa, depois continuou, como se achasse que precisava dar mais alguma satisfação. — Ele é de Quatro Reis. Está à procura de dois ladrões. Rapazotes. Roubaram dele uma espada com a marca da garça.

Rand havia prendido a respiração só de ouvir falar em Quatro Reis; à menção à espada, olhou de esguelha para Mat. Seu amigo estava com a mão pressionada com força contra a parede e olhando para as trevas com olhos tão arregalados que pareciam ser inteiramente brancos. Rand também queria vigiar a noite. O Meio-homem podia estar em qualquer lugar… Mas seus olhos voltaram aos dois homens na frente da estalagem.

— Uma espada com a marca da garça! — exclamou Bunt. — Não é à toa que ele a quer de volta.

Holdwin assentiu.

— Sim, e eles também. Meu amigo é um homem rico, um… um mercador, e eles andaram criando problemas com os homens que trabalham para ele. Contando histórias malucas e aborrecendo as pessoas. Eles são Amigos das Trevas, e seguidores de Logain também.

— Amigos das Trevas e seguidores do falso Dragão? E contando histórias malucas também? É muita coisa para rapazotes. Você disse que eles eram só rapazes, não? — Havia uma nota súbita de divertimento na voz de Bunt, mas o estalajadeiro não pareceu notar.

— Sim. Ainda não chegaram aos vinte anos. Há uma recompensa, cem coroas de ouro, pelos dois. — Holdwin hesitou, depois acrescentou: — Esses dois têm uma língua ardilosa. Sabe a Luz que espécie de histórias eles vão contar, tentando jogar as pessoas umas contra as outras. E são perigosos também, mesmo que não pareçam. Criminosos. Melhor ficar longe se achar que os viu. Dois rapazes, um com uma espada, e os dois olhando a toda hora para trás. Se forem eles mesmos, meu… meu amigo virá apanhá-los assim que forem localizados.

— Parece até que você os conhece pessoalmente.

— Vou saber quem são no instante em que olhar para eles — disse Holdwin, confiante. — Só não tente pegá-los sozinho. Ninguém precisa se machucar. Venha me contar se os vir. Meu… amigo cuidará deles. Cem coroas pelos dois, mas ele quer o par.

— Cem coroas pelos dois — considerou Bunt, contemplativo. — Quanto por essa espada que ele tanto quer?