“Trouxe Cairhien para a trama antes de acabar, e você sabe como isso terminou. A Árvore derrubada, e Aiel de véus negros vindo além da Muralha do Dragão. Bem, ele acabou conseguindo ser morto depois de se tornar pai de Elayne e Gawyn, então as coisas tiveram um fim, suponho. Mas por que mandá-los a Tar Valon? Está na hora de os homens não mais juntarem o trono de Andor e as Aes Sedai no mesmo pensamento. Se eles tiverem de ir a algum outro lugar para aprender o que precisam, bem, Illian tem bibliotecas tão boas quanto as de Tar Valon, e elas ensinarão a Lady Elayne tanto sobre governar e fazer intrigas quanto as bruxas. Ninguém sabe mais de intriga do que o povo de Illian. E se os Guardas não puderem ensinar ao Lorde Gawyn o suficiente sobre ser um soldado, bem, existem soldados em Illian também. E em Shienar, e Tear também. Eu sou um bom homem da Rainha, mas digo que devemos encerrar todo esse imbróglio com Tar Valon. Três mil anos é tempo suficiente. Tempo demais. A Rainha Morgase pode nos liderar e ajeitar as coisas sem ajuda da Torre Branca. Eu lhes digo, eis ali uma mulher que deixa um homem orgulhoso de se ajoelhar perante ela para ser abençoado. Ora, uma vez…”
Rand lutava contra o sono pelo qual seu corpo gritava, mas o rangido ritmado e o balanço da carroça o ninaram e ele começou a flutuar ao som monocórdio da voz de Bunt. Sonhou com Tam. No começo eles estavam à grande mesa de carvalho da casa da fazenda, tomando chá, enquanto Tam lhe contava sobre Príncipes Consortes, e Filhas-herdeiras, e a Muralha do Dragão, e homens Aiel de véus negros. A espada com a marca da garça jazia na mesa entre eles, mas nenhum dos dois olhava para ela. Subitamente ele estava na Floresta do Oeste, puxando a liteira improvisada pela noite enluarada. Quando olhou para trás, era Thom quem estava na liteira, não seu pai, sentado de pernas cruzadas e fazendo malabarismos à luz do luar.
— A Rainha é casada com a terra — disse Thom enquanto bolas coloridas brilhantes dançavam em um círculo. — Mas o Dragão… o Dragão é um com a terra, e a terra é uma com o Dragão.
Mais adiante Rand viu um Desvanecido vindo, o manto negro imperturbável pelo vento, o cavalo caminhando silencioso como um fantasma entre as árvores. Duas cabeças cortadas pendiam do alforje do Myrddraal, pingando sangue que corria em filetes mais escuros pelo ombro negro como carvão de sua montaria. Lan e Moiraine, rostos distorcidos em esgares de dor. O Desvanecido puxava um punhado de cabrestos enquanto cavalgava. Cada cabresto seguia até os punhos amarrados de um daqueles que corria atrás dos cascos silenciosos, os rostos lívidos de desespero. Mat e Perrin. E Egwene.
— Ela não! — gritou Rand. — Que a Luz o exploda! Sou eu que você quer, não ela!
O Meio-homem fez um gesto, e chamas consumiram Egwene, a carne ardendo até virar cinzas, ossos enegrecendo e se esfarelando.
— O Dragão é um com a terra — dizia Thom, ainda fazendo malabarismos despreocupadamente —, e a terra é uma com o Dragão.
Rand gritou… e abriu os olhos.
A carroça rangia pela Estrada de Caemlyn, repleta da noite e da doçura do feno havia muito desaparecido, e do leve cheiro de cavalo. Uma forma mais escura do que a noite repousava sobre seu peito, e olhos mais escuros do que a morte olhavam diretamente nos seus.
— Você é meu — disse o corvo, e o bico afiado perfurou seu olho. Ele gritou quando o corvo arrancou seu globo ocular.
Com um berro ensurdecedor, ele se sentou, levando as duas mãos ao rosto.
A luz da manhã banhava a carroça. Zonzo, ele olhou para as mãos. Não havia sangue. Não havia dor. O resto do sonho já estava desaparecendo, mas aquilo… Apalpou cautelosamente o rosto e estremeceu.
— Pelo menos… — Mat bocejou, estalando o maxilar. — Pelo menos você dormiu um pouco. — Não havia muita simpatia nos seus olhos cansados. Ele estava encolhido embaixo do manto, com o cobertor enrolado dobrado sob a cabeça. — Ele falou a noite inteira.
— Está de todo acordado? — perguntou Bunt, do banco do condutor. — Você me deu foi um susto danado gritando assim. Bom, já chegamos. — Sua mão deslizou diante deles num gesto grandioso. — Caemlyn, a maior cidade do mundo.
35
Caemlyn
Rand se virou para se ajoelhar atrás do banco do condutor. Não conseguiu deixar de rir de alívio.
— Nós conseguimos, Mat! Eu lhe disse que nós íamos…
As palavras morreram em sua boca quando pôs os olhos em Caemlyn. Depois de Baerlon, ainda mais depois das ruínas de Shadar Logoth, ele havia pensado que sabia como seria uma grande cidade, mas aquilo… aquilo era mais do que ele teria acreditado.
Do lado de fora da grande muralha, prédios se aglomeravam como se todas as cidadezinhas pelas quais passara tivessem sido reunidas e colocadas ali, lado a lado, e compactadas. Estalagens despontavam com seus andares superiores acima dos telhados das casas, com armazéns atarracados, largos e sem janelas, em meio a todos eles. De tijolo vermelho, pedra cinza e branco caiado, juntos e misturados, as construções se espalhavam até onde os olhos podiam ver. Baerlon podia ter desaparecido dentro dela sem ser notada, e Ponte Branca poderia ser engolida vinte vezes e mal fazer marola.
E a muralha em si. Com a altura impressionante de quase dez braças de pura pedra cinza-clara, com veios de prata e branco, ela se estendia num grande círculo, curvando-se para norte e sul até ele se perguntar até onde ela iria. Por toda sua extensão erguiam-se torres, redondas e imponentes acima da altura da própria muralha, com bandeiras vermelhas e brancas drapejando ao vento no alto de cada uma. Do lado de dentro da muralha divisavam-se outras torres, mais finas e ainda mais altas que as muralhas, e cúpulas reluzindo brancas e douradas ao sol. Mil histórias haviam pintado cidades em sua mente, as grandes cidades de reis e rainhas, de tronos, poderes e lendas, e Caemlyn se encaixava naquelas imagens mentais como a água em um jarro.
A carroça seguiu rangendo pela ampla estrada em direção à cidade, rumo aos portões flanqueados por torres. Os carroções de um comboio de mercadores saíram daqueles portões, sob um arco imenso de pedra pelo qual poderiam passar dez gigantes lado a lado. Mercados abertos cercavam a estrada de ambos os lados, com telhas vermelhas e púrpura brilhando, com baias e chiqueiros nos espaços intermediários. Bois mugiam, gansos grasnavam, galinhas cacarejavam, cabritos berravam, ovelhas baliam e pessoas barganhavam a plenos pulmões. Uma muralha de ruído se afunilava, conduzindo-os aos portões de Caemlyn.
— O que foi que eu disse? — Bunt teve de falar mais alto, quase gritando, para ser ouvido. — A maior cidade do mundo. Construída pelos Ogier, sabe? Pelo menos a Cidade Interior e o Palácio. Para vocês verem a idade de Caemlyn. Caemlyn, onde a boa Rainha Morgase, que a Luz a ilumine, faz a lei e mantém a paz em Andor. A maior cidade da terra.
Rand estava pronto para concordar. Boquiaberto, tinha vontade de tampar os ouvidos com as mãos para abafar o burburinho. A estrada estava lotada, tão cheia quanto o Campo no Bel Tine. Lembrou-se de achar inacreditável a quantidade de gente em Baerlon, e quase riu. Olhou para Mat e abriu um sorriso. Mat estava de fato tampando as orelhas com as mãos, e com os ombros encolhidos como se quisesse cobri-las com eles também.
— Como é que nós vamos nos esconder aqui? — perguntou alto quando viu Rand olhando. — Como vamos saber em quem confiar com tanta gente? Tanta maldita gente. Luz, que barulho!